
Tempo de Amar - Robin Jones Gunn
Srie Cris 10


Um maravilhoso fim de semana num confortvel barco, parece indicar que algo muito bom est para acontecer na vida de Cris. E o clima de romance que surge nesse passeio
a leva a pensar que seu ltimo ano no colgio ser tambm TEMPO DE AMAR 
Sua melhor amiga, Katie, decide arranjar um namorado a qualquer custo e acaba fazendo a escolha errada. Pra piorar as coisas, Douglas, outro grande amigo, no conforma 
com a idia de que Cris e Ted vo namorar firme. E ainda por cima um rapaz da escola est sempre no seu p, certo de que vai conquistar seu corao. Ser que Cris 
conseguir manter sua amizade com Katie apesar de no concordar com as decises que ela est tomando? Que rumo tomar seu relacionamento com Ted, j que eles quase 
no tm tempo para ficarem juntos? Como livrar-se do chato da escola? E o que fazer para no ferir os sentimentos de Douglas?





Ttulo original: A Time to Cherish  Traduo de Elizabeth Gomes
Editora Betnia, 1998 Digitalizado e revisado por deisemat
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Para um casal de "tesouros peculiares" de Escondido, John e Debbie Ferguson, que me deram minha primeira mquina de escrever e me mandaram escrever um livro.
E  minha editora e verdadeira amiga, Beverly Rykerd, que abriu seu corao e seu lar para mim e est sempre pronta a ouvir-me.
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   










Sem Garantias
1
   
   
      Cris Miller acordou de repente. Remexeu as pernas suadas para sair do saco de dormir e comprimiu os olhos no escuro, tentando lembrar-se de onde estava. A 
cama parecia balanar levemente de um lado para outro.
      Lembrou-se ento. Estava num barco. A idia fora da tia Marta - fazer uma festa no final de semana do Dia de Trabalho. *
      Dava para escutar Katie, sua melhor amiga, ressonando no outro lado da cabine. Cris vestiu o moletom e colocou os ps descalos no cho frio. Caminhando at 
a proa saiu e fechou a porta de vidro s suas costas. Respirou fundo o ar fresco da manh.
      O cu ainda no despertara de todo, mas parecia erguer-se lentamente, esfregando os olhos para dissipar a fina camada de nuvens cor-de-rosa que lhe obscureciam 
a vista, atento em seguida ao seu reflexo no espelho sereno da lagoa.
      O dia prometia ser perfeito. Dava para sentir no cheiro da brisa suave que vinha da lagoa. Naquele instante, algo caiu na gua. Ela imaginou que fosse o Ted, 
ou o Douglas. Os dois haviam dormido sob as estrelas, na cobertura do barco.
      Da a pouco a cabea loira, quase branca do Ted surgia  tona. Ele no notou que Cris o observava e continuou a nadar, dando fortes braadas de peito. Virando 
para flutuar de costas, falou em meio ao ar da madrugada:
      -         Senhor, Senhor nosso! Quo admirvel  o teu nome em toda a Terra! Pois expuseste nos cus a tua majestade!
      Cris no pde deixar de sorrir. Ted era assim.
      Aproximou-se da amurada, sem saber se interrompia ou no a conversa dele com Deus. No ltimo passo, seu p enroscou-se no canto de uma cadeira de praia dobrada, 
fazendo com que casse e fizesse um barulho enorme. Ted girou na gua e comeou a nadar de volta ao barco.
      Cris alisou depressa o cabelo cor de noz-moscada e tentou melhorar a aparncia da sua trana. Provavelmente/ estou horrorosa! No mnimo, com a cara amassada.
      Lembrou-se ento que era esse mesmo o jeito do Ted, e que ele nunca fora do tipo que julga as pessoas pelas aparncias. Esperava que ele se lembrasse disso 
ao v-la do jeito que estava, isto , acabando de sair do saco de dormir.
      O rapaz agarrou uma das cordas penduradas na parte traseira da embarcao, e subiu pela escada para o convs.
      -        Ol! disse Cris, timidamente. Como est a gua?
      Ted sorriu e pegou uma toalha de praia na sacada. Seus olhos azul-prateados encontraram-se com os de Cris, e ele sussurrou:
      - Quer ver por si mesma?
      - De jeito nenhum!
      - Nem um chuveirinho frio? perguntou, sacudindo o cabelo  frente dela, como faz um cachorro quando est molhado.
      - Est bem, exclamou com uma risada, erguendo as mos para se proteger. Voc me convenceu; est fria mesmo!
      - Refrescante, corrigiu Ted, enfiando na cabea um suter de malha com capuz azul-marinho e metendo as mos no bolso. Voc  a nica que se levantou?
      - Acho que sim.
      - A viagem ontem foi longa.  provvel que todos durmam at mais tarde. Por que se levantou to cedo?
      - Estava muito quente no saco de dormir. Deve ter sido feito para temperaturas abaixo de zero.
      - Sei um jeito timo de refresc-la. Vamos dar um giro pela lagoa.
      - Em qu? Se ligarmos o barco de esquiar, vamos acordar todo mundo.
      - Ento a gente leva o bote, disse Ted.
      Puxando o monstro inflado amarelo do lado do barco, dei o cair na gua:
      - Primeiro as damas, falou ele.
      Numa questo de segundos, passou pela cabea de Cris toda a resistncia que ela poderia opor. Ser que entrariam em alguma enrascada por sarem assim sem falar 
com ningum? No. Bob e Marta confiavam no Ted. E se ela molhasse o moletom? E da? Poderia trocar por uma roupa seca quando voltassem. No conseguindo pensar num 
bom motivo para no ir, Cris desceu para o bote, que bordejava.
      Ted agarrou dois remos, puxou o capuz de seu moletom, amarrou a toalha de praia  cintura, sobre o calo molhado, e desceu para o bote. Remaram em silncio, 
distanciando-se da enseada, e indo em direo  parte mais aberta do lago. 
      Bastou uma olhada no rosto de Ted, e Cris compreendeu que ele considerava esse passeio uma grande aventura. Ele vibrava com aventuras. A ambio de sua vida 
era tornar-se missionrio e viver no meio da selva.
      Cris tambm gostava de aventuras, pelo menos gostara das poucas que experimentara em seus dezessete anos de vida. Mas no tinha certeza de que iria querer 
passar o resto da vida no meio da selva. Talvez se ela conseguisse um modelador de cabelo que funcionasse sem eletricidade.
      - No  lindo? perguntou ele, olhando para o cu, que despertava.
      Apontou numa trilha de nuvens brancas como algodo desfilando pelo azul infinito.
      - As nuvens so o p dos ps de Deus! exclamou ele.
      Cris sorriu, achando graa da veia potica do Ted. Ele parecia um monge com o capuz sobre a cabea.
      - No fui eu que inventei essa. Foi um profeta do Antigo Testamento. Naum, para ser exato. Sempre penso nesse versculo quando vejo nuvens sugerindo que Deus 
saiu a caminhar pela manh, sobre a face da terra.
      Cris j conhecia aquele olhar do Ted. Tinha-o visto muitas vezes durante os dois anos em que se conheciam, dois anos mais cheios de altos e baixos do que um 
elevador. Mas uma coisa nunca mudara: o amor do Ted por Deus. Vrias vezes Cris desejou que Ted tivesse por ela um dcimo da dedicao que tinha por Deus.
      No  que ela no amasse a Deus. Amava. Havia consagrado o corao ao Senhor havia mais de dois anos e desde ento havia crescido muito espiritualmente. Mas 
a nica coisa que o Ted lhe prometera era que seriam amigos para sempre. O que isso significava?
      Na semana seguinte ela iniciaria seu ltimo ano do segundo grau, e o Ted estava no segundo ano de faculdade. Que idade um rapaz precisava ter para manter com 
uma garota um compromisso realmente firme, srio?
      - Sabe o que isso me lembra? perguntou Ted. quela manh na praia.
      - Voc est falando daquela manha de Natal dois anos atrs quando fizemos o caf da manh e as gaivotas comeram tudo?
      Ted sorriu.
      - J tinha quase me esquecido dessa. No, estou falando daquela manh no ano passado. Voc se lembra? Encontramo-nos por acaso na neblina, na praia.
      Cris sentiu um aperto no estmago. No gostava muito de se lembrar dessa outra manh.
      - E aqui estamos, disse ela, tentando esquecer o aperto, saindo juntos de novo, de madrugada. S que desta vez voc no me est dizendo que vai embora para 
o Hava para surfar, sem previso de volta. Ou estaria?
      - No, disse Ted, abaixando o remo e deixando o barco vagar. Colocou as mos atrs da cabea e recostou-se na lateral do bote.
      - E voc tambm no est tentando devolver-me sua pulseira de chapinha, concluiu.
      Cris olhou a pulseira de ouro no brao direito. A expresso "Para Sempre" brilhava ao sol que nascia.
      - Eu queria que voc tivesse liberdade de ir ao Hava sem sentir obrigao pra comigo.
      - E eu queria que voc tivesse liberdade de sair com o Rick sem sentir que eu a impedia.
      Cris suspirou.
      - Agora eu queria que voc tivesse impedido. No tenho recordaes muito agradveis do tempo que namorei o Rick.
      - Mas tinha que tomar sua prpria deciso, disse Ted. Eu nunca tomaria uma deciso dessas por voc. Na verdade, estaria roubando de voc o que voc . H grande 
valor em tudo que nos acontece. Simplesmente temos de procurar descobrir o que .
      Cris recostou-se, sentindo no lado esquerdo do rosto o calor do sol. Pensou muito sobre o Rick e seu jeito dominador, imaginando que valor poderia ter surgido 
daquele relacionamento. No namoro com o Rick ela talvez tivesse aprendido a definir melhor o tipo de rapaz com quem ela queria estar. E agora, mais que nunca, reconhecia 
que esse rapaz era o Ted.
      - O que voc espera de mim, Cris? perguntou ele de repente, como se tivesse lido seus pensamentos.
      - Que voc quer dizer com isso?
      - Voc quer um compromisso maior do que temos no momento, no ?
      Cris sentiu o rosto enrubescer - no por causa do sol. 
      - Por que diz isso?
      - Sua tia teve uma conversa comigo ontem, na vinda para c. Voc viajava na caminhonete, em companhia da Katie e do Douglas. Ela me disse que se eu no marcasse 
logo meu territrio, voc acabaria se envolvendo com outro rapaz. Ela acha que j  tempo de definirmos nosso relacionamento, de revelar a todos que estamos namorando 
firme.
      Cris estava realmente envergonhada. Tia Marta sempre dizia o que queria, mas o Ted nunca parecia prestar muita ateno. Por que ser que estava levantando 
esse assunto agora?
      - Ted, voc conhece minha tia. Isso foi idia dela, no minha.
      - Foi o que ela me disse.
      Cris abanou a cabea.
      - Peo desculpas por ela e...
      - No precisa. Eu teria deixado passar, mas o Douglas anda me perguntando sobre o nosso relacionamento. Acho que voc sabe que faz tempo que ele quer sair 
com voc.
      - O Douglas?
      Ted acenou que sim.
      - Voc no sabia?
      - No, eu estava com esperana de que ele e a Katie namorassem.
      Ted deu de ombros. Por alguns minutos, houve silncio.
      -        E ento? indagou Ted, aproximando-se e olhando-a nos olhos. Sinto que temos um problema a resolver. O que voc realmente pensa, Kilikina? Voc quer 
um compromisso mais srio comigo?
      Cris sempre se derretia quando o Ted a chamava por seu nome havaiano. Durante dois anos ela desejara que ele lhe fizesse essa pergunta. Mas no estava esperando. 
No ali. No nessa manh. Se no fossem seus ps descalos, formigando por causa da poa d'gua no fundo do bote, ela teria pensado que ainda estava dormindo, e 
tendo um sonho romntico.
      - No sei, disse ela, surpresa com sua resposta to indecisa.
      - Ento me diga o que voc pensa.
      - De voc?
      - De mim, de ns. Preciso saber o que voc pensa e sente.
      - Bem, sinto-me tima quando estou com voc. Confortvel. Sinto sua falta quando voc no est por perto. Penso em voc o tempo todo e oro por voc todos os 
dias. Voc faz com que eu me sinta mais prxima de Deus e, perto de voc, nunca
me vejo forada a ser diferente do que sou. Gosto de voc mais do que de qualquer outro rapaz que conheo.
      Lentamente, um sorriso foi tomando conta do rosto do Ted. Parecia que as palavras de Cris o esquentavam de dentro para fora. Antes ela nunca conseguira dizer 
to claramente o que sentia a respeito dele. Era bom abrir o corao assim. Ela tentara fazer a mesma coisa um ano atrs, no encontro da madrugada na praia, mas, 
obviamente, no era o momento certo. Ted no lhe dera ouvidos. Nessa manh, no entanto, ele vibrava s de ouvi-la.
- Sinto o mesmo por voc, disse ele. Tem sido importante para mim esse tempo todo a gente levar a coisa devagar. Nunca desejei que nosso relacionamento avanasse 
depressa demais.
- Dois anos no  depressa demais, retrucou Cris com um sorriso maroto.
      - Mais ou menos o tempo certo, eu diria.  assim com Deus, sabe. Ele sempre nos atende na hora certa, mas raramente antes da hora.
      Cris mal podia acreditar no rumo bom que essa conversa estava tomando. Ela e Ted no conversavam muito sobre seus sentimentos. Um pouco de empolgao, misturado 
a certa apreenso comeou a surgir.
      Novamente tudo estava quieto, e as ondulaes do lago sacudiam de leve o bote. Ted quebrou o silncio com uma risada nervosa.
      - No sei como dizer. Agora estamos namorando a srio mesmo ou o qu?
      - No sei. Estamos? perguntou Cris devolvendo a pergunta.
      -  o que voc quer, no ?
      - Sim, quero dizer, se voc quiser.
      -  o que quero, disse Ted com firmeza. Quero ser seu namorado, ainda que deteste usar esse termo. Voc sabe que no gosto de rtulos. Acho que todos os atos 
e atitudes de uma pessoa revelam o que est no corao dela. Uma coisa no vem de dentro simplesmente porque a gente falou. Se algo realmente estiver em nosso corao, 
ir manifestar-se naquilo que fazemos.
      Cris concordou. Sabia exatamente o que o Ted queria dizer com isso. O relacionamento dos dois sempre estivera acima de rtulos. Ted fora sempre sincero quando 
se dizia seu amigo, no importava o que acontecesse.
      - Ento, agora estamos oficialmente namorando, disse Ted, endireitando os ombros largos e dando um sorriso que mostrava a covinha na bochecha direita. Voc 
se sente diferente?
      - No; no exatamente.
      - Nem eu. Talvez isso seja bom. Talvez tudo ainda esteja no mesmo nvel conosco, s que agora temos uma resposta a dar aos outros. Estamos namorando.
      Cris ouviu com enorme felicidade a voz profunda do Ted quando disse: "Estamos namorando." Adorava sentir-se mais segura em seu relacionamento.
      - Estou feliz, disse baixinho.
      - Eu tambm, disse Ted, e completou com carinho: Voc  uma pessoa incrvel, Kilikina. Eu a tenho no meu corao. Voc  a nica garota que beijei. No sou 
o mesmo desde aquela noite logo depois que nos conhecemos, e eu a segui nas pedras quando voc saiu da festa do Sam.
      - Eu me senti to infantil naquela noite! Todo mundo estava bebendo e eu era muito ingnua.
      - Voc era inocente, Cris. Voc no faz idia de como isso a tornava linda.
      Cris sentiu vontade de chorar.
      - Ted, eu... principiou ela, no sabendo expressar direito o que sentia. Estou realmente contente, quero dizer, isso  to...sei l.  to certo. Estou realmente 
contente por estarmos levando nosso relacionamento pra frente.
      - Eu sei. Eu tambm.
      Naquele instante, o ronco do motor de uma lancha rompeu o momento mgico. Ted fechou um pouco os olhos e ps-se a acenar.
      -         o Douglas e a Katie. Aposto que ele est pronto para esquiar pra valer!
      Douglas desligou o motor e fez a lancha deslizar devagar em direo ao bote.
      -        Ol, marujos!
      Ele trazia um leno amarrado nos cabelos loiros e curtos,  maneira dos piratas. Havia um tringulo verde de protetor solar sobre o nariz. O sorriso largo 
que se espalhara pelo seu rosto mostrou que estava de bom humor, como sempre.
      -        Precisam de reboque at a caverna antes que naufraguem? indagou.
      
      Ted virou-se para Cris, e disse:
      -        Isso no seria to ruim, seria?
      -        O qu? Ser levados de reboque de volta  praia ou naufragar?
      Ted no respondeu e por um instante os dois se entreolharam, os olhos revelando mil segredos do corao.
      -        Acho que estamos interrompendo alguma coisa, disse Katie, agitando os cabelos ruivos, os olhos fitos em Cris e no Ted, e olhando em seguida para o 
Douglas.
      Levantou uma bandeira alaranjada, usada para indicar que o esquiador caiu na gua. Balanando a bandeira como se fosse varinha de condo, perguntou:
      -        Me digam, vocs dois: perdemos alguma coisa hoje de manh? Vocs tm alguma coisa a nos revelar?
      Cris sentiu-se ruborizar e ficou se perguntando at quando ela teria esse tipo de reao.
      - Andamos olhando a poeira dos ps de Deus, respondeu Ted. E fizemos algumas promessas, acrescentou num sussurro que s Cris escutou.
      - E ento, que tal ns fazermos um pouco de poeira de ondas? perguntou Douglas. Pronto para quebrar um pouco desse vidro?
      - Esperem! Queremos que vocs nos reboquem primeiro! gritou Katie. Eu vou no bote com a Cris e vocs nos rebocam at o barco.
      -        Desde que prometam ir devagar! acrescentou Cris.
      Douglas jogou uma corda comprida para o Ted amarrar o bote atrs da lancha, enquanto Katie se transferia para a embarcao menor. Ted subiu a escadinha perto 
do leme e apertou o n das cordas.
      -        Est certo, os sinais so os seguintes: polegar para cima, ir mais depressa. Um dedo "cortando" o pescoo quer dizer pare, e o polegar para baixo 
quer dizer mais devagar.
      Cris colocou o dedo para baixo, e disse:
      - Estou falando srio, gente. Vo devagar!
      -  melhor achar alguma coisa em que segurar, gritou Ted da lancha. Jogou dois coletes salva-vidas alaranjados e instruiu as meninas sobre como vesti-los.
      Cris colocou o colete por cima da malha e agarrou um cabo preto do lado do bote.
      - De quem foi essa idia? indagou.
      - Minha, disse Katie destemida e, fitando os olhos azul-esverdeados da amiga, perguntou: O que h?
      - O que h o qu? perguntou Cris.
      - O que h com vocs?
      - Que  que voc quer dizer?
      Katie colocou a mo na cintura, virou a cabea de lado e examinou a expresso do rosto de sua melhor amiga.
      - Eu acertei! Havia alguma coisa acontecendo entre vocs dois agora h pouco. Voc est escondendo alguma coisa, Cristina Juliete Miller. No est?
      Cris no respondeu com palavras, mas o sorriso que lhe escapava dos olhos revelava tudo.
      - Eu sabia! exclamou Katie, alto o bastante para acordar os peixes que ainda estivessem dormindo. No me diga - deixe-me adivinhar. Voc e o Ted esto finalmente 
namorando!  isso?
      Cris olhou para a lancha, esperando ver o sorriso confiante do Ted. Em vez disso, viu a expresso sorridente do Douglas transformar-se numa cara fechada.
      Naquele instante, Douglas deu partida no motor com um ronco forte. A corda estendeu-se e o bote deu uma arrancada na gua. Cris gritou:
      - Vai mais devagar!
      Douglas acelerou, fazendo com que a lancha se deslocasse em alta velocidade. O bote parecia voar sobre as ondas. As duas se agarraram nele, gritando e tentando 
fazer os gestos de "devagar" e "pare". Douglas deu uma guinada  direita e o bote saltou sobre uma onda. Antes que conseguissem equilibrar, outra onda, maior, pegou 
o bote por baixo, jogando as garotas dentro da lagoa.
      Os coletes salva-vidas as trouxeram logo  superfcie, e Katie e Cris equilibraram-se verticalmente, gritando ameaas aos dois.
      - O Douglas fez isso de propsito! falou Katie, vendo-os virar a lancha para vir peg-las. E tenho umas idias boas para nos vingarmos dele este final de semana.
      Mesmo atravs da gua cristalina do lago, Cris reconhecia o olhar de moleca da sua amiga ruivinha.
      - Deixo para vocs os jogos de vingana, disse Cris, sentindo o peso do moletom encharcado. No quero entrar em nenhuma brincadeira, a no ser que me garantam 
que no sairei machucada.
      Katie inclinou levemente a cabea, e riu.
      -  tarde demais!
      Agora Cris estava ao lado de Katie na gua. Os rapazes jogaram a corda.
      - S porque fomos derrubadas na lagoa uma vez pelo Douglas, no quer dizer que  tarde demais, interveio Cris.
      - Eu no estava me referindo ao Douglas. Estava falando do Ted. Alguma coisa aconteceu entre vocs dois. D para notar. E seja l o que for, acho que  tarde 
demais pra garantir que voc no vai se machucar no final.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
Aproveite o Momento Presente
2



      
      Quando os quatro chegaram ao barco, Bob gritou da janela da cozinha:
      - Chegaram na hora das panquecas. Sentiram o cheiro delas l da lagoa?
      Os rapazes atracaram a lancha, e as garotas, encharcadas, torceram mais uma vez as barras de suas malhas antes de pisar no convs.
      - Os rapazes querem voltar a esquiar, enquanto o dia ainda est calmo, disse Katie ao Bob.
      - Sem problemas. O caf ser servido a manh toda na minha cozinha.
      Abriu a porta corredia de tela e, olhando firme para Cris, perguntou:
      - Voc pretende entrar em alguma espcie de concurso de ratos afogados que eu desconhecia?
      - O nico concurso de ratos afogados por aqui s vai envolver uns certos jovens piratas - dois, para ser exata - informou Katie.
      - Algum que ns conhecemos? indagou Bob, os olhos alegres brilhando.
      Para um homem na casa dos cinquenta anos, que nunca tivera filhos, ele parecia gostar da presena de Cris e seus amigos. Seu jeito tranquilo e bonacho fazia 
dele uma espcie de tio adotivo amado por todos. A nica pessoa que discutia com Bob era tia Marta, mas ela se desentendia com todo mundo, um dia ou outro.
      - Vamos l, Katie! gritou Douglas da lancha. Precisamos que voc venha conosco para segurar a bandeira.
      - Meu pblico me chama, disse Katie, colocando as costas da mo na testa de modo dramtico. Ah! O preo da fama!...
      Cris riu-se de sua amiga brincalhona.
      - V! Atenda o chamado dele, Katie! Eu fico atrs e ponho roupas secas, e vou encher a barriga de panquecas. Voc quer uma camiseta seca?
      - No  m idia. Jogue uma toalha tambm.
      Logo que a lancha partiu, com Katie agitando vigorosamente a bandeira num adeus brincalho, Cris vestiu um mai e uma camiseta enorme. Desfazendo a trana 
emaranhada, foi para a cozinha onde estava Bob, e comeou a escovar o cabelo molhado. O excesso de gua gotejava no cho, ao sacudir a cabea, com os movimentos 
que fazia com a escova.
      - Lindo dia, comentou o tio, colocando mais uma panqueca com frutinhas sobre a travessa j repleta. No podamos ter pedido um tempo melhor.
      - Bom dia a todos! disse Marta, abrindo a porta do seu quarto nos fundos.
      Naquele instante, Cris jogou o longo cabelo para trs. A gua voou pela pequena cozinha, como se estivesse mirando diretamente a tia Marta, dando-lhe um banho.
      - Pare imediatamente com isso! gritou ela.
      Cris virou-se e encontrou sua delicada tia vestindo um conjunto de marinheiro borrifado de gua. At mesmo seu cabelo escuro, perfeitamente arrumado, estava 
coberto de "orvalho".
      - Desculpe, tia Marta. Foi sem querer.
      - Est tudo bem, disse Bob, entregando uma toalha felpuda para sua irritada mulher. Um pequeno despertar matinal, s para voc. Mais eficaz que uma xcara 
de caf forte.
      - Eu j estava acordada. Obrigada! Retrucou sem jeito, tomando a toalha das mos de Bob.
      E correndo os olhos pela cozinha perguntou:
      - Onde esto os rapazes?
      - Saram para esquiar com a Katie.
      A expresso de Marta mudou. Assim que viu seu "auditrio" reduzido ao Bob e  Cris, pareceu menos aborrecida do que fizera supor. Com a toalha, deu mais uma 
acertada em sua maquiagem perfeita, virou-se para a sobrinha e disse:
      - Voc poderia pensar em secar o cabelo no banheiro, no resto da viagem.
      - Est certo. E me desculpe. Eu no vi voc.
      Bob entregou uma caneca  esposa, e disse:
      - Baunilha com avels, o seu favorito. Est pronta para o caf?
      Marta aceitou a oferenda de paz e sentou-se  mesa; Cris sentou-se do outro lado e se serviu de trs panquecas fumegantes.
      - Que cheiro delicioso!
      Cris esperava que o azedume da tia acabasse logo, de preferncia antes que seus amigos voltassem. Conhecia de sobra o gnio delicado de Marta, seus altos e 
baixos, e sabia que em boa parte seus modos eram espontneos; seu jeito, natural. Ainda assim, sentiu-se culpada, como se tivesse a obrigao de manter-lhe o bom 
humor.
      - O nascer do sol foi maravilhoso hoje, disse, esperando despertar a conversa. Voc vai comer conosco, tio Bob?
      Ele olhou as trs panquecas na frigideira e desligou o fogo.
      - Claro, temos bastante aqui para comear.
      Colocou as panquecas quentes no prato e sentou-se  cabeceira da mesa.
      - Vocs se importam se eu fizer uma orao? perguntou Cris.
      J tinha passado por essa situao muitas vezes, j que seus tios no eram do tipo que oram antes das refeies. Cris resolveu que no deixaria de orar s 
porque eles no faziam isso normalmente.
      Bob e Marta se entreolharam e em seguida abaixaram a cabea respeitosamente. Cris orou em voz alta, agradecendo a Deus pela viagem com segurana, pelo dia 
maravilhoso, pelo alimento, por Katie, os rapazes, Bob e Marta. Quando ergueu os olhos, aps o "amm", viu Marta de cabea erguida e olhar furioso.
      - A comida pode esfriar enquanto voc distribui bnos pelo mundo todo!
      Era bvio que ainda estava de mau humor. Cris achou melhor no dizer nada e comeou a cortar as panquecas.
      - No entendo como voc consegue comer desse jeito e continuar esbelta, disse Marta, enquanto tomava apenas o caf. Espero que esteja malhando as coxas, como 
eu lhe disse. Sempre foi um problema para as mulheres na nossa famlia. D para voc ver que as coxas da sua me sucumbiram  herana gentica. Voc no pode deixar 
que o mesmo acontea com voc. 
      De propsito, Cris enfiou um pedao de panqueca na boca e o saboreou antes de dizer:
      - Na verdade, tia Marta, acho que minha me est muito bem do jeito que ela , e acho que estou bem do jeito que sou. Enquanto tivermos sade, acho que no 
devemos nos importar demais com as linhas do corpo.
      - Talvez voc no se importe, mas os homens certamente notam. Guarde isso na cabea, se voc acha que vai atrair um jovem simplesmente porque "tem sade".
      - No preciso me preocupar com isso, murmurou baixinho.
      Sabia que no devia jogar indiretas  tia, principalmente quando se tratava do Ted. Sobretudo se queria manter segredo. Entretanto a notcia de que ela e Ted 
estavam namorando provavelmente tiraria de Marta a disposio de criticar.
      - O que voc disse, Cristina? No escutei.
      Cris descansou o garfo e deu um longo suspiro.
      - Acho que vocs dois gostariam de saber que eu e o Ted conversamos sobre o nosso relacionamento hoje cedo e...
      Marta apertou as mos, interrompendo-a:
      - Eu sabia! Sabia que ele seguiria meu...quer dizer, que o Ted tomaria a iniciativa de oficializar o relacionamento de vocs. Que maravilha, Cris!
      - Bem, na verdade nada mudou, s definimos as coisas.
      - Ento vocs esto comprometidos um com o outro. Isso  maravilhoso!
      Marta mudou completamente; de ranzinza tornou-se alegre como um dia de sol.
      - No estamos "comprometidos". Estamos namorando.  assim que o Ted colocou as coisas.
      - Isso  maravilhoso! Disse Marta, triunfantemente. Vocs esto firmes!  o primeiro passo, e para vocs dois, definitivamente o prximo passo.
      Empurrou a xcara de caf para o lado e encostou-se na mesa para dar  sobrinha alguns dos seus conselhos.
      - Ter um namorado firme no seu ltimo ano do colegial, continuou, torna as coisas muito mais fceis para voc. Jogos de futebol, o banquete de Natal, o baile 
de formatura - nunca ter de se preocupar em ter com quem ir. Quando voc se formar, o Ted ter mais dois anos de faculdade pela frente e a vocs devero freqentar 
a mesma universidade. Prefiro uma mais ou menos perto de casa. Talvez Irvine ou UCLA. Voc pode se casar no vero, aps seu segundo ano, porque a o Ted j estar 
formado. Ento, enquanto voc termina a faculdade, o Ted completa o seu mestrado.  simplesmente perfeito!
      Cris no pode deixar de rir-se.
      - Voc planejou tudo, no  mesmo? E se no for isso que Deus quer pra ns?
      Marta pareceu surpresa.
      - Por que no seria? Deus no quer o melhor para voc? Acho que at Deus teria de concordar que o Ted  o melhor para voc.
      Mais uma vez Cris riu-se da "teologia" de sua tia.
      - Acho que Deus d o melhor queles que deixam a deciso com ele.
      Marta pensou no assunto por um instante, e estava prestes a contrapor-lhe um comentrio quando Bob interrompeu:
      - Aproveite o momento presente, Cris. Ningum sabe que futuro a espera. Viva o momento e deixe que as coisas simplesmente aconteam.
      - Certamente no h nada de errado em planejar o futuro, disse Marta. Se a Cris no pensar nisso agora, pode acabar cometendo um erro de que se arrependa pelo 
resto da vida.
      - Mas no precisa fazer todas essas decises hoje, disse Bob baixinho.
      Voltando-se para Cris, tomou-lhe a mo, apertou-a e continuou:
      - Estamos realmente contentes por voc, Olhos Brilhantes. O Ted  um rapaz de sorte por ter uma jovem como voc na vida dele. Vou faz-lo ver a sorte que tem, 
pode ter certeza.
      - E voc, prometa que ser sempre digna dele, aconselhou Marta. No existem muitos como ele no mundo de hoje.
      - Eu sei, disse Cris, o corao a bater forte s de pensar em Ted.
      No fundo da mente, ainda lhe ressoavam as palavras de Katie, como uma pequena nuvem de tempestade vinda em sua direo. Cris afastou a idia. Afinal, que sabia 
a Katie sobre relacionamentos? Nunca tivera um namorado. Talvez isso tudo mudasse durante o final de semana, se o Douglas apenas notasse que tesouro ela era.
      - Mais panquecas? ofereceu Bob.
      - Pra mim no, disse Cris. Estavam deliciosas. Imagino que, quando os rapazes chegarem, acabaro com o que sobrar.
      A previso de Cris estava certa. Ted e Douglas comeram tantas panquecas que ela at perdeu a conta. E Katie acompanhou os rapazes, comendo vrias.
      - So as melhores panquecas que j provei, disse a jovem, limpando a boca. Devem estar saturadas de acar, para eu gostar tanto assim. O acar  um dos meus 
quatro alimentos bsicos, sabiam?
      - E vocs, meninas, esto a fm de curtir um pouco mais o mar? perguntou Bob. Estou querendo dar mais uns giros de lancha. Vem algum comigo?
      Os quatro aceitaram o convite de Bob. Quando Cris subiu na lancha, sentou-se no primeiro lugar que achou, por acaso ao lado do Douglas. No momento em que sentou, 
ele se levantou e, sem olhar para ela, disse:
      - Acho que voc vai preferir sentar-se ao lado do Ted. Eu mudo de lugar.
      0 que  que h de errado com ele? Nem olhou para mim no caf da manh. Um rapaz de 22 anos... Quanta imaturidade. S porque a Katie anunciou que Ted e eu estamos 
namorando, no significa que ele no pode mais ser meu amigo.
      Ted foi o ltimo a subir na lancha, e sentou-se ao lado de Cris.
      - Quer esquiar um pouco primeiro, Bob? indagou Ted. Eu ou o Douglas podemos dirigir a lancha, se quiser.
      - Vocs rapazes vo primeiro. Antes quero sentir a lagoa. Quem vai? Douglas?
      - Claro, eu vou. Desta vez vou experimentar um esqui s.
      Ele abotoou o colete salva-vidas, e quando Bob parou a lancha nas guas mais fundas, mergulhou. Poucos minutos depois firmava os ps num nico esqui e se colocava 
em posio.
      - Vamos l! gritou. Em frente!
      Bob arrancou com a lancha, sulcando as guas azuis. Douglas ficou de p e equilibrou-se no esqui como se j tivesse feito isso mais de cem vezes.
      - Tem certeza que ele nunca andou num esqui s? Olhem para ele - parece um profissional! exclamou Katie.
      Douglas parecia cada vez mais ousado, ao deslizar de um lado para outro, saltitando o rasto de pequenas ondas que a lancha ia largando atrs de si. Percebendo 
que ele se equilibrava to bem, Bob passou a acelerar em cada curva. Uma virada brusca  direita os trouxe de encontro s ondas de um barco em alta velocidade que 
acabara de passar. O impacto da gua fez com que a lancha se erguesse e, ao descer, produzisse um baque surdo, forte. Para o Douglas, as ondas causadas pelo barco 
foram desastrosas, e ele caiu feio.
      - Isso merecia ter sido filmado, exclamou Katie, erguendo alto a bandeira, enquanto Bob desacelerava e voltava para pegar o rapaz. Ele no estava fantstico?
      Ento, mais alto para que Douglas pudesse ouvi-la da gua, acrescentou:
      - Voc foi fabuloso, Douglas! Queria ter tirado uma foto. Douglas acenou para Katie, e pareceu a Cris que sua alegre disposio estava de volta. Novamente 
a bordo, sua risada convenceu-a de que o que fosse que o estivesse incomodando, ficara para trs, na largada. Tremendo, sorrindo, e totalmente encharcado, Douglas 
deu a Katie um de seus famosos abraos, e em seguida foi procurar uma toalha.
      - Pronto. Agora voc j pode se molhar toda e nos mostrar como  hbil no esqui, disse Douglas.
      - Sua lontra! exclamou Katie, sacudindo os braos para se livrar do molhado. Voc vai ver! Vou fazer sua exibio no esqui parecer um rascunho de desenho animado. 
Afastem-se todos! Tenho uma misso a cumprir.
      Katie entregou a bandeira a Cris, ajustou o colete salva-vidas e pulou na gua.
      - Jogue-me esse esqui, Sr. Importante! gritou para ele, Vou deix-lo envergonhado.
      Sem medo de enfrentar qualquer faanha que exigisse habilidade de atleta, Katie tentou equilibrar-se trs vezes. Todas as vezes caiu e aflorou na gua sob 
a zombaria do Douglas. Na quarta tentativa, conseguiu ficar de p e firmar-se. Da a instantes, segurando o esqui com uma s mo, acenava para a tripulao do barco.
      Ela vai se dar mal, comentou Douglas, os olhos grudados na figura exageradamente confiante de Katie, que saltou sobre as guas e desceu equilibrando-se sobre 
um s esqui, conseguindo manter o equilbrio.
      -  totalmente maluca! No acredito!
      Cris teve de admirar a amiga. Era realmente tima. Tudo que ela tentava nos esportes, conseguia. Para Cris as coisas eram diferentes. Pior era saber que tambm 
teria de experimentar o esqui aqutico. Ningum ali aceitaria a desculpa que pensava dar:   "No estou com vontade."
      Katie se exibiu por mais uns dez minutos, e afinal tentou uma manobra ousada demais e caiu na gua. Cris achou que sua vez chegara muito depressa. As primeiras 
palavras de Katie, ao voltar para a lancha, foram:
      - Ento Cris, agora  voc! A gua est morna, Verdade.
      - Eu vou com ela, ofereceu-se Ted. Na primeira vez,  mais fcil saber a melhor posio, quando algum est com a gente na gua.
      Cris sabia que no conseguiria evitar o inevitvel. Ainda mais agora, que o Ted se mostrava disposto a fazer de tudo para ajud-la. Colocou o colete salva-vidas 
e, segurando a mo do Ted, pulou na gua, ao seu lado.
      - Brrr! gritou ao chegar  tona. O que voc queria dizer quando disse que a gua est morna, Katie? Est gelada!
      - 'T no, retrucou Katie. Voc se acostuma. Acredite, na hora em que a adrenalina circular em suas veias, no vai sentir mais nada!
      - Aqui est, disse Ted, segurando os dois esquis no lugar. Ponha o brao no meu ombro e comece com o p direito.
      Cris sentia-se meio desajeitada, tentando equilibrar-se enquanto boiava e colocava os esquis nos ps. Com pacincia, Ted ajudou-a a calar os esquis e "sentar" 
na gua com a corda entre eles.
      - Mantenha os esquis apontados para cima, disse ele. Tente ficar meio sentada na parte traseira deles. Quando a lancha comear a puxar, incline-se para trs. 
Segure firme e fique com a ponta dos ps bem na direo do barco, e continue inclinada para trs.
      Cris tremeu de frio e suspirou.
      -  muita coisa para lembrar.
      - Voc consegue. Relaxe.  divertido.
      -  mesmo?
      Ted deu uma risada e comeou a nadar de volta para a lancha. Cris esperou na gua, sentindo-se desconfortvel com o colete at as orelhas e os tornozelos entortados 
formando um ngulo esquisito sobre os esquis. Ted entrou na lancha e acenou para ela.
      - Est pronta?
      - Acho que sim.
      - Quando estiver, grite "v", disse Katie,
      Cris no se sentia muito pronta. Mas queria esquiar. Adoraria saltar sobre as ondas do jeito que a Katie tinha feito. Lembrando rapidamente de tudo que tinha 
de fazer, gritou:
      - V, mas devagarinho!
      O "devagarinho" se perdeu no barulho do motor, e no momento em que a corda esticada deu o arranco, Cris soltou-se, Bob virou a lancha para trs e Ted jogou 
a corda para ela.
      - Lembre-se: voc tem de segurar a corda, firmar bem a ponta dos ps na direo do barco e se inclinar para trs.
      - Est bem. Desta vez eu acerto, disse Cris, prendendo a corda entre os esquis.
      Antes mesmo que tivesse tempo de arrepender-se, gritou:
      - V em frente!
      Segurou ento a corda com toda a fora e manteve os esquis apontados de maneira correta. Sem perceber o que fazia, j estava firme sobre ambos os esquis, que 
deslizavam sobre a gua. S havia um problema: ainda se mantinha na posio sentada, inclinada para a frente, os braos estendidos e o traseiro apontado para trs.
      - Fique de p! ouvia os amigos gritarem do barco. Incline-se para trs!
      A corda puxava forte demais. Cris no conseguia ficar totalmente de p, e menos ainda inclinar-se para trs. Continuou seu giro pela lagoa, de joelhos dobrados, 
braos estendidos e cabea para baixo, com a sensao de que estava voando com as pernas enfiadas em blocos de cimento.
      A certa altura, inesperadamente, perdeu o equilbrio e caiu de cara no H2O inspito. Os esquis voaram longe. Soltou a corda e, numa tentativa de gritar, engoliu 
tanta gua, que daria para encher um aqurio domstico. Pior de tudo, metade da gua entrara pelo nariz. Tinha a impresso de que durante o episdio seus clios 
tinham sido arrancados.
      Bob era o nico que no ria quando o barco se aproximou dela.
      - Quer tentar outra vez? perguntou ele com calma, como se ela no tivesse acabado de dar o maior vexame.
      - Acho que no.
      Cris tossia, e muita gua saa de sua boca. Estava fazendo fora para no chorar.
      - Agarre a corda, disse Ted. Suba na escada, mas tenha cuidado para que a corda no fique presa. 
      Foi difcil entrar no barco, de tanto que seus braos tremiam. Os tornozelos ainda pareciam enterrados em cimento. Ted entrara na gua e ajustava calmamente 
os esquis, preparando-se para sua vez, como se nada de estranho tivesse acontecido com Cris. Katie deu-lhe a mo e ajudou-a a subir a bordo. Ainda ria, seus olhos 
verdes de gata estavam cheios de lgrimas causadas pelo riso.
      - Sempre notei que voc era sem jeito para esportes, Cris, mas essa a foi a coisa mais engraada que j vi!
      Teve vontade de mandar a Katie calar a boca, mas engoliu a raiva e pegou uma toalha para cobrir o rosto. No bastava ter passado por uma experincia humilhante 
com pessoas conhecidas olhando para ela, tinha ainda de aturar a gozao da amiga.
      Ted fez sinal para que dessem partida, e Bob ligou a lancha. Com a maior facilidade, ele se ps de p logo na primeira tentativa e fez o seu passeio pela lagoa. 
Coisa de criana. Qualquer pessoa era capaz disso. Qualquer um, exceto Cris.
      Katie tinha razo. Cris era sem jeito para esportes. A nica atividade ligada ao esporte em que ela conseguiu sair-se bem foi no teste para lder de torcida. 
Tinha se esforado durante semanas para acertar os passos. Quem sabe conseguiria esquiar tambm, se ela se esforasse e insistisse um pouco mais.
      Enrolada na toalha, resolveu que aprender ou no a esquiar no tinha l muita importncia. O que importava era que se esforasse ao mximo, reconhecendo que 
aquilo era mais difcil para ela do que para seus amigos.
      Cris observava o Ted deslizando atrs do barco com a maior tranquilidade. Ser que para ela tudo seria mais difcil do que para seus amigos? Ser que ela sempre 
teria coragem de tentar ao menos uma vez?
      Um sorriso se formou em seus lbios ao imaginar como devia ter estado engraada, inclinada para a frente, a deslizar no lago como um candidato em um concurso 
de contorcionismo. Lembrou-se de quando ela e Katie tinham tentado aprender a esquiar na neve e ela perdera o controle, trombando com o instrutor de esqui. As duas 
amigas haviam rido do incidente o dia todo. Era melhor ela se animar. Rir-se de si mesma. Aceitar o conselho do tio e simplesmente aproveitar o momento presente.
      Passaram o resto da manh na lagoa e quando chegaram ao barco, no incio da tarde, estavam famintos. Marta deu uma bronca neles por terem demorado tanto sem 
avis-la. Ted deu-lhe um abrao de lado, e disse:
      - Voc devia saber que estvamos bem. S precisaria se preocupar se no voltssemos nunca.
      Marta sorriu com o jeito simptico do jovem.
      - Que conselho mais sem sentido, Ted. Da prxima vez, vocs tm que me dar uma referncia melhor de tempo para eu no me preocupar.
      Ted pegou uma batatinha frita no saquinho que Katie lhe estendia e, mastigando-a de forma exagerada, disse:
      - Est certo, Marta. S para deix-la feliz vamos marcar a hora. Ou melhor, por que voc no vem tambm?
      Marta pensou um pouco mais sobre o assunto, enquanto Ted chegava-se para perto da mesa e comeava a fazer um sanduche com as coisas que Bob preparara. Ento 
disse:
      - , acho que devo sair pelo menos uma vez neste fim de semana.
      - Que tal depois do almoo? sugeriu Ted. Talvez.
      - Desde que seja com voc e a Cris. Ento, com o olhar orgulhoso, acrescentou: o meu novo casalzinho preferido.
      Douglas, sentado  mesa, passando maionese no po, de repente se ps-se de p, afastou a cadeira com o calcanhar e desapareceu pela porta. Parecia que ningum, 
a no ser Cris, notara. O resto da turma estava ocupado, fazendo os sanduches, mas Cris sentiu o corao bater mais forte.
      Sentia-se responsvel pelas reaes do Douglas. O rapaz sempre fora como uma espcie de irmo mais velho para ela. Cris no suportava v-lo agir assim, e sabia 
que, se no conversasse com ele, passaria um final de semana muito chato.
      Criando coragem, afastou-se do grupo e foi para a varanda,  procura do Douglas.
      
      
      
      
      
      
 Deriva
3


      
      
      Cris deu a volta pelo convs e aproximou-se de Douglas, que estava sentado  frente, sacudindo uma toalha de praia.
      - Ol! Voc est bem? indagou.
      Douglas virou-se para ela, e retrucou:
      - Claro. Por que no haveria de estar? 
      Ele parecia zangado.
      - Tem certeza?
      Douglas deu um largo sorriso, contraindo os lbios de um canto ao outro.
      - Toda certeza do mundo. Sa para procurar uma toalha para no molhar o assento com o calo encharcado.
      - Ah! Boa idia.
      Cris no sabia mais o que dizer. Pensou no passeio  lagoa na vspera, nas brincadeiras do Douglas, em seus abraos. Hoje ele no se aproximara dela mais que 
uns trs metros. No era sua imaginao. Havia alguma coisa o perturbando.
      - Douglas, no estou acreditando em voc. Pode ser sincero comigo?
      Suspirando, ele cruzou os braos no peito largo e encostou-se na amurada.
      - Est certo. Quer sinceridade? Voc e o Ted namorando me perturbam.
      - Como assim?
      - Sei l. No me entenda mal. Estou contente com vocs dois. S no quero que as coisas mudem entre ns.
      - Nada vai mudar.
      - Talvez sim, talvez no. Tenho amigos que de repente se tornam invisveis quando comeam a namorar uma menina. E tenho dificuldade em manter a amizade com 
uma garota quando ela comea a namorar algum.
      - No vai ser assim conosco, prometeu Cris. Eu e o Ted continuaremos sendo sempre seus amigos ntimos. 
      - Jura?
      - Claro.
      - Confesso que duvido, mas por hora aceito o que voc disse. No vamos mais falar sobre isso. Vamos ver que rumo as coisas vo levar. Estou morrendo de fome! 
E voc?
      - Como poderia estar, depois de todas aquelas panquecas?
      Douglas foi  frente e abriu a porta de correr, fazendo sinal para Cris entrar primeiro.
      Depois do almoo, Katie queria esquiar, e Cris queria deitar-se na proa do barco e tomar sol. Douglas disse que topava navegar mais um pouco, e o Ted no tinha 
nada planejado. Parecia a oportunidade perfeita para deixar Douglas e Katie sarem de barco sozinhos. Ento Marta interferiu:
      - Mas o Ted e a Cris ainda no me levaram para passear de lancha. Acho que devo ir enquanto o tempo est bom. Dizendo isso, pegou um chapu de palha, de abas 
gigantescas, e acrescentou:
      - S quero dar uma volta rpida pela lagoa.
      - Ento vamos, disse Ted, todo atencioso. Est disposta, Cris?
      - Claro, respondeu ela, dando uma olhadela para Katie, como se procurasse incentiv-la a empenhar-se um pouco mais na tentativa de aproximar-se de Douglas. 
Vou pegar meus culos
      Ted ajudou Marta a subir a bordo. No momento que seus ps tocaram o convs, uma nuvem escondeu o sol. Mas com a mesma rapidez com que surgiu, desapareceu, 
expondo as costas de Cris  luz da tarde assim que ela saltou para o convs.
      - Vou levar o barco naquela direo, disse Bob ao Ted, apontando  direita. Achei que seria bom encontrarmos um novo ancoradouro para esta noite. Ser fcil 
voc nos encontrar quando voltar.
      Ted fez que sim, e deu um "at mais". Ligou a lancha e a conduziu para o lado aberto da lagoa.
      - Vocs, senhorinhas, se importam de colocar os coletes salva-vidas? So as regras de navegao, no sabem?
      - No vamos precisar, disse Marta. S vamos dar uma voltinha, e no pretendo me molhar.
      Cris seguiu o exemplo de Ted e vestiu o colete, deixando-o desabotoado. Se no tivesse outra serventia, pelo menos o colete neutralizaria um pouco a fora 
do vento, assim que deixassem o abrigo da enseada.
      Durante os primeiros quinze minutos que se seguiram, Marta, segurando o chapu, ditava ao Ted o rumo a tomar. Ele seguiu suas ordens e entrou numa rea que 
parecia um longo brao da lagoa Shasta, estreito demais para deixar passar um barco um pouco maior.
      Outra nuvem cobriu o sol, e Cris estremeceu. Devia ter colocado alguma coisa por cima do mai molhado e da camiseta.
      Ted conduziu a lancha pelo canal cada vez mais estreito, mostrando algumas cavernas escondidas do lado esquerdo.
      - Vamos at l, sugeriu Marta. Pode ser um bom lugar para o piquenique do almoo de amanh.
      Ted ancorou a lancha na primeira enseada que encontraram. Saltou para fora e, com gua pela cintura, amarrou a lancha. Em seguida chamou Marta e Cris para 
que o acompanhassem na explorao.
      - Como  que vou chegar at a praia sem me molhar? perguntou Marta, vendo a sobrinha entrar na gua e caminhar at a margem.
      - Tem de se molhar, disse Ted. No  to fundo assim. Desce pela escada de cordas do outro lado.
      Cris ficou a observar a indeciso da tia, que afinal resolveu fazer o sacrifcio de juntar-se aos dois na praia.
      - Ai! gritou ela. Est gelada!
      - Est tudo bem, disse Ted, caminhando na direo de Marta e oferecendo-lhe a mo para conduzi-la at a praia.
      Uma enorme nuvem cobriu de novo o sol. Tudo ao redor parecia estranhamente silencioso e imvel.
      - Parece que estamos a centenas de quilmetros de resto do mundo, disse Cris, olhando em volta.
      A pequena praia s se estendia por mais uns dez a doze passos alm do ponto em que se achavam. Logo adiante dobrava-se numa curva e ia dar bruscamente ao p 
de uma encosta. No comeo dela a vegetao era escassa; mais alguns passos, porm, e se viam os troncos de rvores altas e finas, apontando para o cu como soldados 
fardados de verde e enfileirados.
      - Como  lindo! disse Cris.
      - Um pouco frio. O que aconteceu com o nosso sol? perguntou Marta.
      - Vamos examinar o terreno, sugeriu Ted.
      -  perigoso demais, disse Marta. Devemos voltar para a lancha antes que a chuva caia. Ouvi dizer que o tempo  muito imprevisvel na lagoa - pode mudar de 
repente. Vamos embora.
      - Shh! cochichou Ted. Viu aquilo?
      - Ele estava de costas para Marta, observando a floresta atrs
      - Daquele lado - um cervo! Est vendo? L do lado esquerdo, atrs daquelas duas rvores.
      Cris olhou na mesma direo e, lentamente, se aproximou de Ted.
      - Est olhando para ns. No  uma gracinha? Pena que a gente no tem mais mas para dar a ele.
      - Do que vocs esto falando? No estou vendo nada.
      Marta foi at onde estavam Cris e Ted, mas seus movimentos bruscos assustaram o animal, que voltou para as sombras. 
      Foi embora, disse Ted. Se voltarmos amanh para um piquenique, vamos trazer algumas maas.
      - timo! disse Marta, num tom irritado. Amanh vocs podem trazer mas para ele. Mas agora vamos voltar para a lancha.
      Cris percebeu como era desconfortvel para sua tia afastar-se do seu ambiente domstico e como isso a deixava irritada. Na sua casa, em Newport Beach, Marta 
nunca se mostrava autoritria, nem irritada, como vinha parecendo. Cris sabia que a idia de alugar o barco fora sugesto do Bob, e no dela, mas ele a convencera, 
mostrando-lhe o folheto que dizia ter o barco todos os confortos de uma casa moderna. Aparentemente, vindo at a praia, Marta j experimentara o suficiente da vida 
ao ar livre. Agora j estava com vontade de voltar ao "lar", e gozar de todo o seu conforto.
      Os trs entraram na lancha e Cris teve de concordar que estavam mesmo um pouco isolados na caverna silenciosa - um isolamento quase de dar medo, pois o sol 
se escondera atrs das nuvens. Ted esperou que Cris e Marta se sentassem e ligou o motor. Nada aconteceu. Tentou de novo: apenas um barulho lento, rascante se fez 
ouvir. Ted apertou uns dois botes e tentou de novo a chave de ignio. Nada.
      - O que est acontecendo? O que h de errado com a lancha? perguntou Marta, nervosa.
      Ted bateu de leve um dedo sobre um dos marcadores ovais e respondeu com calma:
      - Parece que estamos sem gasolina.
      - Sem gasolina?! Mas voc no trouxe um galo extra?
      - No.
      - Como foi que voc deixou isso acontecer? Depois de tanto esquiar hoje cedo, no pensou em verificar o combustvel?
      - No, no verifiquei.
      - Estamos perdidos! gemeu Marta.
      Cris sentia-se um pouco preocupada, mas nada comparvel com o estado emocional da tia. Na verdade, Marta teria um excelente papel no velho filme de televiso, 
"Ilha de Gilligan.
      - O que  que voc vai fazer? perguntou Marta. Aqui nunca vo nos encontrar!
      - Vou orar. Querem me acompanhar? disse Ted, com a maior singeleza.
      - Eu vou, ofereceu-se Cris, levantando do seu lugar e pondo-se ao lado de Ted, no convs. Os dois oraram com fervor simples e sincero, para que Deus enviasse 
socorro.
      Minutos depois, Cris estreitava o colete salva-vidas para se proteger do frio. A temperatura comeou a cair e ela desejou que tivesse trazido pelo menos uma 
toalha de praia para cobrir as pernas. S Ted e Cris conversavam. Marta se cobrira com um colete salva-vidas e ficou encolhida num canto do assento de vinil, com 
cara de sofredora e sem dizer palavra - o que a sobrinha achou timo. Ouvir o que Marta estaria pensando naquele momento no contribuiria para a soluo do problema.
      Passaram-se mais uns vinte ou trinta minutos. O sol continuava brincando de esconder com as nuvens, e agora ningum mais falava nada. Cris se lembrou do que 
Ted lhe sussurrara no ouvido pela manh - naufragar a ss com ela at que no seria nada mal. S no imaginou que tia Marta estaria entre os "nufragos". Que ironia!
      Ento, como se Marta no conseguisse mais conter as lavas do seu vulco, abriu a boca e vomitou acusaes por todos os lados. Cris nunca vira a tia to zangada 
assim.
      - Agora chega! Voc tem de procurar ajuda, Ted. No interessa como. Suba esse morro e v at o outro lado ou nade at a Parte principal da lagoa. J, j, vai 
escurecer, e eu me recuso a ficar aqui parada, esperando ser comida por animais selvagens!
      Cris sabia que tinham pelo menos mais umas trs horas de sol, e o nico animal que viram fora o tmido cervo. Ainda assim. Era melhor no desafiar os temores 
da tia. Ser que deveria sentar-se com o Ted ou continuar ao lado de Marta? Sabia bem o que preferia.
      - Vamos esperar aqui, disse Ted com serenidade e firmeza, como se j tivesse pensado em todas as opes possveis. 
      Marta estava furiosa. No havia muita gente com coragem para se opor s suas sugestes, mesmo nas melhores circunstncias.
      - Suponho que voc esteja esperando que Deus mande um anjo para nos salvar.
      - Um anjo, um ser humano, qualquer um serve.
      - Agora voc foi longe demais com esse negcio de f, Ted. Isso  timo quando  para ter discusses teolgicas com o Bob, mas quando a vida da gente est 
em jogo...
      Ted estendeu a mo pedindo silncio. Parecia atento a alguma coisa. Cris virou a cabea e escutou tambm.
      - Eu ainda no terminei! Voc vai me escutar, Ted Spencer, ainda que seja a ltima coisa que voc faa em vida, antes de morrermos nesta lancha estpida.
      Ted ps-se de p, sem desviar a ateno de Marta, passou por ela e se encaminhou na direo da popa.
      - Podia ter ao menos a delicadeza de olhar para mim enquanto eu estiver falando com voc? No pode ficar achando que Deus vai fazer por voc o que voc mesmo 
devia estar fazendo! Ele tem coisas demais para resolver, como a paz mundial, por exemplo, e tenho certeza de que Deus no tem tempo de responder s oraes tolas 
de...
      Ted colocou dois dedos na boca e, virando-se para o lado aberto da enseada, soltou um assobio to estridente, que Cris tapou os ouvidos.
      -  um Wave Rider, anunciou. Cris, me ajude a sinalizar para ele.
      Cris cambaleou at a popa, tirou o colete e preparou-se para agit-lo.
      - No se pode ter certeza de que esto vindo em nossa direo, murmurou Marta, permanecendo sentada, mas virando-se para olhar.
      Agora todos ouviam o rugido estridente do jet ski, que realmente vinha na direo deles. Cris reforava o assovio de Ted gritando na mesma direo. No momento 
que o Wave Rider surgiu, ela abanou o colete e Ted agitou os braos, mas ele passou pela caverna e desapareceu.
      - Eu no lhe disse? alfinetou Marta. Por que voc nunca me escuta?
      - Acho que est voltando, disse Cris, esforando-se para ouvir qualquer mudana no som do motor do jet ski.
      - Voc est certa, disse Ted. Fique atenta. Se for preciso, acene outra vez.
      Antes que terminasse de falar, o Wave Rider apareceu de novo, tomando de repente a direo da entrada que dava para a caverna secreta. Era uma garota de longos 
cabelos escuros, colete rosa-shocking e mai florido. Ela desligou o motor do jet ski e flutuou at o barco. Estava bem queimada de sol, a pele tinha um tom de canela, 
e um sorriso claro, em formato de lua crescente.
      - Precisam de ajuda?
      - Estamos sem combustvel, respondeu Ted. Voc pode me dar uma carona at a marina?
      - Claro. Suba aqui!
      - No deixe sua tia sair daqui, no, disse Ted a Cris. Volto j.
      - Eu escutei, viu? falou Marta. Claro que vou ficar aqui. Aonde voc acha que eu iria? S no v pensando que essa mocinha  a resposta de sua orao.
      - Voc orou pedindo socorro a Deus? perguntou a moa.
      - Sim, disse Ted, entrando na gua e nadando at o Wave Rider.
      - Por acaso voc  crente? 
      - Somos - eu e Cris.
      - Que legal! disse a garota, toda empolgada. Meu nome  Natalie. Tambm sou crente. E voc no vai acreditar, mas vim at este lado da lagoa porque senti algo 
me impulsionando a vir pra c. Entende o que quero dizer?
      - Ora, isso  ridculo! explodiu Marta, sentando-se de novo.
      Cris sentiu vontade de rir-se da recusa de sua tia em acreditar que Deus atende nossa orao, apesar de acabar de ver isso de maneira to clara. Sabia que 
no era engraado, mas por que a tia no queria enxergar que Deus atendera ao pedido de socorro?
      Ted se posicionou na garupa do Wave Rider e ele e Natalie zarparam, deixando Cris sozinha com Marta. Ela ficou alguns minutos em silncio, depois indagou:
      - Por que  to difcil pra voc acreditar em Deus, tia Marta? 
      - Eu acredito em Deus.
      - Estou falando de entregar sua vida a Jesus e convid-lo para ser seu Salvador.
      - Eu me recuso a entrar numa discusso religiosa com voc, Cristina. Voc  nova demais para entender essas coisas.
      Cris se calou. S podia pensar: Ainda bem que Jesus no me considerou nova demais quando lhe entreguei meu corao.
      Ted e Natalie voltaram em menos de uma hora. Assim que puseram o combustvel no tanque, o motor pegou.
      - Muito obrigado! gritou Ted acenando para Natalie, quando a viu partir.
      Em seguida, lentamente, ele conduziu a lancha para fora da estreita baa e, uma vez alcanada a amplido da lagoa aberta, fez-se ao largo a todo vapor.
      - Devagar! ralhou Marta. Est muito frio! Se for depressa demais, vai acabar no encontrando o barco.
      Ted desacelerou e disse a Cris:
      - Ajude a procurar o barco. Ele deve estar em algum ponto deste lado da praia.
      Com o vento gelado que soprava na lagoa, e o sol do fim tarde j se pondo, a temperatura caa vertiginosamente. Era um sol bem diferente do que Cris e Ted 
tinham saudado ao alvorecer. A imensa esfera alaranjada que se punha parecia cansada, ansiosa para repousar, assim como Cris.
      Aps vrias entradas e sadas em diversas baas ao longo da costa, encontraram finalmente o barco. Katie estava pescando sentada na proa. Bob e Douglas, sentados 
no convs traseiro jogavam xadrez.
      - Finalmente chegaram! gritou a moa. Onde vocs estavam?
      Cris notou outro barco ancorado ao lado do deles. Katie gritara to alto, que o pessoal do outro barco a qualquer momento poria a cara para fora, intrigado 
com o que estava acontecendo. Ted encostou a lancha, mas antes que ele ou Cris pudessem dar alguma explicao, Marta se ps a falar:
      - Foi absolutamente terrvel! disse em tom lamentoso a Bob, que lhe oferecia a mo para descer da lancha. Ficamos perdidos durante vrias horas. Estou congelada 
at os ossos.
      - Acabou a gasolina, explicou Ted, sob olhares curiosos. Oramos, e Deus nos mandou um anjo num Wave Rider.
      - Ento entrem logo e vo tomar um banho quente de chuveiro, sugeriu Bob. Est tudo pronto, menos a carne. Mas como o braseiro j est no ponto,  s coloc-la 
na churrasqueira. Chegaram na hora certa, pessoal.
      Cris aceitou contente a sugesto do tio, e foi tomar banho. Estava surpresa por ver como era amplo o chuveiro do barco. Havia bastante gua quente, e at uma 
tomada para ligar o secador. Demorou-se secando e penteando o cabelo. Melhor fazer tudo ali mesmo no banheiro, do que sair com o cabelo molhado e dar outro banho 
na tia.
      Na verdade, Cris no precisava se preocupar. Marta no saiu do quarto o resto da noite. Bob, marido amoroso e sempre paciente, preparou um prato para ela e 
o levou ao quarto.
      Depois do banho, Cris sentiu-se refrescada e a ansiedade provocada pela aventura da tarde diminura. Vestiu um jeans, uma malha cor de creme e um velho tnis 
branco. Seu cabelo estava macio, nem um pouco frisado, como ficava em Escondido, depois que o lavava com a gua de l. Sentia no rosto o ardume do sol e via como 
isso dava s suas bochechas um colorido rosado, mais vivo, mais alegre.
      Colocando um pouco de rmel e passando uma segunda camada de brilho nos lbios, Cris olhou-se de novo no espelho. Sentia-se bonita, de forma natural e saudvel. 
Ser que o Ted notaria?
      Naquele momento, Katie bateu  porta, e chamou:
      - Vem logo, Cris! A carne est quase pronta.
      Cris abriu a porta, e puxou a amiga para dentro. 
      - E a? Como foi hoje  tarde com o Douglas? 
      - O que voc quer dizer com esse "como foi?" Como era pra ser?
      - Pensei que vocs dois iam comear a... sabe... ficar mais juntos se ficassem a ss.
      Cris, que idia  essa de achar que o Douglas est interessado em mim? indagou ela num tom ligeiramente triste. 
      - Acho que vocs dois seriam perfeitos um para o outro. Ele  muito legal. Se voc lhe desse mais ateno j ajudaria um pouco. Demonstre que voc gosta dele. 
      - E quem lhe disse que eu gosto dele? 
      - Por que no? Ele  alto, bonito, atleta, um crente superespiritual, e muito alegre. Tenho certeza de que ele gosta muito de voc.
      - Ento seria o primeiro, disse Katie, pouco empolgada. 
      - E que primeiro, hein! exclamou Cris, procurando anim-la. Vamos l, Katie! Voc tem de se livrar emocionalmente daquelas recordaes negativas do Rick e 
do... Como se chamava mesmo aquele missionrio do Equador? Glen? Est na hora de partir pra outra!
      - Provavelmente voc tem razo!
      Katie deu uma olhada no espelho e notou que seu nariz sardento estava queimado de sol.
      - Ah no! Vou descascar! falou.
      Cris tambm se ps diante do espelho. O contraste entre a duas era evidente. A pele clara de Katie, seus olhos verdes e cabelo cor-de-cobre faziam com que 
ela parecesse jovem demais, quase uma criana. O bronzeado de Cris dava destaque a seus olhos azul-esverdeados, e o cabelo limpo parecia seda em comparao com o 
cabelo despenteado de sua amiga.
      - Como vou competir com voc? perguntou Katie, mostrando a imagem no espelho e olhando para Cris.
      - No estamos competindo, Katie. No se trata de esporte. Alm do mais, se fosse, voc ganharia de dez a zero. Estamos falando de rapazes, e eu estou com o 
Ted. Por que no v se descola o Douglas pra voc?
      Cris surpreendia-se a si mesma falando desse jeito. Nunca antes tentara empurrar Katie na direo de qualquer rapaz. Sabia que seu interesse em ver os dois 
juntos, era no se sentir to sem jeito perto do Douglas.
      - Senhoritas, disse Bob junto  porta fechada do banheiro, o jantar est pronto, e temos visita. Aguardamos vocs duas.
      - J vamos, respondeu Cris. Como posso reanim-la? disse, voltando-se para Katie. Acreditaria se eu dissesse que seu jeito  o de uma pessoa maravilhosa, estimada 
por todos, uma garota legal mesmo, e que s um idiota no veria isso?
      - Acha mesmo?
      - Acho sim. E acho tambm que o Douglas a veria com outros olhos, se voc demonstrasse por ele o mesmo interesse.
      - Tem certeza?
       Cris acenou que sim.
      - Vamos l! Vejamos o que acontece.
      - Tudo bem!
      Katie deu um "toque aqui" na mo de Cris e ajeitou o cabelo antes de abrir a porta.
      - L vamos ns! exclamou.
      Caminharam lado a lado pelo corredor at a cozinha. O que viram fez com que se detivessem de repente, e ficassem de olhos arregalados, surpresas.













Tente, Tente Outra Vez
4





      Ted se encontrava perto da mesa, junto a uma linda jovem. Ela parecia no ter mais que quatorze anos, mas pelo corpo dava a impresso de ter vinte. O cabelo 
escuro estava para trs, e ela usava um arco florido. Tinha um lindo sorriso em formato de lua crescente revelando dentes perfeitos, contrastando com a pele morena 
cor de canela.
      - Cris, disse Ted, adivinhe de quem  o barco ancorado ao lado do nosso?
      - Natalie! exclamou Cris, forando um sorriso amigvel. Que surpresa agradvel!
      Katie cutucou a Cris como que perguntando: "E quem  essa Natalie?"
      - Katie, essa  a Natalie. Foi ela que nos socorreu hoje  tarde.
      Ted, que pusera o brao no ombro de Natalie, estava prestes a dizer algo quando Douglas apareceu vindo da lateral, com uma travessa de bifes grelhados. Aparentemente 
ele no tinha visto a Natalie chegar.
      - Ol, disse com um sorriso maroto, olhando pra o Ted, como quem pede explicao.
      - Esta aqui  a Natalie, nosso anjo de Wave Rider.
      Natalie riu. Era uma risada infantil, pura. Certa vez Ted dissera que as pessoas puras, inocentes, eram irresistveis.
      - Quer jantar conosco? convidou Douglas.
      - J jantei, obrigada. Quando descobri que o barco ao lado do nosso era o de vocs, resolvi fazer uma visitinha.
      - Que legal! disse Douglas. Depois do jantar, vamos fazer uma fogueira na praia. Quer vir conosco?
      - Claro. Obrigada por me convidar.
      Ento, foi como se algum tivesse dito  Katie "Comece o jogo!" Ela entrou na conversa. Obviamente seu objetivo era conquistar a ateno do Douglas.
      - Essa carne parece que est uma delcia, Douglas. Voc  o churrasqueiro de hoje? Aposto que vocs esto com fome. Eu estou. No acham que devemos sentar 
para o jantar?
      Bob, que observava tudo da pia da cozinha, onde despejava ervilhas numa tigela de servir, entrou na da Katie.
      - Boa idia, vamos sentar.
      - Ento eu j vou indo, disse Natalie, baixinho. A gente se v mais tarde, na praia.
      - No v embora, disse Douglas, oferecendo-lhe um lugar no banco de vinil, ao seu lado. Tem bastante espao, Natalie. Sente-se perto de mim.
      Katie aceitou o desafio e correu para a mesa, onde se sentou junto ao Douglas, do outro lado.
      - Est com tanta fome quanto eu? perguntou, puxando o brao do rapaz.
      Cris puxou uma cadeira para junto da mesa e sentou-se. No estava muito certa do que sentia com relao ao que estava acontecendo. De certo modo, sentia-se 
contente por ver Katie flertando um pouco com o Douglas. Talvez ela precisasse de um incentivo, como a presena de Natalie ali. Mesmo assim, Natalie devia ser alguns 
anos mais nova do que ela e Katie. Se tivesse quatorze anos, por exemplo, seria oito anos mais nova do que o Douglas. Ele certamente sabia disso. Portanto no estava 
flertando com ela de verdade, estava?
      Durante o jantar, Natalie riu-se de todos os comentrios de Douglas, e Katie tambm contou algumas de suas j conhecidas piadinhas. Cris se perguntava se o 
Ted estaria percebendo o que se passava.
      Ser que em alguma ocasio os rapazes percebem? pensou.
      Aps o jantar, ela ajudou Bob a lavar e enxugar a loua. Ted e Douglas, seguidos de Katie e Natalie, foram acender a fogueira.
      - Eu trouxe uns marshmallows, falou Bob, entregando um saquinho a Cris depois que a loua fora lavada. Tem uns cabides de arame no armrio do corredor. Pode 
peg-los e levar l para eles? Podem precisar para fazer os espetos.
      Cris foi procurar os cabides e olhou a praia. O fogo j estava alto. Na escurido, dava para ver a forma do Douglas com as duas garotas, uma de cada lado, 
nas posies exatas que elas tinham ocupado  mesa do jantar.
      Natalie parecia uma boa garota, e tinha sido muito bom conhecer outra crente e saber que haviam sido socorridos por ela. Cris esperava que, sendo Natalie to 
nova e vulnervel, no interpretasse mal a ateno do Douglas. Mais que isso, esperava que Katie no sasse ferida, principalmente depois que ela a incentivara tanto.
      Ser que o que fiz foi certo, empurrando a Katie em direo ao Douglas?
      Carregando os marshmallows e cinco cabides de arame, Cris agarrou uma toalha de praia e foi em direo  fogueira. Estendeu a toalha sobre umas pedras lisas 
do Ted, e perguntou:
      - Marshmallows - quem quer?
      Douglas no escutou. Ele e Katie estavam no meio de uma queda-de-brao, s que com os polegares.
      - Eu aceito, disse Natalie, sado de seu lugar ao lado de Douglas e se aproximando de Cris, sem tirar os olhos do Ted. Quase no acredito que vocs so crentes! 
 maravilha, massa!
      Ted, Cris e Natalie conversavam, assando os marshmallows ao fogo, enquanto Douglas e Katie continuavam sua disputa. Quando, por fim, j pareciam satisfeitos, 
aproximaram-se dos outros trs e comearam nova disputa. Desta vez era para saber quem conseguia fazer o marshmallow ficar mais torrado sem queimar.
      Depois de comer trs, Cris sentiu-se enfastiada de doce. Encostou ento o espeto-cabide numa pedra ao lado da fogueira. Quando ela o soltou, Ted estendeu a 
mo.
      Ela pensou que ele fosse pegar o espeto, mas ele pegou foi na mo dela, envolvendo-a com seus dedos grossos e quentes. Ela virou-se para ele e sorriu. Ele 
retribuiu-lhe o sorriso. Estavam juntos, sentados sob um cu pontilhado de estrelas, de mos dadas. Cris sempre sonhara com isso. Namoro para ela era assim. Aproximou-se 
mais um pouco do Ted para que pudessem apoiar melhor as mos no cho.
      Foi quando notou Natalie olhando para eles. Ela se deu conta, ento, que a garota devia estar meio sem graa, vendo que os dois rapazes se desmanchavam em 
ateno para com ela e Katie, ficando a pobre Natalie sozinha.
      Lembrou-se de que ela tambm, l pelo quatorze anos, tinha suas crises. Procurou ento atrair a garota para a roda, ciente de que o fato de estarem, ela e 
o Ted, de mos dadas, no justificava a excluso de Natalie.
      Douglas e Katie continuaram disputando marshmallows at esvaziar-se o saco. Enquanto o disputavam, Cris e Natalie conversavam sobre sua escola, sua famlia 
e a igreja. Quando surgiu o assunto de jet ski, Douglas sentou-se ao lado de Natalie e lhe fez uma srie de perguntas.
      Foi a vez de Katie sentir-se deixada de fora. Quanto mais Douglas e Natalie conversavam, mais Katie parecia se retrair. Afinal Natalie perguntou ao Douglas 
se ele queria experimentar seu Wave Rider na manh seguinte. O rapaz, todo contente, abraou a menina.
      Cris ficou imaginando como a Natalie interpretaria aquela repentina demonstrao de afeto. Parecia animada  luz da fogueira enquanto faziam os planos para 
o dia seguinte. E no foi difcil adivinhar como Katie interpretou o gesto de Douglas para com Natalie. Ela levantou, pediu licena ao grupo e voltou para o barco.
      Cris teve mpetos de correr para o lado da amiga e consol-la. Mas no queria sair de perto do Ted, nem perder o calor da mo que segurava a sua. Mesmo sabendo 
que provavelmente no era a melhor deciso, deixou Katie ir embora sozinha.
      - Ser que ela est chateada? perguntou Ted.
      - Acho que no. Foi um dia muito cansativo para todos ns.
      Afinal de contas, pensou Cris, a Katie tem idade para enfrentar essas decepes sozinha, sem que eu precise reanim-la toda vez. Um dia ela vai encontrar um 
cara legal que vai dar valor a ela.
      Cris tentou se convencer de que no tinha culpa de o Douglas no estar to interessado na Katie como ela desejava. Douglas e Katie j se conheciam havia muito 
tempo, e se viam sempre em reunies. Mas Cris imaginara que nesse passeio os dois se "acertariam" do mesmo jeito que ela e Ted, finalmente, haviam se acertado.
      Ah, deixa pra l, pensou Cris, com um suspiro. Parece que no era pra acontecer isso. Certamente d pra Katie entender. At amanh cedo, ela se recupera.
      A previso de Cris estava errada. Katie no estava se recuperando. Assim que acordou, ela permaneceu algum tempo na cama, esperando poder falar com a amiga 
quando esta acordasse, mas Katie fingia dormir.
      - No sei o que fazer, confidenciou ao tio Bob  mesa do caf, onde s estavam os dois. Acho que a Katie no est sentia s porque o Douglas no lhe deu ateno 
ontem  noite. Acho tambm que est com raiva de mim por eu ter sugerido que ela tentasse ficar com ele.
      Era fcil para Cris abrir o corao ao tio. Dessa vez ela o fazia na esperana de que a confisso lhe tirasse da conscincia o peso que sentia por haver insistido 
com Katie em algo que a outra no sabia se queria ou no.
      - Voc no pode fazer mais nada, falou Bob. Tentou fazer uma coisa ontem, dando um empurrozinho nela na direo do Douglas, e no deu certo. Nessa altura 
dos acontecimentos, no h nada que possa fazer ou dizer. S esperar que ela se refaa da decepo. No fim, vai dar tudo certo. S que leva tempo. Enquanto isso, 
no faa mais nada.
      Entre um sorriso e um gole de caf, Bob acrescentou:
      - Confie em mim. Quando o assunto  o que fazer para que uma mulher zangada fique bem com a gente de novo, falo com conhecimento de causa.
      Ele indicou a porta do quarto, de onde chegava a voz de Marta, cantarolando, enquanto se aprontava para enfrentar o dia. Bob aparentemente seguira o prprio 
conselho, dando tempo  mulher para que, a ss, se recuperasse do trauma da vspera.
      Marta surgiu animada e sorridente, pronta para um novo dia.
      - Bom dia para vocs dois. Bela manh, no  mesmo? Acho que hoje a gente podia relaxar um pouco. Espairecer, tomar sol. O que acham? Todo mundo disposto a 
se divertir?
      Cris achou a tia animada demais, mas preferia v-la animada a v-la emburrada. Alm do mais, concordava com Marta que era preciso descansar, relaxar. Talvez 
fosse essa a melhor coisa para a Katie e o Douglas tambm.
      Durante duas horas, Cris ficou sentada ao sol, ao lado do Ted na proa do barco, lendo enquanto ele pescava. Era maravilhoso estarem juntos sem prensar que 
tinham de fazer ou dizer alguma coisa s para encher o tempo. Ted pegou duas trutas de bom tamanho, que ele mesmo limpou enquanto Cris o observava.
      Enquanto isso, Katie nadava sozinha; depois, deitou-se no convs. Bob e Douglas mexiam com o leme. Bob achou que precisava dispensar alguma ateno ao barco. 
Douglas desceu e enfiou-se na gua, enquanto Bob lhe passava instrues de cima.
      - Que tal fritar os peixes para o almoo? Sugeriu Marta, assim que Ted acabou de limp-los.
      - S d um pedacinho para cada um.
      - No tem importncia. Tudo faz parte da nossa experincia neste rio, no acham?
      Na verdade, estavam numa grande lagoa, no num rio, mas ningum corrigiu Marta. Era agradvel v-la de bom humor.
      Voc consegue ser um doce quando quer, no  mesmo, tia Marta? Agora, se a Katie se animasse um pouco, o Douglas veria como ela tambm  maravilhosa.
      - Quem topa esquiar? Perguntou Bob, depois do almoo. O leme est como novo. Katie, quer ir comigo?
      Katie deu um grande sorriso, e disse:
      -  melhor aceitar seu convite. Talvez voc seja o nico que me convide pra sair...
      Bob deu-lhe um abrao rpido e amigvel, e completou:
      - Quero ver voc andar num esqui s de novo. Voc  excelente, sabe?
      A garota deu de ombros. Cris interpretou o gesto como se a amiga estivesse querendo dizer que abriria mo de sua percia esportiva num segundo, se um rapaz 
se interessasse por ela.
      - Quer ir tambm, Cris? E vocs, rapazes? Ted, desta vez terei de encher o tanque.
      - Boa medida. Claro, eu vou, disse Ted.
      - E voc, Douglas?
      Bob parecia um treinador tentando fazer com que os bons jogadores optassem por seu time.
      - Na verdade, falei com Natalie que eu iria andar de Wave Rider com ela s duas horas, replicou ele, parecendo um pouco sem graa. Vou ficar por aqui. Vo 
vocs e se divirtam. Talvez eu os encontre por l.
      Quando Cris, Bob, Ted e Katie saram  procura de um bom lugar para esquiar, Cris voltou a experimentar o mal-estar que sentira com Douglas na vspera. S 
que dessa vez era com a Katie. A frieza de sua melhor amiga era como um vento gelado, soprando em seu rosto.
      Por que ser que tudo comeou a andar pra trs com meus amigos no momento em que eu e o Ted comeamos a namorar? Ser que existe uma regra no escrita determinando 
que, todos os outros tm de ficar contra a gente, quando namoramos firme?
      O que deixava Cris mais chateada era saber que tinha ficado to ansiosa para falar com Katie sobre o Ted, sobretudo depois que firmara o compromisso de levar 
o namoro a srio, e agora, no entanto, Katie nem queria tocar no assunto.
      - V! gritou Katie j dentro d'gua, instantes depois.
      Era a ltima corrida do dia, e Cris havia passado a tarde toda pensando, enquanto segurava a bandeira de esqui sempre que Ted, Bob ou Katie iam para a gua.
      - Quer vir depois da Katie? perguntou-lhe Bob. Parece que vamos embora amanh cedinho. Ento essa pode ser sua ltima chance.
      Cris pensou na conversa que tivera consigo mesma depois da ltima tentativa de esquiar, sobre no se deixar abater pelo desnimo, e resolveu que deveria tentar 
mais uma vez.
      Depois de um giro perfeito no esqui, Katie soltou a corda e deixou-a cair. Parecia surpresa de ver Cris entrando na gua.
      - Voc no vai tentar de novo, vai?
      - Acho que devo tentar mais uma vez antes de desistir totalmente.
      Sua inteno era ter um tom confiante. Katie deu de ombros, voltou  lancha e jogou a corda para Cris.
      - No que esses esquis? perguntou, erguendo o par enquanto Cris lutava para colocar os ps num nico esqui.
      - No. Acho que vou experimentar este aqui.
      - A maioria das pessoas aprende a esquiar em dois antes de tentar um s, argumentou Katie.
      - Bem, acho que no sou como a maioria das pessoas, respondeu Cris, sentindo-se estpida e corajosa ao mesmo tempo. 
      Posicionou o esqui na direo da lancha, segurou bem firme a corda e procurou lembrar-se de tudo que Ted lhe havia dito. Afinal, gritou:
      - V!
      A corda roou a crista da gua e depois distendeu-se. No momento em que se sentia puxada, Cris inclinou-se para trs, deixando a lancha lev-la. O esqui parecia 
saltitar e virar-se para um lado e outro, tornando difcil o equilbrio. Mas a, aconteceu! Milagre dos milagres, ela conseguiu ficar de p! Estava esquiando. E 
num esqui s!
      - Legal, Cris! elogiou Ted.
      A lancha virou devagar  direita. Foi o suficiente para ela perder o equilbrio. Cris vacilou e caiu na gua.
      Sabia que ficara em p no esqui apenas uns quarenta segundos, mas ao ouvir o Ted contar o fato para o Douglas, de volta ao barco, foi como se Cris tivesse 
marcado um recorde mundial. E talvez, para ela, o fosse. Talvez, como dizia a Katie, ela fosse "sem jeito para esporte", mas pelo menos tentara. E nessa tentativa, 
tinha experimentado sucesso suficiente para se sentir como se houvesse ganhado uma medalha olmpica.
      Cris foi a primeira a entrar no banho enquanto os rapazes amarravam a lancha. Bob decidiu que eles deveriam ficar mais prximos da marina, para que pudessem 
iniciar bem cedo, no dia seguinte, a longa viagem de volta.
      - Ouvi dizer que hoje  tarde voc se saiu muito bem, disse Marta a Cris, quando a viu saindo do banheiro.
      - Para mim foi superlegal, mas voc precisava ver a Katie. Ela  incrvel no esqui!
      Cris sorriu para a amiga, que ajudava Marta a preparar o jantar. Esperava que isso ajudasse a preencher algumas lacunas na linha de comunicao.
      Katie aceitou o elogio e, olhando por cima do ombro, fitou a amiga. Era a primeira vez que seus olhares se encontravam naquele dia.
      - . E voc, Cris, me inspirou a continuar tentando as coisas que no so fceis para mim.
      - No consigo imaginar muita coisa que voc no faa com facilidade, querida, disse Marta.
      - Para mim no  fcil relacionar com rapazes, explicou Katie. Principalmente, com um rapaz como o Douglas.
      - Ah, por que voc no falou antes? Que tolice a minha, no ter notado! Bem, se voc est falando srio que quer seguir o exemplo da Cris e continuar tentando, 
ento eu tenho um plano.
      Marta fez sinal para as duas se aproximarem mais e exps sua dia. Cochichou, apontou para fora, olhou o relgio e aconselhou Katie a tomar banho e no aparecer, 
enquanto no estivesse se sentindo linda como uma foto de modelo profissional.
      A analogia pareceu a Katie um tanto irnica. Ela trabalhava para um fotografo e muitas vezes contava a Cris sobre os retoques secretos a que eram submetidas 
no estdio as melhores fotografias. Cris achou que talvez Marta fosse essa artista ideal dos retoques, capaz de fazer com que alguma coisa acontecesse entre Katie 
e Douglas.
      O melhor de tudo, talvez, fosse o fato de que Katie se mostrou disposta a experimentar. Cris sentiu que a amizade estava voltando a ser o que era antes, enquanto 
trabalhavam no projeto de Marta.
      Cris notou que a gua que Katie colocara no fogo estava fervendo, e ento colocou o arroz na panela, tampou e abaixou o fogo.
      - O frango j est no forno. Parece que est na hora de prepararmos a salada. Vou pedir ao Bob que monte a mesa de armar na varanda dos fundos.
      Marta continuou preparando o jantar enquanto Cris fazia a salada, de olho em Douglas e Ted, que ela avistava da janela. Os dois estavam bem bronzeados, apos 
um vero inteiro surfando sem parar, e pareciam dois marinheiros de camiseta e calo, ajudando o Bob a amarrar o barco. Marta foi at l e disse-lhes a que hora 
seria servido o jantar, e os instruiu sobre como deveriam se apresentar  mesa, citando inclusive que usassem perfume.
      Cris despejou na salada um pacote de pedacinhos de po torrado e temperado e sorriu a perceber a determinao da tia. Com a Marta voltando ao estilo "diretora 
de cruzeiro", no se podia saber como seria o jantar.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
A Lua e o Nariz
5

      
      Precisamos de mais uma cadeira, ordenou Marta.
      Cris tirou de armrio a ltima cadeira de dobrar e levou-a junto  mesa. No era uma mesa de armar qualquer: Marta a transformara num elegante ponto de encontro, 
onde Ted, Cris, Douglas e Katie jantariam juntos com toalha posta,  luz de velas e o nome de cada um no lugar designado, escrito em cartes confeccionados por Marta. 
Esse jantar romntico e flutuante, ao pr-do-sol, era parte do plano de Marta (que ela supunha infalvel) de unir Douglas e Katie.
      - Pronto, disse ao colocar a ltima cadeira no lugar. J, j, os rapazes estaro de banho tomado. Onde est a Katie?  minhas lindas jovens, vocs devem ficar 
aqui perto da varanda, aguardando tranqilamente que eles cheguem. E lembrem-se disso: s sentem quando puxarem a cadeira para vocs.
      Cris fez que "sim" s instrues tipo "escola de elegncia" da tia. Tinha de admitir que estava se divertindo.
      - Como estou? perguntou Katie, surgindo som uma camiseta branca, enorme, e short jeans.
      - Cus! exclamou Marta com expresso preocupada.  o melhor que voc pode fazer?
      - Bem, o convite que recebi foi para acampar, e no para o baile de formatura, disse e Katie com sarcasmo. Se tivessem me avisado eu teria trazido meu vestido 
preto de strass com luvas combinando e estola de visom.
      Cris reparou em seu prprio short jeans e a camiseta de brim de manga arregaada e bolso rasgado. Por que ser que tia Marta no criticou minha roupa? Ser 
que ela acha que uma pessoa s tem que estar elegante quando quer "fisgar" um namorado?
      - Vamos fazer o seguinte, disse Marta, ajeitando os cantos da camiseta e dando um n na barra, do lado direito. Muito mais bonito. Destaca sua barriga magra.
      Katie deu risada, assustando Marta.
      - Obrigada pela dica, mas no sou muito do tipo que d n na barra da camiseta.
      Desfez o n e deixou a camiseta, agora amarrotada, do jeito mais natural.
      - Eu me maquiei. Algum notou?
       luz tnue do entardecer, Cris no tinha percebido. Ela e Marta se aproximaram para examinar a pintura. Era difcil notar, mas os olhos verdes de Katie pareciam 
discretamente maiores e mais brilhantes.
      - Ainda resta a sua personalidade, disse Marta, afastando-se e novamente dando uma olhada em Katie dos ps  cabea. Voc tem uma personalidade maravilhosa. 
Tire proveito disso, querida.
      Ento, pedindo licena, foi  procura dos rapazes, passando por Cris e Katie, rumo  claridade intensa da cozinha.
      - "Tire proveito de sua personalidade, querida", disse Katie, imitando-lhe o jeito de falar. Acho que acabei de ser diminuda  bea. Que  que voc acha, 
Cris?
      - Acho que eu e voc precisamos relaxar e nos divertir, entrando no jogo da "noite encantada" da titia. O que acha?
      - Eu acho... principiou Katie e fez uma pausa. No importa o que eu acho. Voc tem razo. Podemos nos divertir bastante com isso. S os quatro. Nenhum "anjo" 
inesperado aparecendo de repente, espero.
      - Acho que no. O barco da Natalie partiu quando voc estava no banho.
      - Ento,  s ficar aqui, descontraidamente, e esperar os rapazes aparecerem? concluiu Katie.
      Naquele instante o motor da sua prpria embarcao roncou e Bob se ps a manobr-la para fora da entrada, em direo  parte principal da lagoa.
      - O que  que est acontecendo? perguntou Katie.
      - Meu tio quer ficar mais perto da marina pra gente sair bem cedo. Tia Marta vai servir o jantar e, enquanto isso, o Bob conduz nosso restaurante sob as estrelas. 
Divertido, no acha?
      Agora Katie parecia mais animada.
      - , vai ser divertido. Seria ainda mais divertido se eu no me sentisse to desarrumada, to mal vestida...
      - Voc est tima. Olhe s para mim: ganho o premio de relaxamento do ano! brincou Cris.
      - Nada disso. Voc sempre est bonita. At numa roupa velha e horrorosa voc  uma graa! Como consegue?
      - Consegue o qu? Eu no fao nada.
      -  o que eu estou dizendo. Voc  uma dessas pessoas que fica linda de qualquer jeito.
      Antes que Cris pudesse retribuir o elogio de sua amiga insegura, os rapazes entraram, enchendo a pequena cozinha com sua presena. Imediatamente, fizeram Marta 
rir.
      - O que h de to engraado a? perguntou Katie, tentando olhar pela tela da porta.
      Os rapazes viraram-se em sua direo e foram para o  convs da popa. Aparentemente, haviam repartido o cabelo no meio, deixando-o bem molhado e emplastado. 
Estavam de camiseta e short, mas fizeram gravatas-borboleta de toalha de papel e as prenderam  camiseta, na altura do pescoo.
      - Venham conhecer as garotas com quem faro par, disse Marta ainda rindo. Por aqui!
      Marta os conduziu at onde Katie e Cris estavam. Os rapazes sorriram e Cris notou algo escuro acima do lbio de Douglas.
      Boa noite, gentis senhoritas. Quero agradecer a quem deixou o rmel na pia do banheiro, disse Douglas, retorcendo um pouco a boca onde havia um bigode pintado. 
Foi muito til.
      Todos riram. Ted puxou a cadeira e sentou-se. Douglas fez o mesmo. Sob o olhar firme de Marta, Katie e Cris permaneceram de p, esperando que eles puxassem 
a cadeira para elas.
      - Ah senhoritas, mil perdes! exclamou Douglas ao perceber a gafe, antes do Ted, e puxando uma cadeira para Katie:
      - Permita-me?
      Katie sentou-se com elegncia na cadeira de dobrar, continuando a brincadeira.
      - Ah! Sou-lhe muito agradecida, bondoso cavalheiro. Nada como um homem de bigode para dar um toque festivo a qualquer ocasio.
      - Sou eu, disse Douglas, fazendo de conta que alisava as pontas do bigode. O homem de toque festivo.
      Ted puxou uma cadeira para Cris tambm, e Marta disse:
      - Por favor, sintam-se  vontade. Eis a a salada que preparamos para vocs. Dentro de alguns momentos voltarei com um cesto de po.
      O barco deslizava devagar sobre a lagoa enquanto o sol se punha nas montanhas. Uma brisa amena subia da gua.
      - Olhem para aquele lado! falou Ted apontando para as montanhas  esquerda.
      Naquele instante, a lua cheia surgiu no horizonte, com sua imensa face, iluminando a mesa como lanternas japonesas numa festa no jardim.
      - Maravilha! disse Douglas.
      - No  linda? Que noite perfeita! Uma bella nocha, como dizem, comentou Katie. S falta uma macarronada  bolonhesa e uns dois garons italianos cantando 
para ns.
      - Por qu? perguntou Douglas.
      - Porque parece a noite daquele filme em que o casal de cachorrinhos est comendo uma macarronada e o macho empurra com o focinho a ltima almndega para a 
cachorrinha.
      - Por que voc no falou isso antes? disse Douglas.
      Em seguida, com o nariz, empurrou um tomate-cereja do seu prato em direo a Katie. O tomate chegou na metade do caminho, rolou pela mesa e espatifou-se no 
cho.
      - Agora sabemos por que no filme era almndega, concluiu ele.
      Todos riram. Cris sentia-se feliz. Muito feliz. Ser que Ted estava gostando tanto desse jantar quanto ela? Ele estava engraadssimo com o cabelo repartido 
ao meio e grudado na cabea, de gravata-borboleta de papel. Esperaria esse tipo de brincadeira do Douglas, mas no dele. Era uma agradvel surpresa ver o Ted agindo 
assim, meio bagunceiro.
      Mais uma razo para eu gostar tanto dele, pensou Cris. Ser que o Ted gosta tanto da minha companhia quanto eu gosto da dele? Do jeito como o Douglas est 
mexendo com a Katie, ser que ele vai se interessar mais por ela?
      Ted orou agradecendo a refeio, e comearam a comer e conversar sob o luar. Marta apareceu na hora certa com pratos fumegantes de arroz, brcolis e frango 
assado num molho de limo e manteiga, salpicado de amndoas. Serviu primeiro s duas garotas, voltando depois com os pratos dos rapazes.
      - Est tudo a contento? perguntou Marta.
      - Excelente, disse Ted.
      Cris achou tudo timo, exceto as amndoas. No gostava de nenhum tipo de castanha. Talvez ningum notasse, se ela as raspasse discretamente, deixando-as no 
canto do prato.
      - Por acaso a senhora tem almndegas? perguntou Douglas.
      Cris notou que Marta estava um pouco irritada, por brincarem tanto e no agirem com maturidade e romantismo, como ela havia planejado.
      - Vou colocar msica no alto-falante de fora, anunciou Marta. Msica suave de jantar para ajudar vocs a entrarem no esprito da coisa.
      Instantes depois eram embalados pelas notas de um violino.
      Katie caiu na risada.
      -  a msica italiana que encomendamos!
      - Pois eu gosto, defendeu Cris.
      - Est falando srio? Adoro msica clssica. Voc no gosta?
      - Claro, num elevador ou consultrio de dentista!
      - Pois eu gosto, disse Ted, estendendo a mo para dar um aperto carinhoso no brao de Cris.  uma msica que toca o corao, concluiu e sorriu para Cris que 
lhe retribuiu o sorriso.
      - J lhe ocorreu que esses dois talvez queiram ficar a ss? perguntou Katie ao Douglas. Podamos levar nosso prato l pra cima. O que acha?
      Parecia que agora, depois de haverem rido tanto, o Douglas queria ficar srio. Em vez de responder a Katie, levou mais um pedao de frango  boca, e disse:
      - Excelente jantar.
      - Eu fiz o arroz, disse Katie. Bem, na verdade, eu s pus a gua pra ferver.
      Ningum parecia achar engraado. Comeram em silencio, cnscios do constante olhar vigilante de Marta, que parecia contente por ver que a musica os acalmara. 
Veio p ante p servir a sobremesa.
      Aquela serenidade certamente estava sendo demais para Katie, porque, quando foi servido o brownie, com uma generosa camada de creme chantilly para o Douglas, 
Cris notou um olhar de malandragem na amiga.
      - Opa! exclamou Katie, olhando a sobremesa do Douglas e depois a dela. Voc est sentindo o cheiro?
      - De qu? perguntou Douglas.
      Katie deu uma cheirada de leve no chantilly do seu bolo.
      - Acho que no devemos comer isso. No est sentindo o cheiro?
      - Cheiro de qu? perguntou Douglas, cheirando sua sobremesa. No sinto cheiro de nada.
      - Ento cheire o meu, disse Katie.
      Ela ergueu o prato de sobremesa com uma das mos por baixo e o colocou perto de Douglas para que ele o cheirasse. Ele chegou mais perto. Ento Katie vingou-se 
"docemente", empurrando a sobremesa na cara do rapaz, que de nada suspeitara.
      - Te peguei! gritava Katie, satisfeita, enquanto Douglas limpava o rosto. Isso  por voc ter derrubado a mim e a Cris do bote no primeiro dia. Agora estamos 
quites!
      Douglas lambeu o chantilly e tateou a mesa  procura de um guardanapo.
      - Aqui, disse Ted, removendo sua gravata-borboleta e oferecendo-a ao Douglas. Sabia que essas coisas ainda iam ter alguma utilidade.
      Katie continuava rindo. Marta correu para ver o que acontecera.
      - O que aconteceu? Como foi que isso aconteceu?
      - Um pequeno acidente, disse Douglas, bem-humorado.
      Metade do seu bigode pintado saiu quando o limpou com a "gravata" do Ted. Num lado do rosto ainda se viam pedaos de chocolate e chantilly.
      - Podamos encomendar mais uma sobremesa e talvez algumas toalhas de papel? indagou ele.
      Durante o ataque a Douglas, Katie deixara cair o garfo. Quando se inclinou para peg-lo no cho, Douglas entregou seu prato vazio a Marta. Assim que Katie 
levantou de novo a cabea, o comprido brao de Douglas acertou-lhe o roto. A mo e o prato bateram em cheio no nariz dela, caindo depois no cho. Katie deu um grito 
e levou a mo ao nariz. Cris saltou do seu lugar.
      Douglas, ainda sujo de sobremesa, levantou-se de um salto, desesperado:
      - Foi sem querer, Katie. Eu no queria fazer isso, foi um acidente. Verdade. Voc se machucou? Gente, digam a ela que foi sem querer.
      Katie parecia esforar-se para no chorar, mas as lgrimas rolaram e seu nariz comeou a sangrar.
      - No ponha a cabea para trs, disse Ted, saltando e pegando um canto da toalha de mesa para colocar sobre o nariz de Katie. Aqui, pegue isso e pressione 
bem. Assim.
      Cris afastou-se, deixando que Ted orientasse as providncias. A vista de sangue na camiseta branca de Katie fez com que Cris sentisse tonteira. Tudo acontecera 
to depressa! A musica clssica de fundo ainda tocava, num cruel contraste com a atividade frentica em volta da mesa.
      - No prenda a respirao, disse Ted com voz calma e firme. Tente respirar normalmente pela boca. Cris, quer pegar gelo e pr num saquinho plstico?
      - Claro.
      Cris entrou em ao, passando pela tia, que estava parada no lugar ao lado da porta de tela. Pegou um saco plstico e encheu de cubos de gelo. Ainda bm que 
Ted sabia o que fazer. Provavelmente vira muito nariz sangrando na pratica do surfe.
      - Todo mundo bem a atrs? perguntou Bob, do seu posto de capito  frente do barco.
      - Nada srio, gritou Cris do corredor. Katie est com o nariz sangrando, mas acho que a situao est sob controle.
      Foi ao convs entregar o gelo ao Ted.
      - Mais alguma coisa que eu possa fazer? indagou.
      - No, obrigado. Isso deve resolver. Segure o gelo bem aqui, Katie. Muito bem. Agora, me d a outra mo.
      Ted dirigiu o dedo de Katie at um ponto da gengiva abaixo do lbio superior. Aperte aqui. Isso. Deve parar de sangrar logo, logo.
      Ele acertou. Dentro de poucos minutos a crise passara. Douglas limpou a cara, removendo o resto do brownie, e disse:
      - Olha, foi tudo um acidente. Sem querer, juro. No vi que voc estava ali.
      Com a voz abafada, Katie replicou:
      - Provavelmente, foi porque voc estava cheio de brownies nos olhos.
      Todos riram, exceto Marta. Ela parecia totalmente descontrolada. Haviam estragado seus planos de realizar uma noite perfeita.
      - Quer um pouco da minha sobremesa? perguntou Cris, sem saber bem o que dizer.
      - No estou mais com fome, disse Katie, limpando a bochecha. Acho que vou me trocar.
      Embora ningum lhes tivesse pedido que retirassem a mesa, os trs comearam a juntar a loua e a desfazer o jantar romntico para quatro.  luz do luar que 
se derramava sobre eles, Cris apagou as velas e enrolou a toalha de mesa, suja.
      A bella nocha no tinha sido exatamente como havia esperado.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      Michael e Fred
      6
      
      - No. O problema est em mim, sussurrou Katie para Cris no escuro. Sei que sou eu o problema.
      - No  no, respondeu Cris imediatamente. So as circunstncias, ou os rapazes, mas na verdade, Katie, o problema no  voc.
      As duas trocaram de acomodaes com os rapazes, e estavam passando a ltima noite no barco nos sacos de dormir, em cima do teto. Nada havia acima delas, a 
no ser o cu escuro, borrifado de milhares de diamantes. A lua sumira de vista, escondida atrs do monte Shasta.
      - Sei que voc diz isso para ser boazinha comigo, Cris, mas no quero que em nossa amizade mintamos uma para a outra, por tolerncia ou cortesia.
      - No estou mentindo. Voc no tem namorado, mas no  por algum defeito seu, algo que voc esteja fazendo ou deixando de fazer. Simplesmente o cara certo 
ainda no apareceu.
      - Tenho quase dezoito anos e nem um "cara certo" sequer apareceu, e voc diz que no  defeito meu? Pense bem.
      O silncio reinou alguns minutos, exceto pelo rudo da gua batendo nas laterais do barco e alguns grilos e sapos dizendo "boa noite" uns aos outros.
      - Talvez devssemos orar a respeito, sugeriu Cris, timidamente.
      - Quer dizer, como voc ora pelo seu futuro marido e tem uma caixa de sapato debaixo da sua cama, cheia de cartas para ele? Acho que no, Cris. O que eu deveria 
pedir? "Deus, d-me um namorado - agora!"? Sempre pensei que os crentes de verdade orassem pedindo pacincia e coisas desse gnero, no namorados.
      - Mas Katie, se Deus sabe tudo sobre a gente e se interessa por tudo que nos acontece,  claro que no  errado pedir um namorado. Ela j sabe o que voc quer 
antes mesmo de pedir. Ele tambm sabe quem  melhor para voc.
      -  fcil pra voc dizer isso, replicou Katie depressa. Tem um namorado maravilhoso, o melhor do universo.  claro que acredita que Deus est lhe dando o melhor. 
Mas, quando se  como eu, e no tem nenhuma resposta de orao sentada do lado, segurando-lhe a mo,  mais difcil acreditar nessas coisas.
      - De qualquer jeito, Deus se interessa, Katie.
      - Como voc sabe? Quero dizer, voc nunca ficou se perguntando quanto daquilo que cremos acerca de Deus  verdade, e quanto dessas coisas a gente diz que cr 
s porque quer acreditar nelas?
      Cris se apoiou nos cotovelos, e fitou a amiga.
      - O que voc est querendo dizer? Est parecendo que no confia em Deus.
      - Claro que confio em Deus! Mas tenho a impresso de que quando o assunto  namorado, ele se esquece de mim. S isso. No estou com raiva dele por isso, nem 
nada. Afinal de contas, Deus deve estar bastante ocupado hoje em dia, com terremotos, pestes, fome, guerras. Que importncia tem eu pedir um namorado, quando ele 
tem tantas coisas mais importantes pra fazer?
      - Deus  suficientemente poderoso para resolver as grandes questes e tambm todos os seus sentimentos. Por favor, no pense que ele se esqueceu de voc.
      - Se  o que voc diz, disse Katie, com um suspiro.
      Permaneceram em silncio por alguns instantes; depois, Katie perguntou:
      - E ento, a que horas vamos embora amanh de manh?
      - No sei. Acho que bem cedo. Tenho certeza de que os outros nos acordaro quando se levantarem.
      - Ento  melhor a gente dormir. Boa noite.
      Katie rolou para o lado, dando as costas para Cris. Logo depois, o nico som que se ouvia era o da respirao profunda, rtmica, de uma jovem imersa no mundo 
dos sonhos.
      Mas Cris no conseguia entrar no mundo dos sonhos. Ficou deitada, em silncio, procurando estrelas cadentes e pensando em Katie. Era inquietante o fato de 
que a amiga tinha dvidas quanto  f em Deus. O que mais perturbava Cris era saber que no dispunha de uma resposta adequada para dar a ela.
      No  que eu precise defend-lo, Senhor. O Senhor  Deus e pode fazer o que quiser. Mas s vezes eu queria que a gente pudesse entender melhor o Senhor e seus 
caminhos. s vezes s sei que o Senhor est a, maia nada. Mas talvez eu s precise saber disso mesmo.
      Cris notou uma fileira de nuvens finas, iridescentes, caminhando devagarinho, pelo noturno. O p dos ps de Deus, pensou. O Senhor est aqui, e realmente se 
interessa, no  mesmo, Deus? Por favor, ajude a Katie a enxergar isso e a entender o Senhor.
      Em seguida, Cris fechou os olhos e caiu num sono profundo e doce.
      Quando acordou, a primeira coisa que viu foi o rosto de Katie, e levou um tremendo susto. Ela estava com olheiras bem escuras em volta dos lhos, resultado 
do nariz machucado da noite anterior.
      - Katie! falou de mansinho, cutucando-lhe o ombro. Acorde, Katie.
      - O qu? Me d mais um tempo, t? S mais cinco minutos.
      - Est na hora de acordar, Katie. Estamos no barco. Temos de aprontar. E voc tem de se olhar no espelho.
      Essa ltima frase, Cris disse-a bem baixinho, mordendo o lbio, temerosa da reao que Katie teria ao olhar-se no espelho.
      Cris sabia que, se isso tivesse acontecido com ela, ficaria arrasada e tentaria arranjar um jeito de no ir  escola no dia seguinte. Como algum poderia iniciar 
o ltimo ano colegial com os olhos assim to roxos?
      Surpreendentemente, o olhar de boxeador nocauteado s surpreendeu a Katie por alguns segundos. Ela se olhou no espelho, soltou uma exclamao e depois caiu 
na gargalhada, arrastando consigo os demais.
      - Voc vai ver, Douglas! Eu me vingo disso, ameaou Katie.
      E ela ainda respirava ameaas quando chegaram de volta em casa tarde da noite. Enquanto Douglas tirava as coisas de Katie da caminhonete, ela dizia:
      - Quando voc menos esperar, eu vou me vingar, Douglas. Pode escrever!
      Cris achava que at a manh seguinte a atitude brincalhona dela j teria desaparecido. Mas quando passou em sua casa para dar-lhe carona, a caminho da escola, 
a primeira coisa que Katie disse, foi:
      - O que voc acha de laxantes?
      Cris olhou-a sem entender. Katie nem tentara disfarar o arroxeado dos olhos com maquiagem. Estava horrorosa.
      - O que voc quer dizer com laxantes?
      - Voc sabe que o Douglas come de tudo, no ? Por que no lhe fazemos uns biscoitos e enchemos a massa de laxante? Ele jamais saber o que lhe fez mal!
      - Nem acredito que voc esteja sugerindo uma coisa dessas! Que maldade! Voc no teria coragem de fazer isso, teria? Sabe muito bem que ele lhe bateu no rosto 
por acidente. Ele ficou muito chateado com isso. Na viagem de volta, acho que ele ficou pedindo desculpas de cinco em cinco minutos.
      - Muito bem. Acho que um pouco de sentimento de culpa no faz mal a ningum.
      Cris dirigiu-se para o ptio de estacionamento, nos fundos do colgio, e comeou a procurar uma vaga.
      - Ser que todo mundo resolveu chegar cedo hoje? Parece que tem muito mais carro do que no ano passado.
      - Sabe como  no primeiro dia. Todo mundo quer causar boa impresso. Alm do mais, tem muito mais terceiranista este ano do que tinha ano passado. Sabe o que 
eu acho?
      Cris encontrou uma vaga num canto distante e estacionou com cuidado dentro das estreitas linhas brancas.
      - Eu acho, continuou Katie, que j que voc faz parte da equipe do anurio, deveria colocar uma foto do estacionamento no lbum. Ningum nunca fez isso. Acho 
que o estacionamento  to importante quanto o armrio dos alunos. Talvez mais. Principalmente no ltimo ano.
      - Voc tem razo. Boa idia, Katie.
      Cris trancou o carro e juntou seus objetos. Apesar de j estar estudando nesse colgio havia trs anos e de gostar muito da escola, Cris sentia um aperto no 
estmago. Embora fosse seu ltimo ano, ainda sentia o mesmo que sentira no primeiro dia de aula de jardim de infncia, l no Wisconsin: muita tenso.
      - Acho uma excelente idia.
      Katie continuava a tagarelar animada ao entrarem no prdio principal. Juntaram-se  corrente de pessoas que iam e vinham, conversando, rindo e se esbarrando 
umas nas outras, mochila nos ombros.
      - Ol, Danny, como vo as coisas? falou Katie, cumprimentando um rapaz que passou por elas.
      Danny retribuiu-lhe o cumprimento. Vestia short e camiseta, e usava culos de sol, mesmo estando dentro do prdio.
      - Voc viu s com quem ele estava? perguntou Katie, puxando o brao de Cris.
      As duas olharam para trs, reparando no Danny e na garota alta e magra que ele abraava.
      -  a Lynn! D pra acreditar que esto juntos?! Na verdade, se me perguntarem, acho que formam um casal legal. Conheo o Danny desde o segundo primrio. Entrvamos 
em cada enrascada quando estvamos no primeiro grau na Escola Myers! No d pra acreditar! At o Danny arranjou namorada!
      Cris conhecia esses jovens s de vista. Sentia-se aliviada por ter a Katie do seu lado, quebrando o gelo, disfarando a timidez de Cris com sua personalidade 
amigvel e ousada. Aparentemente, o fato de esse ser o primeiro dia no deixava Katie perturbada - nem mesmo estando de olho roxo!
      Naquele momento, queria ter palavras para dizer a Katie o quanto sua amizade lhe era valiosa. Como era bom ter ao seu lado algum que lhe aliviava o aperto 
no estmago!
      -  aqui que eu entro, disse Katie, parando em frente duma sala de aula, e dando um sorriso confiante. A gente se v no almoo, est bem? Mesmo lugar de antes.
      - Tudo bem, replicou Cris, retribuindo o sorriso, como que tentando "absorver" um pouco mais de autoconfiana da antiga, antes de descer o corredor para sua 
primeira aula.
      - Vejo voc mais tarde, concluiu.
      s 11:42 tocou o sinal para o almoo e Cris foi para o lugar combinado, embaixo de uma rvore. No ano passado, elas haviam combinado no merendar nas mesas 
de piquenique, nem sair de carro  procura de alguma lanchonete como muitos outros alunos faziam. Em vez disso, Cris e Katie sentavam num canto mais remoto. Mas 
hoje a rotina teria de ser modificada. Sentado embaixo de "sua" rvore, estava um rapaz que Cris no conhecia. Usava sandlias e esticara as pernas  frente. Parecia 
bem  vontade, com jeito de quem estava ali para ficar. Cris parou e ficou a observ-lo. O cara tirou uma ma da mochila de couro e comeou a comer.
      Como lhe diria que esse lugar era dela?
      - Ol! disse Katie, pondo-se ao lado de Cris e encarando o intruso. Quem  esse a? perguntou a Cris, mas para o rapaz ouvir.
      - No sei, cochichou a amiga, franzindo o nariz para Katie. Vamos procurar outro lugar?
      - Pra qu? Podemos nos sentar a. Tem espao debaixo da rvore, no sabe? Alm disso, assim que ouvir nosso tipo de conversa, provavelmente ele vai sair depressinha.
      Com seu jeito naturalmente ousado, Katie caminhou at a rvore, sob a vista do rapaz e se "plantou" ali como uma bandeira de vitria. Cris seguiu seu exemplo, 
cnscia de que o cara observava cada movimento das duas.
      Como se nada tivesse acontecido, Katie abriu um saco de fritas.
      - Ento, como foram as aulas at agora?
      Era mais difcil para Cris entrar direto na rotina do almoo e agir como se o estranho no as tivesse observando.
      Antes que ela respondesse, o rapaz perguntou:
      - J experimentou vitamina C?
      Cris notou o sotaque. Parecia britnico.
      - Como ? indagou Katie, virando-se para ele.
      - Para os olhos, disse ele, apontando para os olhos roxos de Katie. Vitamina C com bioflavonides trs vezes ao dia. J experimentou?
      Katie fitou-o um instante e depois olhou para Cris, e parecia prestes a romper numa gargalhada.
      - O repolho  uma boa fonte. A batata e o tomate tambm so. Ele dizia "batata" e "tomate" de um modo engraado. Katie riu-se do jeito dele.
      - De onde voc ?
      - Belfast.
      Katie olhou para Cris.
      - Belfast.  na Irlanda, no ?
      - Do Norte, emendou o rapaz com presteza. Irlanda do Norte. Existe uma grande diferena, sabia?
      Aparentemente, Cris e Katie no sabiam. Naquele momento, as duas se sentiram atradas por esse estranho de pele clara, cabelo escuro e olhos verdes.
      - Meu nome  Michael, disse o rapaz, apresentando-se com um sorriso. E vocs, quem so?
      - Sou Cris.
      - E eu sou Katie.
      Assim que ela disse seu nome, o rapaz ps-se a rir.
      - O que foi? O que h de to engraado com meu nome?
      - Ah, nada! S que parece coisa de maluco eu ter sado de uma escola lotada de "Katies" em Belfast e a primeira pessoa que fico conhecendo nesta aqui dos Estados 
Unidos se chama Katie! 
      - Coisa de maluco? repetiu Katie.
      No ano passado, ela pegara a mania de dizer "coisa de Deus" - era coisa de Deus daqui, coisa de Deus dali. A via alguma coisa que levava o jeito do Ted e 
dizia. "isso ta parecendo 'coisa do Ted'", e atrs de uma vinha outra. Mas "coisa de maluco" nunca ouvira.
      - Sim, "coisa de maluco". No usam a expresso aqui? 
      Cris e Katie fizeram "no" com a cabea.
       algo bobo e tolo.
      Ah, disseram as garotas.
      E ento, Mike...
      Michael, corrigiu ele.  Michael.
      Ento, Michael, continuou Katie, voc d receita de vitaminas a pessoas totalmente desconhecidas e ainda nos acha malucas? Talvez eu devesse lhe dizer que 
voc est recomendando vitaminas  pessoa errada. Se a sua vitamina C com sei-l-que-nides no vier de uma fonte natural de bolinhos aucarados,  pouco provvel 
que ela caia na minha corrente sangunea.
      Michael sorriu. Cris notou que todo o seu rosto pareceu iluminar-se de repente. Afvel, inofensivo. Gente nova no pedao, desejosa de conhecer outras caras. 
Talvez fosse do intercmbio estudantil. Ainda assim, Cris no tinha facilidade para esse flerte amigvel como Katie tinha.
      Pelo resto do perodo de almoo Cris ficou sentada, comendo seu sanduche, quietinha, ouvindo Michael e Katie falando em tom de gozao sobre os alimentos 
de baixo ou nenhum valor nutritivo encontrado no mercado, por oposio aos alimentos saudveis. Parecia que Katie, pela primeira vez, ia perdendo uma discusso. 
Raramente Cris via algum rapaz vencer um debate com sua amiga, qualquer que fosse o nvel da discusso.
      -        Salvo pelo gongo, disse Katie quando a campainha ecoou pelo imenso ptio da escola. Mas eu no desisti. Ainda vou lhe provar que meu jeito de comer 
 to bom quanto o seu.
      -        Veremos, disse Michael, com uma expresso divertida. Tirando uma folha de papel de dentro de sua mochila, ele perguntou:
      -        Por acaso voc sabe onde  a sala 145?
      Est brincando! disse Katie.  minha prxima aula. Organizao Poltica com o Prof. Jacob, certo?
      Suponho que devo agradecer a minha "boa estrela". Precisarei de um pouco da sua benevolente ajuda quando o assunto for Governo Americano.
      Michael jogou a mochila no brao e ofereceu a mo a Katie para que ela se pusesse de p.
      -        No seria o seu "talism da sorte"? Sabe? Aquele cereal de leprechaun * com marshmallows coloridos?
      Michael parecia no entender.
      -        Deixa pra l, continuou ela. Acho que no  s em Poltica Norte-Americana que voc precisar de ajuda. Espero que saiba que os cereais americanos 
usados no caf da manh so um assunto muito importante.
      -         mesmo?
      -        Vejo voc mais tarde, Cris, gritou Katie sobre o ombro ao encaminhar-se, ao lado de Michael, para a sala de aula, andando bem juntinho dele e conversando 
sem parar.
      Cris ficou uns instantes olhando para eles e depois seguiu para a sala onde se reunia a equipe do anurio. ** Michael era mais ou menos da mesma altura que 
Katie e, visto de trs, Cris notava que seu cabelo escuro tinha reflexos avermelhados ao sol. Sua camiseta exibia a estampa de uma baleia com legenda apregoando 
a necessidade de salv-la. Ele parecia um cara legal, ainda que bastante diferente.
      O que ser que estou pensando? Ele  uma pessoa totalmente estranha, que est sendo cativada pela Katie. Tudo aconteceu depressa demais. Ela est ansiosa para 
arranjar um namorado. Como  que vamos saber se esse rapaz  crente?
      Entrou na sala do anurio e sentiu-se ainda mais inquieta. Agora no s por causa da Katie, mas por causa desse grupo de alunos, onde no estava enturmada. 
Ela no havia trabalhado tanto quanto eles no anurio no ano anterior. Sentou-se numa carteira, ao fundo da sala, mas ningum pareceu notar sua presena.
      Por que fui escolher esta classe?
              - Ol, Cris! disse um rapaz que entrava no instante em que tocava o sinal.
      Era Fred, o fotgrafo da escola, que no ano passado fizera vrias poses indiscretas dela, e as colocara no anurio. Uma das razes por que se inscrevera nesse 
curso era o desejo de evitar que outras fotos embaraosas sassem este ano, embora jamais houvesse confessado isso.
      Fred sentou-se na carteira ao lado da de Cris. Pegando a cmara fotogrfica pendurada no pescoo, apontou-a para ela, e disse:
      -        D um lindo sorriso para seu amigo Fred! Cris no sorriu, mas replicou calmamente:
      -        No quero que tire minha fotografia, Fred. Nem agora nem amanh, nem nunca. Est certo?
      O flash brilhou direto no rosto de Cris.
      -        Acho que no me escutou, Fred. Eu disse, no quero fotos. O rapaz baixou a mquina e fitou-a. Dois dos seus incisivos eram desalinhados, e sua pele 
no era das melhores. O cabelo parecia grudado no alto da cabea.
      -        Sonhei com voc ontem  noite, Cris. Sonhei que voc era uma modelo famosa tirando fotografias numa ilha grega e eu era o fotgrafo. Voc acredita 
que os sonhos se realizam, no acredita?
      No  possvel que isso esteja acontecendo! pensou Cris.
      -        J pedi ao Prof. Wallace que este ano ele escolhesse voc como minha assistente, para que a gente possa passar bastante tempo juntos. Teremos um punhado 
de coisas pra fotografar. Como os jogos de futebol nos finais de semana.
      Fred sorriu, e ela notou um resduo alaranjado entre os dentes dele.
      -        Fred, eu tenho namorado.
      Cris jamais imaginara como se sentiria aliviada por dizer essas palavras em voz audvel.
      - Espero que no seja o pegajoso do Rick Doyle!
      - No. O nome dele  Ted. Ted Spencer. Ele est na faculdade e tenho certeza de que vou passar todos os finais de semana com ele. Portanto no poderei sair 
com voc para fazer fotos.
      O entusiasmo de Fred no ficou muito abalado.
      - No tem problema. Eu estarei com voc todos os dias da semana, e esse tal de Ted s ter sua companhia nos finais de semana. Vamos ver o que acontece at 
o final do ano. Como eu sempre digo, que vena o melhor!
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
Ela Trouxe Passas
7






      - E isso no foi o pior! exclamou Cris, encostada no balco da cozinha, aquela noite, vendo sua me lavar um p de alface. Ele tirou pelo menos umas cinco 
fotos minhas enquanto eu estava l sentada, escutando o professor. E como se no bastasse, o Prof. Wallace disse que eu havia sido escolhida para fotografar com 
ele o jogo de futebol na sexta-feira  noite.
      - E ento, o que voc disse ao Fred? perguntou a me, o rosto redondo transmitindo ternura e interesse.
      - Disse que tinha namorado e que, se ele no largasse meu p o Ted iria lhe dar uma surra.
      -        Verdade?!
      -        No,  claro que eu no diria isso, mas falei que tinha namorado e que trabalhava s sextas  noite, e que o Ted e eu tnhamos planos de nos encontrar 
aos sbados.
      -        E tm mesmo?
      -        Bem, ainda no, mas tenho certeza que faremos alguma coisa. O Ted  um cara espontneo, que resolve tudo mais ou menos de ltima hora.
      A me picou um pepino e acrescentou  salada numa grande tigela de madeira. Cris pegou uma rodela de pepino e, apontando para um tomate, disse:
      - Sabia que tomate tem muita vitamina C e alguma coisa terminada em "-nides"?
      - Foi isso que voc aprendeu na aula de Cincias hoje?
      - No, aprendi com o Michael. 
      Cris contou  me sobre a conversa com Michael na hora do almoo.
      - E depois da aula, continuou ela, esperei a Katie no carro no mnimo uns dez minutos. Por fim, ela apareceu com o Michael num carrinho esporte caindo aos 
pedaos que ele tem, e disse que ia lev-lo  sorveteria "31 Sabores", pra que ele conhecesse todas as vitaminas do sorvete de amndoas com calda de chocolate. D 
pra acreditar nisso? 
      A me riu-se e abanou a cabea.
      - Essa poder vir a ser uma situao muito interessante para a Katie. Ser que ela est to interessada nesse Michael quanto ele parece estar por ela?
      - Acho que o resto do mundo deixa de existir quando ele est perto dela. Mas eu estou um pouco temerosa, me. Ela no sabe nada sobre esse cara. Ele  diferente. 
No no mau sentido, mas meio incomum. E parece muito interessado nela - olho roxo e tudo o mais. Sei l, no me parece que est certo.
      - Bem, agora no  hora de abandon-la. Mantenha a amizade com ela apesar desse novo relacionamento, e mostre-se "aberta" para ela.
      - Est certo. J vamos jantar? Cad o pai e o David? 
      - Seu pai estava na garagem, e seu irmo deve estar andando de bicicleta na frente. V cham-los enquanto eu coloco o jantar na mesa.
      Cris foi at a varanda da frente da pequena casa em que moravam e chamou David. Um minuto depois, o ruivo de onze anos surgiu pedalando sua bicicleta pela 
rua ladeada de rvores, e foi em direo  rampa de saltos que o pai fizera para ele. A roda dianteira subiu nela. David soltou um grito enquanto girava no ar e 
em seguida pousava no gramado.
      - David, hora de jantar.
      - Est bem, depois de mais um salto mortal, respondeu o garoto, ajustando os culos.
      - A me disse para vir j.
       Est bem, est bem. No precisa ser to mandona.
      - No sou mandona.  que voc nunca vem jantar na hora. E no se esquea de lavar as mos e guardar a bicicleta.
      Com voz esganiada, David remedou:
      -        Lave as mos! Guarde a bicicleta! Mandona! Mandona, mandona!
      -        David! falou a voz grave do pai. Era s o que o pai precisava dizer para endireitar qualquer dos dois. Com sua voz firme, severa, e que mais parecia 
um grunhido, bastava cham-los pelo nome. E tanto Cris quanto David sabiam perfeitamente o que tinham de fazer.
      -        J estou indo, respondeu David, colocando sua bicicleta na garagem.
      -        Diga a sua me que vamos j, disse o pai a Cris.
      Era um homem grande, que trabalhara a vida toda numa fazenda de gado leiteiro. A transferncia para o sul da Califrnia no tinha sido uma mudana simples, 
e Cris sabia que ele levara algum tempo para se adaptar. Agora que j residiam em Escondido havia alguns anos, e ele estava se dando bem na firma onde trabalhava 
- "Laticnios Hollandale" - Cris tinha a impresso de que ele ficara mais acomodado. Ainda no tinham muito dinheiro, e o pai ainda usava as roupas da roa, deixando-a 
meio constrangida. Mas Cris sabia que era feliz por ter os pais que tinha.
      Alguns desses pensamentos acompanharam Cris dias depois, na aula de Ingls. Fariam uma redao descrevendo algum que conhecessem bem, usando os cinco sentidos 
na descrio. A primeira pessoa em que pensou foi seu pai. Cris anotou algumas palavras de cunho descritivo, conforme o professor havia instrudo. Escreveu que as 
mos do pai eram grossas e grandes, e que muitas vezes ele cheirava a curral. Mas aos domingos de manh, quando iam para a igreja, ele tinha cheiro de um bosque 
verde e cheio de musgo. s vezes, na segunda-feira de manh, quando Cris se dirigia  escola, o carro ainda tinha esse cheiro.
      O pai mascava chiclete Dentyne, que ela colocou na lista de sabores, j que ao longo dos anos sempre preferira o mesmo tipo de goma, e o forte sabor de canela 
sempre lembrava seu pai. Suas sobrancelhas e seu cabelo castanho avermelhado davam-lhe o aspecto de um gigante de conto de fadas.
      No tocante ao sentido da audio, Cris descreveu a risada profunda do pai que parecia sair do peito dele como que em "cascatas", e explicou que sua gargalhada 
fazia com que a me risse tambm.
      A linha final da redao dizia: "Mesmo parecendo um pouco rude, meu pai tem o corao de um ursinho de pelcia. Nunca duvidei do amor dele, embora creia que 
jamais venha a entender perfeitamente o quanto ele me ama."
      Contente com sua concluso e aliviada por ter terminado antes do fim da aula, Cris entregou a folha ao professor e usou o resto do tempo para fazer um pouco 
do dever de Espanhol. Era sexta-feira, e ela queria levar o mnimo possvel de tarefa para casa.
      No momento que a aula terminasse ela teria de ir para o trabalho, na loja de animais. Aos sbados trabalhava o dia inteiro e aos domingos ia  igreja. No 
lhe sobrava muito tempo para passar com o Ted, e menos ainda para fazer os trabalhos de casa.
      Ao tocar o ltimo sinal, Cris correu para seu armrio e deu de cara com o Fred ali, esperando-a.
      - Ol, senhorita Cris! Que horas pego voc para o jogo? 
      - Fred, eu j lhe disse que trabalho  noite, falou enquanto remexia a combinao do cadeado de seu armrio. No posso ir ao jogo com voc e no posso ajud-lo 
a tirar fotos para o anurio.
      - Claro que pode, depois do jogo. Podemos nos encontrar nalguma pizzaria aonde todos os jogadores vo e bater uns instantneos deles de boca cheia.
      - Acho que no, Fred.
      - Vamos l, Srta. Cris, estamos juntos nessa. Alm do mais, a sua cmara  melhor que a minha.
      - Quer levar emprestada a minha mquina?
      Cris tirou do fundo do armrio e ofereceu-a ao Fred. Tinha sido presente de Natal do seu tio Bob. Sabia que a marca tinha prestgio, mas s ficou sabendo que 
a cmara era boa mesmo no dia em que a levou  aula de fotografia e o Fred ficou "babando".
      -        Tem certeza?
      Cris hesitou. Talvez no fosse acertado deixar um presente to caro nas mos desse rapaz. Mas assim era provvel que ficasse livre dele por algum tempo.
      - Sim, pode lev-la, mas com uma condio.
      - Legal, obrigado. E qual  a condio?
      -        Que voc prometa parar de me fotografar, e que no tire mais nenhuma foto minha este resto de ano.
      Fred fez uma careta.
      - No posso prometer isso! 
      Cris estendeu a mo para pegar a mquina de volta.
      - Ou voc promete isso, Fred, ou no empresto a mquina.
      -        No posso prometer, disse Fred, devolvendo a mquina com a cara triste.
      Parecia arrasado.
      - Ah! est bem, falou Cris mudando de idia. Voc pode lev-la emprestada, e no precisa fazer promessas. S no a estrague, nem perca, est certo?
      - Sem problema. Juro cuidar bem dela, Cris, disse ele dando um enorme sorriso. Voc  o mximo, sabe? Algum j lhe disse isso?
      -        Por favor, cuide bem da minha mquina.
      Ao dirigir-se para o trabalho, Cris ficou pensando se no iria se arrepender de ter emprestado a cmara para o Fred. Resolveu perguntar ao Jon, seu patro, 
o que ele achava. Ele parecia saber julgar bem o carter das pessoas.
      Era estranho ir para o trabalho sem a Katie. No Natal passado, Katie arrumara emprego no shopping, atuando como um dos anezinhos do "Papai Noel". As duas 
se revezavam dando carona para a outra na ida para o trabalho. Aps o Natal, continuara a trabalhar com o fotgrafo do shopping. Seu horrio de trabalho coincidia 
mais ou menos com o de Cris. Mas agora havia o Michael para lev-la a toda parte, e no parecia mais precisar da carona de sua melhor amiga.
      Cris se sentia muito chateada com isso, mais do que desejava admitir. Principalmente porque a Katie estava mudando. No de maneira drstica,  claro. Mas Cris 
notara nela pequenas mudanas. Ela passara, por exemplo, a usar sandlias esquisitas, como as do Michael. Agora, ao invs de tomar refrigerante no almoo, tomava 
gua mineral.
      Jon estava no telefone quando Cris chegou, e ento ela foi direto para o trabalho. Foi dar uma olhada nos peixes do aqurio grande, ao fundo da loja. O som 
calmante do borbulhar dos tanques e o movimento lento dos peixes faziam desse cantinho o lugar predileto de Cris quando ela chegava ao trabalho e fazia a transio 
entre escola e loja de animais.
      - Cris, a voz de Jon veio da frente. Voc poderia vir at a caixa registradora, por favor?
      Cris colocou a tampa sobre o tanque de peixes onde estava colocando alimento e correu para a frente. Tinha o pressentimento de que nessa noite o trabalho seria 
incessante.
      O que no esperava era tornar-se freguesa. No final, ganhara um bicho de estimao para levar para casa.
      Tentou abrir a porta em silncio, s 21:15, quando chegou em casa. A porta de tela no cooperava, e rangeu alto anunciando sua chegada. Os olhos de seus pais 
caram imediatamente sobre ela, sobre a gaiola que ela carregava. 
      - Adivinhem o que aconteceu? Ganhei um prmio. Do Jon. Ele achou que eu deveria ter um bicho de estimao, j que trabalho numa loja de animais e no tinha 
nenhum. Ele me deu tudo de graa. At um saco grande de rao que est no carro.
      - O que ? perguntou a me, levantando do sof e aproximando-se para examinar o animalzinho.
        - Um coelho. Tive dificuldade de escolher. Chegou l uma menina com a me e disse que queria comprar o bichinho que eu tivesse. Como eu no tinha nenhum, 
Jon mandou que eu escolhesse qualquer um, que ele me daria. Ento, eu e a menina - o nome dela  Abbey - escolhemos coelhos.
      - E que nome vai dar para ele? perguntou a me, com voz calma.
      - Chocolate", porque ele  escurinho que nem chocolate. Posso ficar com ele?
      Os pais se entreolharam. Ao ver o leve aceno do pai, Cris percebeu que Chocolate fora aceito.
      - Mas no no seu quarto. Guarde-o na garagem at que a gente faa uma casinha no quintal.
      - Ol, Chocolate! disse a me, olhando dentro da gaiola. Que gracinha! Boa escolha, Cris!
      - Ainda bem que voc concorda, disse Cris, deixando transparecer um sentimento de alvio. Minha sensao era que tinha de escolher entre mil bichos. Foi difcil 
decidir. Ainda bem que vocs gostaram do Chocolate.
      -        Seu irmo vai adorar, sabe?
      -        Eu sei. Espero poder convenc-lo a me ajudar a dar comida pra ele quando eu estiver fora.
      Cris notou a risada do pai ante a idia pouco realista. Sabia que havia pouca chance, mas sempre podia esperar.
      -        O Ted ligou. Amanh ele vem passar o dia com voc.
      - Mas eu tenho de trabalhar, disse Cris, com um gemido de desnimo. A que horas ele chega?
      - Provavelmente antes do meio-dia. Voc sai s seis como sempre?
      - Sim. Gostaria de poder sair mais cedo. Diga a ele que v se encontrar comigo no trabalho.
      - David convenceu-o a ir com ele a uma espcie de parque de esqueitismo. Talvez eles passem no shopping depois.
      - Nada como compartilhar o namorado com o irmozinho da gente, murmurou Cris saindo para levar o Chocolate para a garagem.
      No fundo, sabia que no devia ter cime do David por ficar tantas horas com o Ted. Parecia bom para ambos, porque o Ted era filho nico e David o considerava 
como o irmo mais velho que no tinha. Qualquer garota teria prazer de ter um namorado que se desse to bem com a famlia dela. E Cris estava contente. S que queria 
poder passar mais tempo com o Ted.
      Ted e David s apareceram na loja de animais quando j passava das cinco. David deu um sorriso largo quando contou sobre o parque de esqueitismo e como o Ted 
lhe havia ensinado alguns novos truques superlegais.
      -        Ele tem um talento natural, disse Ted.
      - Esperem um segundo, pediu Cris, deixando Ted e David na seo de rao para cachorro, e pondo-se atrs do balco para atender um fregus.
      - Mais alguma coisa? perguntou  mulher que lhe entregou uma coleira de cachorro.
      - Sim, a no ser que voc no tenha a revista Co de Caa.
      - As revistas geralmente chegam na ltima semana do ms. Provavelmente, temos exemplares de setembro, mas os de outubro s chegaro l pelo meio da semana 
que vem. 
      - Ento  s isso.
      Cris pegou a correia para olhar o preo. Notou que a mulher prestava bastante ateno em suas mos. 
      - Que linda jia, disse a mulher, olhando a pulseira de chapinha com a inscrio "Para Sempre". Modelo diferente. Comprou aqui no shopping?
      Cris estava prestes a dizer no, que o namorado lhe tinha dado. Mas lembrou que sim, que tivera de compr-la, numa das joalherias, para recuper-la. Pois o 
Rick a roubara dela, trocando-a por uma de prata com o seu nome gravado. Mas no era isso que a senhora estava perguntando.
      - Na verdade, disse ela, baixando a voz, foi um presente muito especial do meu namorado.
      Com os olhos mostrou o Ted, que estava longe demais para ouvir a conversa. A mulher acompanhou o olhar de Cris e voltou-lhe o rosto com um gesto de aprovao.
      - Voc  uma jovem de muita sorte! 
      Cris sentiu o rosto avermelhar-se. 
      - Obrigada. Eu tambm acho.
      Depois de colocar a coleira e a correia na sacola e entreg-las  mulher, Cris lembrou-se de um detalhe sobre a pulseira de fazia muito no se lembrava. No 
ano passado, quando fazia pagamentos semanais na joalheria para pegar a pulseira de volta, o Ted ainda estava no Hava. No entanto, algum fora  loja e liquidara 
o dbito para ela. Ainda no sabia quem havia feito esse pagamento. Era um mistrio. 
      Durante algum tempo, pensou que fosse seu patro, Jon, mas ele o negara mais de uma vez. Chegou a pensar tambm que fosse o Rick, porque teve a impresso de 
t-lo visto no shopping no dia em que pegou a pulseira. Podia ser, mas o Rick no se encaixava na figura de um benfeitor que guardasse segredo, sobretudo quando 
estavam envolvidos sua pulseira e seu ego.
      Instantes depois, quando registrava outra venda, ocorreu-lhe que nunca contara nada disso ao Ted. Ser que ele sabia que a pulseira estivera fora do brao 
dela durante algumas semanas, quando ele estava fora? Ser que deveria contar?
      Depois do jantar, quando ela e Ted foram ao cinema na velha kombi, a "Kombi Nada", pensou de novo no mistrio da pulseira. No sabia o que dizer, como levantar 
o assunto. Ted ainda falava sobre o passeio com o David naquela tarde. Uma conversa mais sria sobre a pulseira de chapinha, smbolo do seu relacionamento, no parecia 
prpria para aquele momento.
      Resolveu esperar at depois do filme. Quem sabe, se o filme fosse bem romntico, colocaria o Ted numa disposio mais favorvel ao assunto.
      -        Parece que teremos de fazer uma escolha, disse Ted, olhando os diversos cartazes na entrada.  legal quando no so todos "proibidos". Voc acha que 
esse pessoal l de Hollywood est comeando a perceber que as pessoas querem algo mais, e no apenas sangue e violncia?
      Entraram numa longa fila, mesmo sem ter decidido ainda a que filme assistir.
      -        Pode ser. Qual lhe parece melhor?
      - Aquele segundo da lista comea dentro de cinco minutos. No sei muito sobre o filme, mas pelo menos  censura livre. O que voc acha?
      - Claro, parece legal. Eu tambm no sei nada a respeito dele.
      -        Cris! gritou algum chamando do estacionamento. 
      Ted e Cris viraram para trs e viram Katie e Michael correndo na direo deles, de mos dadas.
      Esto de mos dadas! Por que esto de mos dadas? Katie e Michael esto namorando. Katie, ser que voc sabe o que est fazendo? Conheceu esse rapaz h cinco 
dias e j sai com ele de mos dadas!
      -        D pra acreditar? disse Katie sem flego.
      Seu rosto estava vermelho, mas feliz. Ela trajava jeans e uma camiseta com a inscrio "Salve as baleias." Cris notou que o arroxeado dos olhos de sua amiga 
tinha melhorado bastante, e ela usava um colar de miangas pequenas, coloridas. 
      - Ted, quero apresentar-lhe o Michael. Michael, este  Ted, o namorado da Cris.
      Os dois rapazes se cumprimentaram e Ted perguntou: 
      - Ento, como  que vocs dois se conheceram?
      Cris notou que ele parecia um pouco surpreso. 
      - Na escola, disse Katie, olhando assustada para Cris. Ela no lhe falou? Foi um encontro do destino.
      Encontro do destino? Katie, uma semana atrs, voc teria dito que era uma "coisa de Deus". O que lhe aconteceu? O que significa esse negocio de " encontro 
do destino"?
      Ted, a essa altura, j havia alcanado o guich, e Michael tirou depressa um dinheiro do bolso, dizendo-lhe:
      - Mais dois daquele que voc estiver comprando.
      Ted pagou os ingressos e os quatro entraram no cinema. Katie tagarelava enquanto procuravam quatro lugares juntos, prximo  fileira da frente, exatamente 
na hora que comeavam os trailers.
      - Na hora ag, cochichou ela no ouvido de Cris.
      As duas sentaram-se juntas, entre os rapazes. 
      - No  a coisa mais ousada, mais chocante? continuou Katie.
       - Ousada e chocante?
      - Ah! O Michael diz isso toda hora, explicou Katie rindo. Ele no  um cara fabuloso? Voc no adora isso? Percebeu que eu e voc finalmente estamos fazendo 
o que sempre quisemos? Por fim, estamos namorando em dupla! 
      Cris sorriu, desconfiada, no salo escuro.
      - , legal.
      Michael colocou o brao nas costas de Katie e ela se aproximou mais dele quando o filme comeou. Cris colocou a mo direita no brao do Ted e ele segurou os 
seus dedos, entrelaando-os com os seus.
      Apertou-lhe a mo como se dissesse: "Relaxe." Cris retribuiu-lhe o gesto e se acomodou no lugar. Era o que ela sempre sonhara, ir ao cinema de mos dadas com 
o Ted, saindo em dupla com a Katie e... era ali que os sonhos no combinavam. Cris jamais imaginara um rapaz como o Michael na vida de Katie.
      Agora que ele se fazia presente, ela estava inquieta. Por que no podia ser o Douglas ou aquele filho de missionrios, o Glen? Ou qualquer outro cara normal 
da igreja? Por que a Kaite tinha de se envolver logo com esse estranho que, provavelmente, nem crente era? O que iria acontecer?
      -        Trouxemos nossa prpria merenda, disse Katie, pegando a mochila de couro do Michael. Quer um pouco?
      Vamos l, Cris, relaxe! "Curta" este momento com seus amigos. Acomode-se bem na poltrona. Coma o chocolate e tente agir como se fosse tudo do jeito que deveria 
ser.
      -        Claro. O que foi que vocs trouxeram? Chocolate? Menta? Balas de jujuba?
      Cris procurou pensar em mais algum lanche gostoso que a Katie pudesse ter trazido.
      -        Passas, disse Katie, oferecendo uma caixinha a Cris. Trouxemos passas e sementes de girassol sem sal.
      -        Passas? Daquelas recobertas de chocolate?
      -        No, simplesmente passas comuns, saudveis. Michael disse que elas tm muito ferro e sais minerais. So gostosas. Verdade! Coma!
      Katie colocou a caixinha no colo de Cris e jogou um punhado na prpria boca.
      Ela trouxe passas! Katie est comendo passas "saudveis".  Katie, est pior do que eu pensava! Voc est levando esse rapaz a srio mesmo?!
      
      
      
      
      
Ratinhos em Misso
8






      - Tem gua mineral? pediu Michael  garonete no Restaurante e Confeitaria Marie Callender, algumas horas mais tarde,quando os quatro saram para lanchar aps 
o cinema
      - Tem. Quer mais alguma coisa? 
      - No, obrigado, s gua.
      A garonete virou-se para Cris.
      - E voc?
      Cris ficou um pouco sem jeito de pedir torta depois que o Michael s pedira gua.
      - Uma fatia de torta de cereja, por favor.
      - Quer que eu esquente ou sirva com sorvete ou chantilly? 
      A torta acompanhada de sorvete lhe parecia excelente, mas Cris resolveu recusar.
      - No, obrigada.
      - Nem esquentada?
      - No, obrigada.
      - Boa escolha, disse Michael, debruando-se sobre a mesa e dando explicaes. S a prxima gerao enxergar as conseqncias do abuso de microondas em nossa 
comida. No deve ser bom para o ser humano, certamente. Melhor evitar sempre que possvel.
      -        Tudo bem, disse Cris, com um sorriso que no convencia ningum.
      -        Uma salada pequena, por favor, disse Katie. Sem molho.
      Depois das passas no cinema, nada mais deveria surpreender Cris, mas Katie pedir salada era chocante.
      - Sem a alface repolhuda, disse Michael, completando o pedido de Katie. Ela retm pesticidas mesmo depois de lavada.
      - Serve espinafre? perguntou a garonete, um pouco irritada com Michael, o "naturalista".
      - Claro, disse Katie. Virando-se para Cris, cochichou: No faz mal experimentar espinafre cru pela primeira vez na vida, no  mesmo? O que acha?
      Cris sabia que no era hora nem local para dizer a que achava. Apenas deu um sorriso e esperou ver o que recomendaria ao Ted.
      -        Torta de abbora com chantilly e um copo de gua, disse Ted.
      -        gua comum ou mineral tambm?
      -        Comum. Ainda no me matou. 
      A garonete virou-se depressa, e Cris achou que ela se irritara com eles. Cris no gostava de que se irritassem com ela. Gostava de saber que estava de bem 
com todo mundo.
      -        Ento, fale sobre Belfast, disse Ted. 
      Imediatamente Michael passou a descrever, com seu lindo sotaque, a inquietao poltica de sua cidade amada. Contou que, quando menino, fora com a me a um 
armazm e minutos depois que saram uma bomba explodiu nele. A bomba arrasou a frente da loja, mas Michael e sua me nada sofreram.
      Cris estava gostando de ouvir o Michael falar to apaixonadamente de sua terra natal. Tinha de admitir que seu sotaque que era encantador e ele falava animado. 
Katie parecia toda orgulhosa de estar com ele. Ele era atraente, mas de um encanto simples, natural. Seu espesso cabelo escuro combinava bem com a pele clara e os 
olhos verdes. Cris tinha de admiti que a personalidade e aparncia dele eram realmente encantadoras. Se ao menos dissesse que era cristo, tudo ficaria perfeito.
      Quando a comida chegou, Ted perguntou: 
      - Vocs se importam se eu orar antes de comermos?
      - Orar para agradecer um pedao de torta? indagou Michael
      - Gosto de agradecer a Deus sempre que ele me d algo para comer.
      Michael parecia estar se divertindo. 
      - Mas foi a garonete que a trouxe. O confeiteiro a preparou. O dinheiro do seu prprio bolso  que pagar por ela. O que Deus fez para lhe dar um pedao de 
torta de abbora?
      Agora foi a vez de o Ted rir-se.
      - Deus fez a abbora. Quero agradecer a ele. 
      Abaixando a cabea, Ted disse com voz jovial:
      - Obrigado Pai, por teres feito a abbora. Obrigado tambm por teres criado o Michael. O Senhor fez um bom servio com ambos.  Amm.
      Michael riu-se de novo e, em voz alta:
      - Acho que nunca ouvi uma orao dessas antes. Tem certeza de que Deus ouviu?
      Ted fez que sim e sorriu confiante. Antes de levar aos lbios a primeira garfada de torta, disse com absoluta segurana:
      - Ah sim! Ele me ouviu. Deus sempre ouve. I
      Michael tomou um gole de sua gua, e disse:
      - Seus amigos so um pouco malucos, Katie. Algum j lhe disse isso?
      - So os melhores amigos que a gente poderia desejar, Michael, falou Katie remexendo o espinafre no prato, tentando criar coragem para comer.  impossvel 
encontrar amigos melhores que esses dois.
      - Eu encontrei voc, disse Michael, olhando profundamente nos olhos de Katie.  a sorte dos irlandeses que carrego sempre comigo.
      Katie enrubesceu, mas no desviou o olhar. Pelo contrrio, seus olhos se encontraram com os de Michael, e ela se aproximou do rapaz dando-lhe um abrao silencioso. 
      Cris olhou sua torta. Era muito difcil agir com naturalidade ao ver Katie se apaixonando bem diante dos seus olhos. Ser que ela agira assim quando conhecera 
o Ted? Parecia que fora h muito tempo. Estava to acostumada com ele agora! Sentia-se muito bem ao lado dele. No podia se imaginar abraada assim, com um jeito 
to ntimo,  vista de todos. Assim mesmo, era surpreendente ver Katie to apaixonada!
      - Amanh, Cris resolveu, quando eu e Katie estivermos trabalhando no maternal, vou falar francamente com ela. Se esse cara no for cristo - e ele no aparenta 
ser - ento ela precisa terminar com ele imediatamente, antes que se envolva demais.
      Mas na manh seguinte Katie no apareceu para cumprir o compromisso que assumira de ajudar na classe. Cris se viu sozinha, para cuidar de quinze crianas de 
trs anos, cansada e famintas.
      -        Acabo de saber que a professora da classe de trs anos foi para casa, passando mal, disse a coordenadora do berrio da igreja. S conto com voc 
e a outra jovem. Vocs vo precisar de mais ajuda?
      -        Sem dvida alguma! disse Cris, tomando o caminho de um menino que estava prestes a jog-lo sobre duas meninas que estavam quietinhas, deitadas no 
tapete, olhando livros.
      -         meu! gritou o garoto.
      Ele rompeu em lgrimas e tentou arrancar o caminho da mo de Cris.
      -        A outra moa  a minha amiga Katie. Ela no apareceu. Portanto eu preciso de mais gente pra ajudar, sim.
      -        Vou mandar trs garotas imediatamente. Aqui est a revista com a lio. Se no se importa, poderia dar uma olhada? Parece que voc vai ter de contar 
a histria bblica hoje. A merenda ser no horrio normal e eu estou na sala ao lado, se voc precisar de alguma coisa.
      Cris sentiu um misto de pnico e raiva. Era Katie que tinha jeito com as crianas. Ela seria capaz de reter-lhes a ateno num piscar de olhos. Katie seria 
excelente para dar a lio, mesmo  ltima hora. Provavelmente, havia sado com o Michael e nem se preocupara em avis-la que no vinha. Isso no estava certo.
      Felizmente, as trs garotas que tinham vindo ajudar se davam bem com crianas dessa idade. Fizeram sentar a gurizada e distriburam lpis de cor para todos, 
enquanto Cris dava uma olhada na lio.
      Parecia fcil. Era uma histria sobre as estaes do ano, mostrando como Deus comanda todas as mudanas que ocorrem neste mundo. No final da lio, havia alguns 
versculos de Eclesiastes, que diziam que h uma hora para tudo. Ela lembrou que j havia escutado um corinho que dizia isso.
      Estou to zangada porque a Katie no veio! Ela provavelmente conhece o corinho. Podia cantar pra crianada. Ela  que devia estar fazendo isso, no eu!
      Cris olhou pela janela na direo do estacionamento da igreja enquanto pensava na ausncia da Katie. As folhas das rvores, que estavam mudando de cor, caam 
levemente das copas e pousavam sobre os carros como imensos confetes amarelos e alaranjados.
      Aquele estacionamento estava cheio de recordaes para ela. Fora ali que seu pai lhe havia dado a primeira aula de motorista. Nas frias do ano passado, eles 
tinham lotado o nibus da igreja para ir ao acampamento saindo daquele estacionamento. A idia do passeio fora da Katie, mas na ltima hora ela desistiu, deixando 
Cris sozinha, para ser monitora de um bando de meninas de 11 e 12 anos.
      Em seguida, outra lembrana daquele estacionamento veio-lhe  mente. Dois anos antes, ela dera um presente de Natal ao Rick Doyle junto ao carro dele, e ele 
lhe dera um beijo inesperado. Pensando bem, fora Katie tambm quem sugerira o presente do Rick e dera a idia de que ela fosse com ele ao estacionamento.
      Cris percebeu que tinha uma recordao para cada estao do ano, relacionada com aquele estacionamento. Talvez pudesse "criar" recordaes tambm para aqueles 
coraezinhos l no mesmo estacionamento. Podiam sair para dar uma caminhada nele e cada um pegar uma folha de rvore. Depois entrariam para ela contar a histria 
bblica. Cris colocaria as folhas todas no quadro e contaria que foi Deus quem fez a mudana das estaes. Parecia simples.
      - Olha gente! Todo mundo de mos dadas! Vamos sair e ficar bem quietinhos - como se fossem pequenos camundongos.
      Cris colocou o dedo nos lbios e fez um gesto para que as crianas viessem atrs dela, p ante p, como se fossem pequenos camundongos.
      A no ser por uns dois engraadinhos que tentaram imitar um ratinho guinchando, conseguiram chegar ao estacionamento sem nenhum incidente. Cris levou-os at 
a rvore que havia ao lado do estacionamento, e disse:
      - Agora, continuem segurando a mo do coleguinha e cada um pegue uma folha e vamos lev-las para a sala de aula.
      Dois meninos perto da cerca avistaram as folhas que queriam, uma distante da outra, e tentaram peg-las ainda de mos dadas. Um puxava forte o brao do outro. 
Antes que comeassem uma briga maior, Cris interveio e levou Tyler para pegar a folha dele enquanto uma das garotas ajudantes tomava a mo do Benjainim e o ajudava 
a pegar a dele.
      -        Est bem, crianas! Todos de mos dadas? Mostrem as folhas! Ah, mas so lindas! Vocs fizeram muito bem. Agora, vamos ser ratinhos bem quietinhos 
de novo e voltar para a sala.
      Na volta, a fila parecia bem mais barulhenta do que na ida. Cris teve de faz-los parar  entrada e colocou o dedo nos lbios mais uma vez.
      -        S quero ver ratinhos bem quietinhos, andando p ante p pelo corredor, sem um barulhinho. Quem vai ser o meu ratinho mais quietinho?
      -        Eu! gritaram todos bem alto. Cris fez de novo sinal de silncio.
      -        Sh! No quero ouvir nenhum som. Um ratinho bem quietinho no faz barulho.
      Com passos exageradamente leves. Cris segurou a mo do novo companheiro e mostrou como ela queria que andassem sem fazer barulho. Estava dando certo. De mos 
dadas, e ao mesmo tempo segurando cada um a sua folha, entraram na sala p ante p.
      A coordenadora do berrio estava  porta e pareceu ficar encantada com o que viu.
      - Eu vim ver por que aqui ficou to silencioso de repente. Parece que tiveram uma aventura especial. 
      Cris concordou e conduziu a silenciosa fileira para dentro da sala. enquanto a coordenadora observava, Cris disse:
      - Agora todos os meus ratinhos precisam sentar no cho e colocar a folha no colo. Elas so tesouros especiais. Foi Deus quem fez essas folhas.
      As crianas se sentaram olhando para suas folhas com reverncia, aguardando que ela continuasse a falar.
      - Nunca vi esta classe to comportada antes, cochichou a coordenadora no ouvido de Cris. Voc est fazendo um milagre! No sabia que tinha tanto talento para 
trabalhar com crianas. Voc devia se tornar uma de nossas professoras regulares. Converso com voc sobre isso depois.
      Cris sentiu grande satisfao. Era gostoso fazer esse trabalho, desde que as crianas cooperassem. Mas ficava meio desatinada quando brigavam ou gritavam. 
      - Est bem, meus ratinhos, vocs fizeram um excelente trabalho! Uma das tias vai passar e pr um pedao de fita adesiva na sua folha com o seu nome para todo 
mundo levar sua prpria folha para casa. Vou colocar todas aqui no quadro e depois contar uma histria muito bonita.
      Cris mal podia acreditar na expresso de doura que via naqueles rostinhos. Fizeram o que ela disse e em seguida se preparam para ouvir a histria.
      Depois de afixar as folhas no quadro  frente, Cris sentou-se na banco da professora e ergueu a Bblia para as crianas verem.
      - Sabem o que  isso?
      - A Bblia! gritaram todos.
      Seguiu-se uma srie de comentrios, empurres e tagarelices.
      Est certo. No devo fazer perguntas, a no ser que eu queira uma revoluo.
      Isso mesmo, a Bblia. Agora escutem todos. Os ratinhos vo ficar bem quietinhos para ouvir a histria.
      Esperou um momento, enquanto as ajudantes acalmavam as crianas.
      -        A Bblia fala de Deus. A Bblia diz (abriu depressa em Eclesiastes 3.1 e comeou a ler): "Tudo tem seu tempo determinado, e h tempo para todo propsito 
debaixo do cu: h tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou."
      Cris notou que o versculo seguinte dizia '"tempo de matar e tempo de curar". No achou que uma turma de meninos de trs anos fosse entender isso, ento saltou 
alguns versculos e leu "tempo de chorar e tempo de rir, tempo de prantear e tempo de saltar de alegria". Pensando que perderia a ateno deles se fosse ler tudo, 
resumiu depressa:
      -        Existe tempo pra tudo.
      Ser que a pessoa que escreveu esta lio lembrou que a ateno de uma criana de trs anos  muito curta?
      Falou mais um pouco para a turma - que agora j no estava mais to quieta - que Deus est no controle de tudo e que sabe quando  hora de as coisas mudarem.
      -        Agora, por exemplo,  o tempo das folhas mudarem de cor. Tudo acontece de acordo com o plano de Deus.
      Naquele momento, entrou uma ajudante com a bandeja de suco e biscoitos, e toda a concentrao se foi. Mas ainda assim, Cris sentiu-se bem, tendo dado sua primeira 
aula para crianas do maternal. Juntamente com aquelas folhas coloridas, elas iriam levar algumas lies eternas, lies sobre o plano de Deus e sobre o fato de 
que Ele tem uma hora certa para tudo.
      Mesmo que as crianas no tivessem aprendido muito, Cris entendeu que ela prpria tinha encontrado uma pepita de ouro da verdade de Deus para sua vida e a 
escondera no corao. Hoje, por exemplo, fora a hora de ter uma experincia nova: dar aula para o maternal. Para sua surpresa, ela gostou.
      Enquanto as crianas se aglomeravam em volta das mesinhas, algumas pequenas brigas romperam pela pressa de pegar o lanche. Essa era a parte de que Cris no 
gostava - ter de acalmar os maluquinhos. J tinha visto Katie fazer isso com enorme facilidade e queria que ela estivesse ali.
      Lembrando os versculos que diziam haver tempo para tudo, cerrou os dentes e separou dois briguentos.
      Talvez exista mesmo um "tempo de matar", e vai ser hoje  tarde, pegar a Katie por ter me deixado sozinha!
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
Mais Difcil, Mas Melhor
9








      - Bem, sabe dizer quando ela estar de volta? Perguntou Cris ao irmo de Katie pelo telefone, domingo  noite.
      A tarde inteira tentara falar com ela, mas ningum atendera ao telefone.
      -        No sei.
      -        Se ela chegar antes das dez, podia pedir para ela me ligar? Obrigada.
      Cris estava prestes a ir para a cozinha procurar algo par comer, quando o telefone tocou.
      - Al!
      - Al! Como vo as coisas?
      - Ted, ol! Queria que voc estivesse aqui.
      -  mesmo? O que anda pintando por a?
      -        Katie no apareceu na igreja hoje. Liguei pra ela a tarde toda, mas no est em casa. Acabei de falar com o irmo dela, mas ele no sabe que horas 
ela volta. Saiu com o Michael, tenho certeza. No  boa coisa.
      Cris escutou a risada do Ted no outro lado da linha.
      -        O que foi? Achou engraado? O negcio com esse rapaz  srio. No h nada engraado nisso.
      - No; voc  que  engraada. Parece mais uma me preocupada do que uma boa amiga.
      - No acredito que voc esteja debochando de mim, e encarando esse relacionamento entre Michael e Katie como se no fosse nada! Ele no  crente e ela est 
se apaixonando por ele. Est na cara. Ela ainda vai sofrer com isso, Ted. E me desculpe, mas eu me importo muito com o que acontece com meus amigos.
      - Ento fique ao lado dela, respondeu Ted, calmamente. 
      -  meio difcil ficar ao lado dela quando ela est saindo com ele!
      Houve apenas silncio do outro lado da linha. 
      - O que devo fazer, Ted? 
      - Seja a melhor amiga dela. 
      - Eu sou a melhor amiga! 
      Cris s percebeu que estava falando alto quando sua me apareceu no corredor e a encarou. 
      Mais silncio na linha.
      - Ted, voc est interessado nesta conversa? Estou achando que estou falando sozinha.
      Embora tivesse abaixado a voz, Cris sabia que a intensidade de tom continuava forte. 
      - Estou aqui, Cris.
      - Bem, eu queria que voc me dissesse o que devo fazer. No  assunto para provocar risada, nem para ser ignorado. Katie vai ter srios problemas se no fizermos 
alguma coisa. O q eu  que eu devo fazer?
      - Ted esperou um pouco antes de responder. 
      - No sei o que lhe dizer, a no ser que fique ao lado dela. Continue amando-a. Ore por ela. 
      Agora Cris estava mesmo zangada. Ted orava sempre acerca de tudo, e Cris procurava fazer o mesmo. Mas, no momento, sua melhor amiga estava prestes a fazer 
a maior burrada de sua vida! A resposta do Ted era simples demais.
      - No  assim to fcil.
      - Claro que . Voc  que est vendo as coisas difceis.
      - No estou! replicou ela, a voz tremendo de emoo. Como voc pode ser to insensvel, Ted Spencer?! No quero mais conversa!
      E sem parar para pensar no que estava fazendo, bateu o telefone, desligando.
      O que foi que eu fiz? Nunca discuti antes com o Ted assim. Nunca desliguei na cara dele. Ele deve estar pensando horrores de mim. Como  que fui fazer uma 
coisa dessas?
      Imediatamente ela discou o nmero do Ted, mas caiu na secretria eletrnica, com a voz do pai dele dizendo:
      "No podemos atender no momento, mas se quiser deixar uma mensagem, aguarde o sinal!"
      Cris esperou o sinal e disse:
      - Eu, eu sinto muito, Ted. Se voc estiver a, por favor, ligue de novo. Quero conversar mais com voc sobre isso. Obrigada. Tchau.
      Foi a mensagem mais boboca do mundo! E se o pai dele escutar? Ser que o Ted est l e no quer atender, ou ele ligou de outro lugar?
      Cris se lembrou de que, s vezes, Ted vinha at sua cidade para v-la e s avisava quando j estava perto. Ligava para saber se era uma boa hora de visit-la. 
E se ele estivesse na cidade? A viagem da casa dele  dela durava uma hora e meia. Portanto no era coisa de pouca importncia o Ted ir v-la. Ela se sentia pssima.
      Cris passou uma hora esperando o telefone tocar. Tentou assistir  televiso, tomou sorvete, fez as unhas. Foi at a garagem e deu uma cenoura para o Chocolate. 
Acariciou seu plo fofo e voltou para a sala. Sentia-se realmente pssima.
      s 21:15 o telefone tocou e Cris correu para o aparelho. Era engano e ainda por cima a pessoa era estrangeira. Finalmente, s dez, Cris, sem muita vontade, 
foi deitar, mas ficou acordada, em silncio, culpando-se por ter desligado o telefone na cara do Ted, e preocupada com a Katie. Foi uma noite horrvel.
      Tentou ligar novamente para o Ted s 7:45 da manh seguinte, mas de novo caiu na secretria eletrnica. Sabia que o pai dele saa cedo para o trabalho, e Ted 
tinha aula na segunda de manh, mas esperava alcan-lo antes que ele sasse. A idia de passar o dia na escola sem ter-lhe pedido desculpas a deprimia. Quase diminua 
sua preocupao com a Katie. Isto , at o momento em que a viu na hora do almoo.
      Michael ainda no tinha chegado ao lugar em que almoavam. Katie estava sentada sozinha perto da rvore, e Cris correu para falar com ela antes que ele chegasse. 
Sem flego, perguntou:
      - Katie, por que voc no foi  igreja ontem? Me deixou sozinha com uma turma de ratinhos. Onde voc estava? 
      - Eu e o Michael fomos  praia.
      - O dia todo? Liguei para voc a tarde toda e seu irmo no sabia onde voc estava.
      - Eu no tenho de prestar contas a ele. E o que  que h com voc?
      Cris resolveu ir direto ao assunto.
      - Voc tem que acabar esse negcio com o Michael. Ele nem  cristo, ?
      Katie olhou espantada para Cris.
      - No sei. Na Irlanda do Norte, isso  diferente. Com a guerra entres catlicos e protestantes, a religio  mais uma questo poltica. Mas ele acredita em 
Deus.
      - Maravilha, ele acredita em Deus!  maravilhoso! Voc no percebe o que est fazendo, Katie? Est botando a perder tudo que voc j conquistou, moral e espiritualmente. 
No se lembra, na escola dominical, quando voc foi a "Katie Crist" sentada na cadeira, e o "Pedro Incrdulo" a puxava para baixo? E o que est acontecendo entre 
voc e o Michael. 
      Katie caiu na gargalhada.
      - Voc me faz morrer de rir, Cris. Devia ver sua cara neste momento.
      Katie imitou-a arregalando os olhos e sacudindo o dedo na cara dela. Riu de novo.
      - Relaxe! continuou ela. No estou fazendo nada de errado!
      - Voc est namorando um rapaz que no  crente. Acha que est certo?
      Katie pensou um pouco e perguntou:
      - Quando voc foi  Disneylndia com o Ted, h dois anos, era crente na poca?
      - Bem, eu ainda no tinha me convertido, mas era diferente.
      - Como era diferente? Se o Ted no tivesse lhe dado tanta ateno, voc ainda acha que teria se tornado crente? indagou Katie em tom de desafio.
      - Bem, eu... no  a mesma coisa, Katie. Isso foi muito tempo. Eu e Ted no estvamos namorando de verdade, e eu no estava me apaixonando por ele do jeito 
que voc est se apaixonando pelo Michael!
      - Voc est "maluca"! disse Katie empregando o termo que Michael usava. Voc e o Ted estavam saindo juntos e voc estava apaixonada por ele. S que ele era 
cristo, e voc no.
      Naquele momento, Michael chegou. Cris virou-se de lado, recusando-se a olh-lo de frente.
      - Depois eu falo com voc, Katie.
      - O que foi que deu nela?
      Cris escutou o Michael perguntando a Katie. E ao afastar ouviu Katie responder:
      - Deve ter brigado com o Ted.
      A Cris ficou realmente furiosa. J era ruim no ter um conseguido nada com a Katie, mas a piadinha dela dizendo que ela brigara com o Ted fora pior ainda, 
principalmente porque era verdade.
      Achou uma mesa desocupada e tentou se convencer que tava com fome para fazer seu lanche.
      - Ol, Srt. Cris! Ouviu uma voz conhecida e irritante atrs dela.
      Cris no estava disposta a conversar com o Fred.
      - Consegui umas fotos fabulosas no jogo de sexta-feira. Voc devia ter ido. Adoro sua mquina. Vai precisar dela no resto da semana? Se voc no se importa, 
quero terminar este rolo de filme.
      - Tudo bem, disse Cris sem erguer o rosto.
      - Obrigado! respondeu Fred.
      Ele estava prestes a se afastar quando parou:
      - Voc est bem? indagou.
      - Claro. Estou tima.
      - Ento, por que est sentada a sozinha?
      - Preciso fazer um trabalho de escola, mentiu. Fred sentou-se ao seu lado.
      - Cris, voc est mentindo. No est com nenhum livro.  uma pssima mentirosa.  bom voc saber disso. Problemas com o namorado?
      Cris no lhe deu ateno.
      - Problemas em casa?
      Ela desembrulhou o sanduche para comear a comer. 
      Fred no desistia. Aproximou-se mais e disse em voz baixa:
      - Pode confiar em mim, Cris. Seu pai a est surrando? 
      A pergunta provocou-lhe um rpido e silencioso riso, porque a idia do seu pai dando-lhe uma surra era totalmente absurda.
      - No, Fred, o meu pai no bate em mim.
      - Pois o meu bate.
      Cris olhou para o Fred pela primeira vez. Ele falava srio, 
      - Seu pai realmente bate em voc, Fred?
      - Bem, batia, antes que minha me se divorciasse dele. Eu no o vejo desde que tinha nove anos. Nem sei onde ele mora agora. A razo pela qual eu levantei 
a questo  que eu costumava sentar-me sozinho no almoo todos os dias quando era menino, principalmente depois que ele me batia. Eu no queria que perguntassem 
por que eu estava com aquelas marcas roxas no corpo.
      Fred levantou o brao direito de Cris e verificou-lhe os olhos. No tem nenhum vergo. Voc deve estar dizendo a verdade.
      Sorriu ento como se fizesse pouco caso do assunto. 
      - Fred, sinto muito. Eu no tinha idia...
      - Claro. Isso no  algo que a gente sai contando aos quatro ventos, certo? Alm do mais, faz tempos que ele sumiu.
      - Mas as lembranas demoram mais pra sumir, no  mesmo? perguntou Cris.
      Parecia que os olhos de Fred iam ficando turvos. 
      - . Bem, a vida continua. Nada  perfeito, sabe. Nem sei por que eu lhe disse isso. No comenta pra mais ningum, no, ta bem? Eu ia ficar muito chateado.
      Cris sorriu e concordou. 
      - No se preocupe. Seu segredo est guardado comigo.
      - Acho que eu sabia que ficaria. Ento, voc no me disse qual  o seu problema.
      Com as revelaes do Fred, Cris quase se esquecera dos seus problemas com Katie, Michael e Ted.
      - Ah, na verdade, no  nada demais. Mas estou contente por voc ter aparecido. Eu me sinto melhor. Obrigada.
      - A o sorriso que eu esperava! disse Fred. E antes que Cris pudesse impedir, ele levantou a cmara e apontou bem de perto para o rosto dela.
      - Sorriso, Srt. Cris!
      - Fred, no me fotografe!
      Ela colocou a mo em frente da lente, bloqueando o instantneo no momento que a mquina fez "clique".
      - Ei! protestou o rapaz. Teria sido uma fotografia excelente. Por que fez isso?
      - Porque eu j lhe disse que no quero ser fotografada.
      - Mas  parte do nosso relacionamento.  minha maneira de documentar o ano que passamos juntos.
      - Fred, ns no temos um "relacionamento". Estar juntos para ns  s o fato de que estamos na turma do Anurio. S isso.
      - Voc v as coisas do seu jeito; eu as vejo do meu.
      - Fred... principiou Cris, mas no sabia mais o que dizer.
      Sentia-se frustrada. Ele se abrira com ela, falando do pai, e ela comoveu-se por ele. Mas o Fred parecia ver no seu gesto de comiserao um sinal de que o 
relacionamento entre ele progredindo, aprofundando mais.
      Resolveu tentar ignor-lo. No primeiro grau, isso dava certo com os garotos iguais ao Fred. Se ela se limitasse a comer seu sanduche sem falar com ele, talvez 
ele ligasse o "desconfimetro".
      Infelizmente, parecia que o Fred se contentava com o silncio. Abriu o lanche dele tambm e se ps a comer. De vez em quando olhava para as pessoas que por 
acaso passavam e dava um sorriso, como se os dois tivessem combinado lanchar juntos ali.
      - Preciso ir at o meu armrio, disse Cris de repente, enfiando de volta no saquinho o resto do sanduche e levantando-se.
      - Vou com voc.
      - No precisa. Vou dar uma parada no banheiro tambm. Voc no pode me acompanhar l.
      - Ento eu a vejo na sala de aula daqui a pouco.
      Quando Cris comeou a se afastar, Fred disse baixinho:
      - Obrigado por ter almoado comigo. Nove anos  muito tempo para se almoar sozinho.
      Cris continuou andando, mas comeou a pensar na situao do Fred ao longo desses anos. Teria realmente alguma coisa mudado na vida dele? Em parte, ela sentia 
pena dele e queria forar-se para ser mais amvel com ele. Ele no era assim to mau. Tinha uma boa personalidade. Se ao menos no tivesse uma aparncia to rejeitvel...
      Quanto mais pensava no assunto, mais Cris percebia que o problema do Fred era a aparncia. Mas ela tambm j tinha problemas bastantes. Comeou a planejar 
como ligaria para o Ted no momento em que chegasse em casa. Jurou a si mesma que no dormiria enquanto no acertasse tudo com ele. 
      Conseguiu finalmente falar com o Ted s 21:45. Ele parecia estar de timo humor, nem um pouco abalado pela briga da noite anterior.
      - Estou muito arrependida, Ted. Nem acredito que desliguei o telefone na sua cara.
      - Voc estava zangada. 
      - Mas no devia estar. 
      - Por que no?
      - Porque eu no devia ter ficado to irritada.
      - Sabe o que CS. Lewis disse? perguntou Ted. Ele disse: A ira  o fluido que sai do amor quando o cortamos." * Li isso um dia desses. Voc gosta da Katie. 
O Michael est "cortando" esse relacionamento, e est saindo ira de voc. Isso  natural.
      - Ento acha que estou certa em sentir-me assim?
      - Eu no disse que est certa, disse que  natural. O jeito certo quase nunca  o natural. O jeito certo  o de Deus, que  sobrenatural.
      - E como  que vou passar do natural para o sobrenatural? indagou Cris.
      No momento em que perguntou isso, j sabia qual sem resposta.
      - Ore, replicou.
      - Foi exatamente o que eu pensei que voc diria. 
      Ted deu uma risada.
      -  difcil, no  mesmo?
      - Sim. Eu achava que quanto mais eu crescesse na vida crist, mais fcil seria. Parece que s est ficando mais difcil.
      - Mais difcil, mas melhor. Acho que no deveramos querer que fosse de outro jeito. Todo relacionamento envolvendo o amor verdadeiro parece tornar-se mais 
difcil, mas melhor  medida que se aprofunda.
      Cris se perguntou se ele estava se referindo ao relacionamento com Deus, com ela ou com ambos. Tornar-se mais difcil e melhor certamente se aplicava a ambos 
os relacionamentos de sua vida.
      - Bem, mesmo assim quero pedir perdo pelo jeito como desliguei o telefone, Ted. E continuo preocupada com a Katie. Vou procurar orar mais. De qualquer jeito, 
aprendi que no quero mais esperar muito tempo para pedir desculpas a voc. Foi horrvel passar um dia inteiro vivendo esse impasse entre ns.
      - , eu tambm no gosto de me sentir assim. Eu estava na casa do Douglas quando liguei para voc ontem  noite. Senti que no ficava bem tornar a ligar principalmente 
com o Douglas ao lado. Ele me disse para deixar pra l. Disse ainda que isso talvez fosse bom para o nosso relacionamento. Por um momento quase pensei que ele estivesse 
contente de v-la zangada comigo. Por acaso, ele no ligou para voc ontem, ligou?
      - No. Tentei ligar pra sua casa, mas s caa na secretara eletrnica.
      - Quer vir para c neste fim de semana? Voc no poderia ficar na cada de Bob e Marta e ir comigo  igreja no domingo?
      - Tenho de trabalhar sexta-feira  noite e sbado o dia inteiro. E tenho compromisso de mais um domingo na classe do maternal na igreja. Queria no ter tantos 
compromissos. Realmente, queria poder passar mais tempo com voc, e no apenas um cinema rpido no sbado  noite.
      - Eu sei bem o que voc quer dizer. Que tal ento no outro fim de semana, se voc no tiver mais compromisso com a classe? Ser que o Jon deixa voc sair mais 
cedo no sbado?
      - Vou ver o que consigo. Estou precisando passar mais tempo com voc, Ted. Parece que tem tanta coisa acontecendo e estamos to longe um do outro.
      - Ento no outro fim de semana. Vamos passar juntos. Eu ligo para voc neste fim de semana, depois que voc chegar do trabalho.
      Cris nem tentou esconder sua frustrao quando disse:
      - Ento, quer dizer que voc no vem este fim de semana? Podamos fazer alguma coisa sbado  noite quando eu sair do servio, ou talvez domingo  tarde.
      - Tenho de ficar por aqui e estudar. Este semestre est superpuxado; j estou atrasado com os trabalhos. Depois eu ligo para voc e passaremos juntos o outro 
fim de semana.
      Duas longas e horrveis semanas sozinha! pensou Cris. J fora ruim passar vinte e quatro horas sem acertar as coisas entre ela e Ted. Agora teria de esperar 
duas semanas para v-lo de novo! Seria uma eternidade.
      Nos anos anteriores, quando eles ainda no estavam namorando, no fora muito difcil estar longe dele. E toda vez que o via, era uma festa. Agora tinha a sensao 
de que deveriam estar juntos sempre que possvel.
      Resolveu que sairia cedo do trabalho no outro sbado e terminaria logo o dever de casa para passar o tempo todo junto dele. Tudo parecia timo at a noite 
seguinte, quando Cris falou de seus planos com sua me.
      - Mas  o aniversrio de seu pai. Pensei em fazermos algo juntos, toda a famlia, disse a me. Talvez a gente v fazer um piquenique nas montanhas.
      - O Ted poderia vir conosco, no poderia?
      - Bem, no sei.  o aniversrio do seu pai. E ele quem deve decidir.
      Isso no preocupou Cris. Seu pai gostava do Ted. Embora o Ted j tivesse viajado vrias vezes com Bob e Marta, ainda no gozara muito da companhia dos pais 
de Cris. Estava na hora de comear. 
      - Acho que vamos apenas comer um bolo aqui em casa mesmo, disse o pai dela mais tarde aquela noite. No sou muito de fazer turismo pelas montanhas.
      - Posso convidar o Ted?
      Pela cara do pai, Cris notou imediatamente que a idia de incluir o Ted na comemorao simples da famlia nunca passara por sua cabea.
      - Talvez no, disse a me, interpretando a expresso do marido. Vamos manter a coisa s em famlia. O prximo fim de semana voc passa junto com o Ted.
      Trs semanas! Para Cris parecia uma vida inteira. Como ela poderia calmamente esperar trs semanas para se encontrar com o namorado? Alguma coisa tinha de 
mudar.
      A primeira em que pensou foi o emprego. Mudaria o horrio para ficar com o sbado livre. Talvez trabalhasse uma ou duas noites da semana alm da sexta-feira. 
O Ted estava estudando mesmo e no viria  noite durante a semana. Desse jeito eles teriam os sbados livres para passar juntos.
      Naquela sexta, quando chegou  loja, Cris se aproximou de Jon com o pedido. Ele ficou pensando.
      - Pode ser. Se eu arranjar algum para cobrir o horrio de sbado, talvez possa lhe dar folga nesse dia. O problema  que no tenho vaga em outras noites da 
semana. Se quiser abri mo dos sbados, provavelmente s ter as cinco horas de sexta-feira. Ser que vai ter dinheiro suficiente para a gasolina * do carro?
      Jon tinha razo. Cinco horas no lhe dariam muito dinheiro para seus encargos pessoais, principalmente tendo em vista as despesas extras de ltimo ano no colegial.
      - No sei. S sei que tenho coisas demais para fazer e terei de cortar algumas. No estou tendo tempo para sair com os amigos.
      Jon produziu um rudo tpico - "clique" - que fazia quando tratava das aves e dos porquinhos-da-ndia, principalmente quando ia aliment-los. Agora parecia 
estar usando o mesmo para confort-la.
      - O tempo  uma coisa esquisita, no  mesmo? Nunca parece ser suficiente quando temos coisas a fazer. E quando no se tem o que fazer, parece que ele sobra.
      - Tem razo, disse Cris, to desanimada na aparncia quanto no corao.
      - Mas no se preocupe. Vamos encontrar uma sada.  bom voc aproveitar bem o tempo neste seu ltimo ano de colgio, aconselhou ele dando uma piscada e um 
sorriso. Esperamos que voc s tenha um ltimo ano de colegial!
      Que foi que o Ted dissera? Mais difcil, mas melhor. Talvez ele estivesse certo quanto ao "melhor", mas no momento ela s conhecia o lado "mais difcil".
      
      
      
      
      
      
Trinta por Cento de Desconto
10







      Ao voltar para casa naquela sexta-feira, Cris pensou que precisava colocar algumas coisas em ordem na sua vida. A primeira coisa era fazer as pazes com Katie. 
      Na manh seguinte, ligou-lhe para perguntar se queria ir junto para o trabalho e se poderia almoar em companhia dela, como antes. Quando telefonou, obviamente 
Katie ainda no rinha acordado.
      - Que horas so?
      - Oito e pouco. Acordei voc?
      - , mas no faz mal. Cheguei em casa quase s duas da manh, explicou Katie, dando um enorme bocejo. Estou exausta, mas foi bom voc me ligar. Estava pensando 
se voc ia me deixar de lado pra sempre.
      - S chegou em casa s duas? Aonde foi?
      No momento em que Cris falou, percebeu que parecia uma velha apoquentando a amiga, dificultando a "reconstruo" do relacionamento entre as duas, que j estava 
meio abalado.
      Katie fez uma pausa e, com a voz irritada, retrucou:
      - Fomos a um concerto em San Diego.
      - Desculpe; eu no queria dar uma de chata, disse Cris. Depois, se esforando para parecer o mais natural possvel, perguntou: Vocs se divertiram?
      -  claro que sim. Eu e Michael sempre nos divertimos. 
      Cris quis responder num tom otimista. 
      - timo, Katie!
      - Est dizendo isso com sinceridade? 
      Cris sabia que no conseguiria mentir. Como resolver isso? Parou, pois no tinha uma resposta convincente.
      - No faz mal, continuou Katie. No precisa responder. Sei o que voc pensa do Michael. No precisa mentir pra mim. Jamais. Eu tambm no vou mentir pra voc, 
e sabe disso. Queria que voc ficasse contente comigo. Nunca me senti to feliz em toda a minha vida, Cris. Sinto que posso ser eu mesma. O Michael gosta de mim. 
D pra acreditar?
      - Claro que acredito. Tem mais  que gostar. Voc  um tesouro, Katie.
      - Entendeu o que eu disse? O Michael gosta de mim, Cris.  primeiro cara que realmente se interessa por mim, e estou morrendo de tristeza por voc no se alegrar 
comigo. 
      - Eu s queria que ele fosse cristo, Katie. 
      - Por que isso  to importante pra voc? No vou casar com ele! Estamos apenas namorando. S isso. Ele  muito aberto para Deus e para as coisas espirituais. 
      Cris parou, procurando escolher com cuidado as palavras. 
      - Mas, Katie, voc e Michael esto ficando ntimos to depressa, que me preocupo com voc. Ele no tem os mesmos padres que voc.
      - Tem sim, respondeu Katie imediatamente, na defensiva. Voc  que no o conhece, Cris. No sabe como ele . Voc  to cheia de auto-justificao, que nem 
sequer procura conhec-lo, pois acha que ele no se enquadra no seu padro de perfeio crist. Deixe eu lhe dizer uma coisa: o Michael  mais cavalheiro comigo 
do que o Rick Doyle foi, e o Rick, ao que se sabe,  um grande cristo. O Rick me beijou sem ter amor por mim. Eu era apenas mais uma conquista, um joguete. Quando 
o Michael me beija, sei que ele o faz do fundo do corao. Ele leva nosso relacionamento muito a srio, como eu levo. 
      - Vocs j se beijaram?!
      - Claro que sim! Voc e o Ted no se beijam? Por que esse tom moralizante? No fiz nada que voc no tenha feito. No estou fazendo nada de errado!
      Cris sabia que Katie estava totalmente acordada e na defensiva. No seria muito fcil reatar naquele momento a comunicao dos dois lados. Em vista disso resolveu 
mudar de assunto.
      - Podemos almoar juntas hoje e nos encontrarmos na praa de alimentao  uma hora, no shopping? Queria levar um papo com voc e gostaria que fosse s entre 
ns duas.
      - Hoje no posso. Tenho outra coisa pra fazer, disse Katie parecendo um pouco mais calma.
      - E depois do servio? Podemos conversar ento. Voc ainda sai s seis?
      - Na verdade, no trabalho mais no estdio fotogrfico.
      - Verdade? Desde quando? O que aconteceu?
      - Fui despedida.
      - Katie, quando foi que isso aconteceu? Por que no me contou?
      - Bem, este ano voc no me pareceu muito disposta a jogar conversa fora.
      - E o que aconteceu?
      - Tirei muita folga, meu patro no gostou, e por isso me "liberou". Foi melhor assim. Com meu horrio de trabalho arrochado como era, no me sobrava tempo 
para os amigos.
      Cris sabia exatamente o que Katie queria dizer; mesmo assim, era horrvel saber que fora despedida.
      - Vai procurar outro emprego?
      - Acho que no. Pelo menos por hora. Mas isso no tem tanta importncia.
      - No tem tanta importncia?! Cris tentava achar as palavras certas. Voc est mudando, Katie. O que est acontecendo com voc?
      - Estou me descobrindo, respondeu Katie confiantemente. E o bom de tudo isso  que, graas ao Michael, estou gostando do que estou descobrindo.
      Ficaram em silncio por um momento. A Katie retomou conversa, falando baixo:
      - Sabe, Cris, estou lembrando de todas as mudanas pelas quais voc passou desde que nos conhecemos, todos os rapazes, as situaes difceis. Durante esse 
tempo eu tentei estar ali, dando-lhe uma fora e tentei entender voc. Seria muito bom se voc pudesse me dar um pouquinho de apoio agora. Se tentasse compreender 
e at mesmo ficar um pouco feliz por mim; isso me seria muito valioso.
      - Katie, quero mesmo lhe dar meu apoio. Tenho feito isso em muitas situaes esses anos todos. Talvez mais do que voc possa imaginar. O problema  que, conforme 
venho observando, voc est se apaixonando por um rapaz que no  cristo, e eu no consigo me sentir bem com isso. 
      Katie deu um suspiro.
      - Ento talvez eu tenha me enganado com relao a voc e  nossa amizade. Pensei que voc se interessasse mais por mim do que por todas essas leis religiosas. 
 exatamente como disse o Michael: a religio e a poltica tm a mesma base.  tudo uma questo de partido, e tome bala quem no estiver do nosso lado.
      - Katie, isso no  verdade...
      - Acho que . Preciso desligar, Cris. Tem uma chamada na outra linha. Pense no que eu lhe disse e a gente conversa depois, quando voc estiver disposta a abrir 
um pouco a cabea.
      No trabalho foi difcil para Cris se concentrar e agir como se nada tivesse acontecido. Tudo que ela pensava sobre a amizade, namoro e o cristianismo ficou 
abalado naquela conversa de telefone. Como as coisas podiam ter mudado tanto e to depressa?
      Durante a semana seguinte, ela ficou atrs de Katie, tentando voltar  amizade de antes. O Michael, por sua vez, interpretava a interferncia dela como um 
meio de separ-lo de Katie.
      Aps quatro dias de tenso na hora do almoo, debaixo daquela rvore, na sexta-feira, Cris achou melhor deixar Katie e Michael sozinhos e continuar na segunda. 
Achou que estava agindo certo, ficando ao lado de Katie. Fora o que Ted a aconselhara a fazer, no sem antes avis-la de que poderia vir a ficar magoada.
      "Lembra-se do que acontece ao amor quando a gente o corta? O fluido que sai dele por vezes  a ira."
      E parecia que era exatamente isso - ira - que Katie dirigia a Cris, com seus comentrios cruis e argumentos defensivos.
      - Ento,  s nas sextas e segundas, ou o qu? 
      Cris ouviu a voz do Fred atrs dela minutos depois, enquanto se dirigia a uma das mesas do ptio.
      - Virou ritual agora - comeo de semana... fim de semana? continuou ele.
      - O que foi que voc disse?
      - A ltima vez que voc veio aqui era uma segunda-feira, lembra? No desta semana, da outra. Estou tentando descobrir o que est fazendo. Voc s lancha sozinha 
nos dias em que o cabelo est ruim ou o qu?
      Fred sentou ao seu lado e abriu a lata de refrigerante.
      - No, s lancho sozinha quando no tem outra pessoa para almoar comigo.
      Ao ouvir suas prprias palavras, Cris percebeu como parecia amargurada. A triste verdade era que passara tanto tempo com a Katie nos ltimos anos, que no 
desenvolvera amizade com outras pessoas na escola. Pelo menos ningum que a convidasse para dar uma chegada a uma lanchonete na hora do almoo.
      - No tem problema, falou ele. Acontece que hoje estou livre, e no me importo nem um pouquinho de comer ao seu lado.
      - Obrigada, Fred, respondeu com sarcasmo.
      Cris esperava que ningum a visse com ele. A constante ateno do rapaz a perturbava. Ele parecia sempre estar ao seu lado, no apenas na aula de anurio mas 
tambm na hora do almoo. Comeu seu sanduche em silncio, escutando o barulho esquisito que Fred fazia ao tomar o refrigerante.
      - Sabe, Fred, voc seria muito mais... atraente se, bem, no fizesse tanto barulho quando est comendo ou tomando alguma coisa.
      - Bela observao, disse ele sem parecer ofendido. No percebi que eu estava fazendo barulho, mas voc est certa,  num grosseiro.
      Cris deu-lhe um pequeno sorriso, e continuou a comer.
      - O que mais?
      - Como assim?
      O que mais me tornaria mais atraente? Quero dizer, no sou burro. Sei que no sou o tipo de rapaz pelo qual uma garota como voc se interessaria, por mais 
que eu sonhasse namor-la.
      - Fred!
      - No se preocupe. No estou tentando competir com o seu namorado, como lhe disse no incio das aulas. Ando pensando muito. No sou o seu tipo, e sei disso. 
Mas o que tenho pensado : Como posso melhorar pra um dia vir a atrair uma garota como voc?
      Cris sentiu-se meio sem jeito.
      - Sei no, Fred.
      - Sabe sim. Voc sabe o que as garotas gostam num rapaz. Faz de conta que voc  minha irm. O que diria? Quer dizer, tem d de mim, estou no ltimo ano e 
nunca sa com uma garota e toda as vezes que telefonei para uma ela desligou o telefone na minha cara. Voc no pode me dar um curso intensivo de "melhoria de personalidade"?
      Cris no sabia o que responder. Ningum jamais tinha lhe feito tal pedido. Mas o Fred era sincero e tinha bastante potencial. Ela sabia que, por ter se afastado 
do pai desde os nove anos de idade, certamente ele no dispunha de modelos positivos de masculinidade.
      - Bem, talvez pudesse tentar mudar o cabelo.
      - Como? Cortar?
      - Claro. Poderia ir a um desses sales onde eles sugerem o corte que melhor combina com o tipo do seu rosto.
      Fred pareceu animar-se com a sugesto.
      - Excelente idia. A minha me  quem corta meu cabelo desde que eu era menino. Talvez seja hora de mudar.
      - Claro, disse Cris com entusiasmo. D uma folga a sua me. Pea no salo que mostrem como deve arrumar o cabelo. Sabe, no precisa muito fixador, nada disso.
      - Eu uso o gel da minha me.
      - Talvez voc devesse comprar alguns produtos prprios para seu cabelo. Eles devem ter uma linha masculina, que seria bom, j que voc no precisa do mesmo 
tipo de produto que uma pessoa que usa permanente. Isso  apenas um exemplo.
      - Isso  timo, Cris! Voc no sabe o quanto aprecio seu conselho. Quer ir comigo ao salo? Podia ser hoje mesmo, logo depois da aula. Voc diz ao cabeleireiro 
o que acha que ficaria bem em mim.
      - Eu trabalho depois da aula, Fred. Mas obrigada pelo convite.
      - Na loja de animais do shopping, certo? Sem problema. Eu vou l depois mostrar pra voc como fiquei.
      - Voc no tem um jogo de futebol pra fotografar?
      - No tem problema. Peo a outra pessoa da equipe ir esta semana. Certamente o futuro de minha imagem  mais importante do que algumas fotos de futebol. Tenho 
me privado demais. Chegou a hora de dar passos mais ousados!
      Ela teve vontade de rir do Fred, tal era o nimo demonstrado por ele. Mas, na verdade, Cris apenas lhe sugerira um tratamento capilar sem grandes novidades, 
algo absolutamente normal. No entanto, percebia-se que para ele isso era muito importante. E ela ficou um pouco curiosa para ver o resultado.
      Na verdade, Cris ficou contente quando Fred apareceu na loja, embora no tivesse coragem de confessar isso nem ao Jon nem a qualquer pessoa no trabalho. S 
que parecia o mesmo. Nenhuma transformao ocorrera.
      - D uma ltima olhada no velho Fred, disse ele, ao aproximar-se de Cris, junto  caixa registradora. Volto dentro de uma hora e voc no me reconhecer.
      - Divirta-se! disse Cris com entusiasmo, ao mesmo tempo que lhe acenava com a mo, no momento que ele saa da loja.
      Pouco mais de uma hora depois voltava o Fred, justo no momento em que ela tiraria seu intervalo de caf. Estava a fim de um iogurte geladinho, e o Jon lhe 
dissera que na lanchonete da esquina tinham framboesa com chocolate da Bavria, o seu predileto. Mas Fred veio atrapalhar seus planos.
      - O que voc acha? indagou ele.
      Virou-se e mostrou o elegante corte de cabelo. Era a primeira vez que Cris o via sem brilhantina na cabea. A cor mudara. Em vez de margarina oleosa era loiro 
claro. Com o novo corte, ele ficara at bonito.
      - Est timo, Fred. Gostei. E voc, gostou?
      - Pareo outra pessoa. E tenho de agradecer a voc pela sugesto. Agora, preciso de seu conselho sobre uma camisa que esto guardando pra mim l na loja. Quando 
 seu horrio de caf? Eu queria muito saber sua opinio. 
      Cris hesitou, mas concordou.
      - Tenho alguns minutos agora mesmo, se voc promete que a gente no demora.
      - Sem problema. A loja  aqui perto e a camisa j est reservada.
      Fred saiu na frente e ficou esperando Cris. Jon e Cris se entreolharam. Ela comeou a dar explicaes. 
      - Escutei tudo, disse ele, e falando baixo, acrescentou: Se estiver em oferta, convena-o a comprar pelo menos duas. Parece que o guarda-roupa dele t precisando 
ser renovado.
      Cris apressou-se a acompanhar Fred. Nos seus quinze minutos de caf, eles andaram por toda a seo de roupa jovem e ele foi lhe mostrando um monte de camisas, 
camisetas, calas, e at meias, pedindo-lhe opinio sobre tudo.
      - Est na hora de voltar pra o trabalho, disse Cris. Tenho certeza de que voc consegue escolher sozinho, Fred.
      - Tudo bem. Acho que vou me lembrar do que voc mais gostou. Voc me ajudou muito, Cris, mais do que pensa. Muito obrigado. Obrigado mesmo.
      - s ordens. Ah! se tiver alguma coisa em oferta, talvez voc devesse comprar duas peas. Conselho de um amigo meu.
      - Bom conselho. Depois passo l para lhe mostrar as que escolhi. Mais uma vez, obrigado!
      Cris at poderia ter previsto a reao brincalhona do Jon quando ela voltou.
      - Quem sabe voc acaba se tornando uma consultora de modas, disse ele, sem erguer a cabea, atento a uma soma na caixa registradora. Pode ser que assim ganhe 
mais do que trabalhando numa loja de animais.
      - Pode guardar suas piadinhas. Eu s estava querendo ajudar o rapaz. Ele me pediu uma opinio.
      - Pense nisso, Cris. Se voc tiver talento natural para consultoria de moda, talvez devssemos abrir uma seo para donos de poodles. Ns lhe damos ls coloridas, 
e voc aconselha a cor do suter de cada cachorrinho.
      Cris achou engraado Jon dizer isso, porque, embora amasse toda espcie de animal, no tinha a menor considerao por poodles. Jon os achava uma aberrao 
da natureza, indignos de ser chamados de cachorros, quanto mais membros de carteirinha do reino animal.
      - Sabe, pode ser que a promoo aumente os negcios, Jon! Seria muito agradvel ver longas filas de fregueses na loja, cada um com seu poodle na mo. Um monte 
de poodles. Sim,  isso que essa loja precisa. Podemos colocar um cartaz na vitrine: "Poodles tm preferncia."
      Jon deu um largo sorriso.
      - Vou tirar uma folga de alguns minutos. Volto daqui a pouco.
      Cris esperava que Fred aparecesse durante o tempo que Jon estivesse fora, mas ele no apareceu. Jon ainda tinha aquele sorriso engraado na cara quando voltou, 
as mos para trs. Ensaiando um arzinho de seriedade, ordenou:
      - Agora quero que voc leve isso para os fundos e comece a marcar os vidros de rao de peixe. No volte enquanto no terminar.
      Deixando aparecer as mos que estava escondendo, mostrou uma grande taa da lanchonete, cheia do seu iogurte preferido: framboesa e chocolate da Bavria.
      - Ah! j que voc insiste, disse Cris com um suspiro, aceitando o presente. Voc  por demais severo comigo, sabe? Fica me tratando deste jeito - e Cris ergueu 
a taa para dar com esse gesto mais firmeza s palavras - e vou acabar achando que voc est com medo de que eu largue o emprego um dia desses.
      -  exatamente disso que tenho medo, disse Jon. E voltando ao tom brincalho, acrescentou:
      - Agora, mos ao trabalho!
      Cris tinha acabado de provar a primeira colherada do iogurte, quando ouviu Jon dizer:
      - Claro, pode ir v-la. Ela est nos fundos. 
      Um instante depois, Fred, o novo Fred da verso revista e atualizada, aparecia na sala dos fundos. Cris engoliu depressa iogurte, quase engasgando, e exclamou: 
      - Fred! Voc est um gato!
      - Gostou? Esta  a camisa azul que voc escolheu. Comprei outra verde tambm. 
      Ele realmente tinha passado por uma transformao. Estava bonito, na moda. Cris sabia que isso era uma grande vitria para ele, e de certa forma ficou contente 
consigo mesma por t-lo ajudado na metamorfose.
      - Devo tudo a voc, Cris. 
      Naquele momento, Cris escutou Jon dizer:
      - Pode ir l na sala dos fundos. A Cris est recebendo suas visitas l.
      Antes que ela pudesse virar a cabea, Fred, em sua exuberncia, passou o brao em torno dela, e exclamou:
      - Voc nunca entender o quanto significa pra mim, Cris! 
      Assustada com o abrao, Cris se afastou e virou-se. Era o Douglas que estava ali bem ao lado de Jon.
      - Ol! disse Cris cumprimentando Douglas, e sentindo o rosto queimando de vergonha. O que est fazendo aqui?
      - Oh no! disse Fred, dando um passo para trs. Esse muro de tijolos  o seu namorado?
      - S nos meus sonhos, disse Douglas.
      - Voc tambm, disse Fred, relaxando e estendendo a mo para cumpriment-lo. Eu sou o Fred.
      - Douglas. Devo mencionar, porm, com toda justia, que o namorado de Cris  o meu melhor amigo. Ele  o muro de tijolos com o qual voc devia se preocupar.
      No dava para acreditar que tudo isso estivesse acontecendo. Ser que o Douglas achava que estava rolando alguma coisa entre ela e o Fred? Ele no diria nada 
ao Ted, diria?
      - O Fred faz parte da equipe do anurio da escola comigo, disse Cris, esperando que Douglas se esquecesse de que vira o rapaz lhe dando um abrao. Ele fez 
umas compras e passou por aqui pra me ver.
      Fred sorriu, exibindo ao Douglas seus dentes desalinhados.
      - Ela me transformou num novo homem!
      Naquele momento, Cris diria que a transformao do Fred no era muito evidente. Ele ainda tinha a mesma personalidade e o mesmo jeito de rir, aproximando-se 
da cara das pessoas e provocando nelas o impulso de se afastar dele.
      - Com um novo corte de cabelo e roupa nova, disse Fred, abrindo os braos para que o vissem por inteiro.
      Uma etiqueta com preo ainda estava pendurada do lado de dentro de sua manga direita.
      - Estou novinho em folha! exclamou.
      - Parece que voc ainda tem um desconto de trinta por cento, meu chapa, disse Jon.
      Cris no tinha certeza se ele se referia  etiqueta de preo ou se isso era uma dica sutil indicando que ainda faltava muito para ele se tornar uma nova pessoa.
      Pegando uma faca de abrir caixas, Jon cortou o fio plstico da etiqueta de preo e entregou-o ao Fred.
      - Sabe, essa etiqueta me lembra alguma coisa. Voc se lembra, Cris?
      -  mesmo, a rao de peixes. Vou comear imediatamente, Jon.
      Jon sorriu para os dois rapazes, e continuou:
      - Etiquetar rao de peixes parece uma tarefa um tanto humilde para nossa coordenadora de modas, to popular. Ma a verdade  que eu lhe pago para fazer esse 
tipo de trabalho,
      O comentrio foi feito num tom brando, o que deixou Cris aliviada. Mesmo assim, ela sabia que, embora seu chefe fosse uma pessoa tranqila, ele podia ficar 
nervoso se tivesse muito trabalho ou pouca gente para cuidar do servio. Sabia tambm que o fato de ela ter pedido folga no sbado seguinte complicava ainda mais. 
Jon lhe dera a folga mesmo sem ter arranjado algum para ficar no seu lugar.
      - No tem problema, disse Fred. Tenho que ir andando. Vi um cartaz de liquidao em uma sapataria.  melhor eu comprar um par agora, antes que veja quanto 
j gastei. Pode ser que eu precise de um outro emprego e acabe colocando etiquetas em rao de peixes tambm, pra sustentar minha nova imagem!
      Cris e Jon se entreolharam. Passou ento pela cabea de Cris a idia de que, se Jon contratasse o Fred, ela poderia, sem problema algum, ficar livre de uma 
vez para sempre do trabalho aos sbados. Mas o olhar do Jon dizia claramente: "Nem pense numa coisa dessas!"
      Pegando uma folha de etiquetas j marcadas, Cris comeou a afix-las nos vidros redondos de rao para peixes. Jon voltou para a frente da loja. Fred saiu 
com seus pacotes, e Douglas ficou.
      - Quer ajuda?
      - Claro, obrigada. Quer um pouco do meu iogurte gelado?
      Sabia que era uma pergunta j respondida. Douglas adorava comer, de tudo, a toda hora, em qualquer lugar, qualquer tipo de comida. Claro que ele aceitaria 
um pouco do seu iogurte.
      Ainda bem que tomei uma colherada antes que ele aparecesse!
      Cris estava prestes a perguntar ao Douglas o que ele viera fazer ali quando da porta veio uma voz com um sotaque que ela conhecia muito bem.
      - Com licena, voc  o Douglas?
      Cris reconheceu Michael imediatamente. Ela sabia que ele e Douglas no se conheciam. Ento, por que ele estava  sua procura?
      - Sim, eu sou o Douglas.
      - E  verdade que voc esteve num barco na lagoa Shasta, no final da semana do Dia do Trabalho? indagou Michael em tom srio.
      - Estive.
      Douglas olhou para Cris como se lhe pedisse alguma explicao. Como esse desconhecido sabia que eles tinham passado o final de semana num barco? Antes que 
Cris pudesse fazer as apresentaes, Michael continuou, falando agora mais alto:
      - Foi voc que andou de jet ski com minha irm, Natalie?
      - Foi, sim... andei de Wave Rider com Natalie, mas...
      - Ento prepare os punhos, homem. Vim defender a honra de minha irm.
      Michael fazia o papel de irlands furioso de modo to convincente, que por um momento Cris esqueceu que isso tudo deveria ser uma piada. Ento viu Katie escondida 
atrs de uma gaiola, tampando a boca com a mo. Katie parecia estar gostando imensamente da brincadeira. Cris sabia que esta era a doce vingana de Katie do soco 
na cara.
      Douglas levantara o punho cerrado para se defender do irlands de cara vermelha.
      - Srio, cara, eu no fiz nada. Eu e Natalie andamos de jet ski. S isso! Estou dizendo a verdade.
      - No foi o que ouvi da Natalie. Ela era uma garotinha doce e inocente at que conheceu voc! Gente como voc precisa aprender uma lio, e sou eu quem lhe 
vai dar essa lio.
      Michael estava com os punhos em posio para uma luta de boxe. Com uma guinada do brao direito cortando o ar entre os dois, Michael mostrou ao Douglas que 
falava srio. Douglas estava atnito.
      - Estou lhe dizendo, no aconteceu nada entre ns! repetiu ele, a testa j molhada de suor.
      Cris queria acabar com a cena toda antes que as coisas fossem longe demais. O que ela tomava por piada era bem outra coisa para Katie.
      - Esperem, disse Cris, dando um passo  frente, preparada para explicar tudo ao Douglas.
      Naquele instante, Michael deu outro golpe fingido em direo ao Douglas. Este, numa reao involuntria ao soco que vinha de Michael, levantou o brao para 
se proteger. Em vez disso, bateu no queixo de Cris, derrubando-a.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
Uma Trgua
11






      - Cris, voc est bem? Douglas abaixou-se e tocou seu queixo de leve. 
      - Aaaai!
      Era s o que ela conseguia dizer. Era mais um gemido que uma palavra, porque a boca estava anestesiada demais para articular sons compreensveis. As plpebras 
pareciam pesar cem quilos cada. Embora ouvisse tudo que se passava ao seu redor, por mais que quisesse, no conseguia abrir os olhos.
      - Ela est inconsciente! gritou Katie. Douglas, o que foi que voc fez?
      - Katie! gritou Douglas. De onde voc veio?
      - Ela est comigo, disse Michael. Vimos voc entrando na loja de animais e pensamos em lhe dar um susto. No contvamos com isto. Voc consegue ouvir minha 
voz, Cris? Consegue abrir os olhos?
      Ela ouvia claramente a voz de Michael, mas as plpebras se recusavam a reagir. O nico som de sua boca era um gemido:
      - oooo.
      - O que aconteceu?
      Agora era a voz do Jon. Ela sabia que ele ficaria bravo com aquela brincadeira na loja. No poderia reclamar se ele fiasse chateado e resolvesse despedi-la. 
Tinha certeza de que era tudo culpa sua. A idia a fez chorar. Lgrimas rolaram de suas plpebras fechadas, e Cris no conseguia deter o pranto.
      - Olha, ela est chorando! exclamou Katie parecendo apavorada. Gente,  melhor chamar algum mdico.
      - Cris!
      Douglas e Jon chamaram o nome dela ao mesmo tempo. Sentiu uma mo forte levantando sua cabea e outra pessoa limpando-lhe o rosto, enxugando suas lgrimas 
com um leno de papel. Ento, sentindo livre as plpebras abriu os olhos devagar.
      Piscando algumas vezes e tentando firmar a voz, disse:
      - Estou bem.  verdade, estou bem. A frase soou meio confusa por causa do queixo latejando.
      - Sinto muito, Cris, disse Douglas baixinho, o rosto quase pegado ao dela. Vou ajud-la a levantar-se.
      Ele tomou um brao, e Jon segurou o outro. Cris ficou de p, envergonhada por ser o centro de toda essa ateno, exclamou:
      - Gente, estou bem! Verdade. Estou tima.
      - Ento por que est falando igual caminhoneiro? perguntou Katie.
      Cris tentou sorrir.
      - Ai.
      - Sabe, Douglas, disse Katie, no  de surpreender que voc no tenha uma namorada, com esse seu jeito de conquistador, sempre deixando sua marca em qualquer 
garota que se aproxime de voc.
      Michael e Katie riram-se.
      - Eu sou o Michael, namorado da Katie. Suponho que devo agradecer-lhe por ter causado o olho roxo nela. Foi a primeira coisa que notei. Se no fosse por aquilo, 
talvez nem tivssemos comeado a conversar.
      No momento, Douglas parecia mais interessado na Cris do que no namorado da Katie ou na crtica que fez dele.
      -  melhor voc se sentar, Cris, falou ele segurando seu brao e conduzindo-a at  mesa, providenciando uma cadeira para ela.  bom a gente arranjar um pouco 
de gelo para pr aqui. Tome, disse ele, entregando-lhe a taa de iogurte, agora derretido. Encoste isso no rosto at eu arranjar um pouco de gelo. 
      - J trouxe, disse Jon, voltando com um pacote de gelo. Ponha uma toalha de papel no rosto e depois encoste o gelo nela para no queimar.
      Com cuidado, Cris firmou o gelo contra o queixo ferido. Sabia que iria sentir dor durante algum tempo. 
      - Podemos declarar uma trgua? perguntou Douglas a Katie quando viu Cris botando gelo no queixo. Tenho de lhe dizer, o Michael foi bastante realista. Eu diria 
que voc ganhou, Katie. Acho que eu no conseguiria ganhar de voc nessa, e nem gostaria de tentar. Alm do mais, no tem graa nenhuma quando algum acaba se ferindo, 
principalmente quando  uma espectadora inocente, e olhou com pena para Cris.
      - Claro, vamos dar uma trgua. 
      Katie estendeu a mo ao Douglas. E com tom de alegria na voz, acrescentou:
      - Mas voc tem de admitir, foi uma boa! Michael, voc merece um prmio pelo seu papel de irmo mais velho defendendo a honra da irmzinha caula!
      Katie e Michael se cumprimentaram com um ruidoso e vibrante: "Toque aqui!"
      - Deixamos voc nervoso, no foi mesmo? disse Michael ao Douglas.
      Douglas concordou e apenas esboou um sorriso amarelo. 
      - O mais engraado, disse Katie, foi acusar o Douglas de se envolver com aquela menina quando a verdade  que ele nunca beijou uma garota.
      Todos ficaram em silncio, s quebrado pela risada de Katie. Cris sentiu todos os olhos sobre Douglas. Sabia que ele devia estar morrendo de vergonha na frente 
de Michael e Jon. Ele havia jurado que a primeira garota que beijaria seria sua esposa, no altar, no dia do casamento. Cris via nisso um propsito nobre e honrado. 
Admirava-o por manter esse padro - um rapaz de vinte e dois anos que jamais beijara uma garota. O jeito como a Katie falou fez com que ele parecesse um sujeito 
esquisito com algum problema srio.
      - Acho que devemos dar uma trgua geral, disse Cris, esforando-se para pronunciar as palavras com a boca latejando. Chega de gente machucada!
      Katie ficou sria e todo mundo olhou para Cris.
      - Na verdade, paramos aqui para ver se voc queria sair conosco depois do trabalho. Mas agora no me parece que voc esteja muito disposta.
      Cris abanou a cabea.
      - Mas obrigada por ter vindo me convidar. Parecia que a boca estava cheia de bolinhas de gude.
      - Voc vai fazer alguma coisa, Douglas? Quer sair conosco? convidou Michael.
      - No vai dar. Tenho de ir. Pretendia dar uma parada ultra-rpida para cumprimentar a Cris. Talvez outro dia.
      - Ento vamos indo, disse Katie, antes que causemos mais prejuzo. Tchau, pessoal. A gente se v depois, em condies menos excntricas, espero.
      Jon acompanhou Michael e Katie at a sada e disse a Cris:
      - V devagar. Se quiser sair mais cedo, no h problema, Conto com voc no trabalho amanh.
      - Eu virei.
      - Por que no vai para casa, Cris? sugeriu Douglas. Voc precisa tomar aspirina e se deitar. Seu queixo vai estar ainda mais dolorido amanh de manh.
      - Eu vou depois de terminar de pr preo na rao de peixes.
      - Eu fao isso para voc. Tenho certeza de que o Jon no vai achar ruim. Voc consegue dirigir at em casa? Eu poderia segui-la, se quiser.
      - No. Tenho certeza de que estou bem. No  longe e estou muito bem. Verdade. S um pouco dolorida.
      - Se voc tem certeza de que est bem...
      - Tenho sim. Obrigada, Douglas.
      - T certo! Voc quer dizer "Obrigada" por quase ter que brado o seu queixo...
      Cris levantou-se e ps a mo no brao do Douglas.
      - No foi culpa sua. Por favor, no fique se culpando, est bem?
      Douglas estava cabisbaixo, fitando os ps; depois, com timidez, olhou-a direto nos olhos.
      - Estou muito chateado com isso.
      - No fique assim. Eu no o culpo nem um pouco. No fique chateado. 
      O sorriso de Douglas voltou.
      - Obrigado, Cris, voc  um amor! disse ele e, carinhosamente, passou o brao sobre os ombros dela e deu-lhe um abrao.
      - O que  isso? Festival anual de abraos para Cris Miller e nos esquecemos de colocar um cartaz na vitrine? Disse Jon, enfiando a cara na porta da sala dos 
fundos. Ei! Chamei a Beverly e ela vai ficar no seu lugar pelo resto da noite. Pode ir para casa.
      - Est certo. Obrigada, Jon, disse Cris, apanhando sua bolsa e encaminhando-se para a porta. Vou procurar chegar um pouco mais cedo amanh. .
      - Voc se importa se eu terminar de colocar esses rtulos aqui para a Cris? perguntou Douglas.
      - Se eu me importo? De jeito nenhum; pode colocar!
      No momento que a porta se fechava atrs dela, Cris ouviu Jon perguntar ao Douglas:
      - Por acaso voc estaria procurando um emprego para trabalhar aos sbados?
      Cris sabia que isso estava fora de cogitao, ainda mais que o Douglas nem morava na rea. Ele estava s de passagem, vindo da faculdade para sua cidade onde 
iria passar o final de semana. Lembrou-se de que nem lhe havia perguntado por que passara por l.
      Talvez o Douglas conversasse com o Ted antes da Cri. Como ser que ele interpretaria o incidente para o Ted? No dia seguinte, ao telefone, Ted lhe dizia:
      - O Douglas ainda est muito chateado. Ele acha que foi culpa dele.
      - Eu lhe disse que no. Foi sem querer, disse Cris, apoiando os ps numa cadeira da cozinha e encostando-se na parede.
      - Vou falar com ele de novo amanh, quando ele voltar da casa dele.
      - Eu queria estar a e ir com voc  igreja amanh.
      - No prximo final de semana voc vir.
      - Sei, mas parece uma eternidade, replicou ela dando um suspiro.
      - O aniversrio do seu pai  amanh, no ?
      - Sim. Depois do culto vamos fazer um almoo especial para ele. Era pra o Bob e Marta virem, mas eles tm um torneio de golfe em Palm Springs. Ele vai todo 
ano. Vai ser s nossa famlia. Eu queria que voc pudesse vir.
      - O que voc comprou para o seu pai?
      - Uma lanterna de mo. Parece um presente meio bobo, mas  o que ele queria. E um tipo especial com sinal de emergncia e rdio embutido. Minha me acha que 
ele vai gostar. No parece um presente muito pessoal.
      - Ento por que voc no faz um carto bem pessoal? Voc no disse que escreveu uma redao para a aula de Ingls descrevendo seu pai? Ponha-a dentro do carto. 
 bem pessoal. Ele vai gostar e muito!
      - Voc acha?
      - Claro. Os pais gostam de saber que esto acertando de vez i em quando.
      Cris gostou da idia do Ted e copiou a redao num papel de carta florido. E nela acrescentou no final: "Pai, eu o amo embora no saiba expressar o quanto 
o amo." Assinou: "Para sempre, sua filha, Cristina Juliet Miller."
      Na tarde seguinte, quando o pai abriu os presentes, Cris comeou a sentir um aperto na boca do estmago. E se ele no gostar da carta? E se ele ficar ofendido 
com aquela parte sobre "tem cheiro de curral". O final  meio meloso. O que ser que ele vai dizer?
      O pai abriu o carto e leu a pgina em silncio, enquanto ela mordia o lbio inferior e tentava ignorar o olhar inquiridor de sua me. Para surpresa sua, ele 
no disse palavra alguma. Dobrou o papel, colocou-o com cuidado de volta no carto, e meteu o carto no envelope.
      - O que  que dizia? quis saber David. 
      O pai no respondeu. Olhou para Cris, e ela viu duas lgrimas rolarem no seu rosto. At onde se lembrava, nunca vira o pai chorar antes.
      - Voc gostou, pai? indagou quase num sussurro, sentindo o queixo ainda dolorido.
      - Cristina, disse ele, colocando as mos grossas sob o queixo da filha e levantando carinhosamente seu rosto. Voc me deu o melhor prmio que um homem poderia 
esperar na vida. Estou muito feliz com voc, minha filha.
      Agora a Cris chorava e sua me tambm. David ficou olhando de uma para a outra, perguntando:
      - O que foi? O que  que est acontecendo? Por que todo mundo t chorando?
      Cris jamais esperava essa reao. Ted dissera que todos os pais gostam de saber que esto acertando em alguma coisa, mais aquilo acabou sendo mais que um mero 
elogio ao pai dela. De alguma maneira, ele estava enxergando suas simples palavras como um tesouro maravilhoso. Foi uma experincia surpreendente e memorvel, e 
Cris resolveu que iria narr-la no seu dirio aquela noite. Descreveu a cena do almoo, e a reao de seu pai. Depois, acrescentou:
      "Isso me fez pensar no meu Pai celestial. No costumo dizer muito a ele o quanto o amo. Sei que ele me ama, embora eu nunca seja capaz de saber a extenso 
do amor dele. Acho que nunca serei capaz de dizer plenamente a Deus o quanto o amo."
      Cris teve ento uma idia. Se o corao de seu pai ficou to locado pelo fato de ela ter descrito seus sentimentos, quanto mais tocado no ficaria o corao 
do Pai celeste, vendo-a expressar seu amor por ele numa folha de papel?
      E durante uma hora, Cris se ps a escrever e encheu duas folhas, procurando falar a Deus do seu amor. Da mesma maneira que o almoo de aniversrio de seu pai 
tinha se tornado um momento de grande emoo para Cris e seu pai, essa hora em que derramou o corao no papel perante Deus foi uma bno para ela. Cris sentiu 
a, mais que nunca, o calor e a proteo de Deus. Teve a sensao de que ele estava bem ali, ao seu lado, o corao dele escutando o dela, os olhos cheios de lgrimas, 
do mesmo jeito que o pai ficara com lgrimas nos dele.
      Mais tarde, no telefone, Cris tentou explicar ao Ted o que sentia. Ele ouviu com ateno, e depois disse:
      - Sabe, se a ira  o "sangue" que sai do amor quando o cortamos, deve haver algo contrrio, que venha do amor quando ele  nutrido. Deve ser uma espcie de 
doce perfume ou coisa parecida.
      - Ted, voc j pensou como  potico o que acaba de me dizer?
      - ,  mesmo. Isso a surpreende?
      - O qu? Se estou surpresa de saber que voc, no fundo,  romntico? No, na verdade, no. Sempre soube que  assim que voc pensa e sente, apesar de no falar 
muito sobre isso,
      - , de fato. Sou mesmo. Mas estou guardando.
      Houve uma pausa e Cris ficou se perguntando o que ele queria dizer. Ele estaria guardando suas expresses de romantismo para ela ou para o futuro, ou para... 
(no gostava da idia) outra pessoa?
      - H tempo para tudo, continuou Ted. Tempo para guardar os sentimentos mais ntimos e tempo de express-los a outrem. Ainda no chegou a hora de eu falar dos 
meus sentimentos mais profundos. Mas tenho certeza de que voc sabe que eu os tenho.
      - E quando ser a hora certa?
      - No sei. Como  que as folhas sabem que chegou a hora de mudar de cor?  algo sobrenatural, que elas fazem de modo natural, quando Deus coloca todos os elementos 
certos no lugar. No momento,  hora de ns dois... ele parecia no encontrar a palavra certa.
      - Aproveitarmos o momento presente? sugeriu Cris, lembrando-se do conselho do tio l no barco.
      - , creio que sim. Mas mais que isso. Vou ter de pensar um pouco mais no assunto.
      Cris tambm ficou pensando no assunto. E pensou principalmente quando ia para a aula na sexta-feira. Algumas rvores j iam trajando sua veste outonal e danavam 
 brisa da manh. Lembrou-se da pergunta do Ted: "Como  que as folhas sabem que chegou a hora de mudar de cor?" e de que havia uma hora certa para tudo.
      E a hora de ver o Ted finalmente vai ser hoje  noite! No vejo a hora de sair do trabalho e ir a Newport com ele. Vai ser bom Bob e Marta terem voltado do 
torneio de golfe. Eles no se importam de eu passar o final de semana com eles.
      O pensamento parece que tornou mais leves e alegres os seus passos. Cris enfrentou as aulas da manh resolvida a passar uma boa parte do horrio do almoo 
com Michael e Katie. Os ltimos dias tinham sido bastante difceis. Parecia que sempre que Katie dava um passo para melhorar a amizade delas, Cris estava numa disposio 
crtica. Quando Cris tentava ser paciente e compreensiva, Katie ou Michael dizia alguma coisa que a deixava chateada e ela se afastava deles, com receio de dizer 
alguma coisa de que se arrependesse. Hoje Cris queria paz.
      - Adivinhe o que vamos fazer este final de semana? perguntou Katie no momento que Cris se aproximou dela, debaixo da rvore.
      Michael ainda no tinha chegado.
      - Vamos a San Diego hoje  noite, e amanh cedo vamos passear de barco para ver as baleias! No lhe parece o mximo?
      - Onde  que voc vai ficar?
      - Lembra daquela garota, Stephanie, onde ficamos h uns meses, quando fomos ao estudo bblico dos "Amigos de Deus"? Peguei o nmero dela com o Douglas. Ela 
est no mesmo apartamento, e nos convidou a ficar com ela. No  legal?
      - Voc e o Michael vo ficar no apartamento dela?
      - Vamos. Ela tem dois quartos, voc sabe.
      A alegria de Katie foi aos poucos sumindo de seu rosto.
      - Pensei que voc ficaria contente por mim, comentou.  pedir demais? Por que voc  to severa comigo?
      - Parece um pouco estranho, vocs dois passarem o final de semana no mesmo apartamento. No acha?
      - Cris, eu no acredito! Por que voc no aceita a minha palavra? O Michael  supercavalheiro. No estamos fazendo nada errado. A moral dele  to forte como 
a minha.
      Dava para notar que Katie estava comeando a ficar esquentada. Seu rosto sardento indicava claramente, como um termmetro, o que acontecia por dentro, e no 
momento a linha vermelha estava subindo  cabea.
      - Voc est comeando a me irritar, Cris! Eu dou um jeito de arranjar as coisas com um monte de cristos para o Michael poder estar perto deles e talvez at 
assistir  reunio do grupo "Amigos de Deus" no domingo  noite, e voc me faz sentir culpada, como se eu estivesse fazendo alguma coisa errada!
      - Me desculpe.
      - Mas voc no est arrependida! Voc tem o seu padro, que eu considero uma farsa, j que voc vai passar o final de semana com o Ted...
      - Vou ficar na casa dos meus tios, e voc sabe bem disso.
      - E eu vou ficar na Stephanie.  a mesma coisa. Voc e o Ted vo ficar juntos o final de semana todo. Por que seria errado eu apresentar o Michael a alguns 
amigos cristos? Cristo, devo dizer, que no julgam tanto quanto voc!
      As palavras de Katie tocaram fundo no esprito de Cris, e ela sentiu as lgrimas prestes a lhe subirem aos olhos. Logo estaria com os olhos rasos d'gua.
      - Preciso ir, disse ela, levantando-se e pedindo licena assim que viu o Michael se aproximar. Realmente espero que vocs tenham um timo final de semana e 
que o Michael se torne crente. Sinto muito por ser do jeito que sou, Katie.  que gosto demais de voc e no quero que se machuque.
      Cris pegou seu lanche (que no comera) e estava prestes a ir embora quando Katie disse:
      - Eu sei disso. No se lembra do que eu lhe disse quando estvamos no bote? No existem garantias. Eu sei disso. Sei que  tarde demais para ter garantias 
de que no vou me machucar. O mesmo se aplica a voc e ao Ted, Cris. Ou voc no est disposta a enxergar isso?
      Cris no podia encarar Katie. No conseguia conversar com ela quando as coisas ficavam tensas desse jeito. Tentando conter as lgrimas, afastou-se um pouco 
e cumprimentou o Michael dizendo "Ol, tudo bem?" com fingida camaradagem. Continuou andando em direo quele lugar solitrio  mesa do ptio que tantas vezes nos 
ltimos tempos tinha se tornado o seu refgio.
      S que naquele momento Fred havia tomado o seu lugar e com ele havia duas garotas primeiranistas, uma de cada lado. Ele trajava uma de suas roupas novas e, 
ao se aproximar, Cris ouviu uma das meninas perguntar como elas fariam para que suas fotos sassem no anurio.
      - Eu diria que como primeiranista sua melhor chance seria fazer algo extraordinrio na aula de culinria. Se sabem quando vo fazer um bolo ou coisa parecida, 
vocs duas poderiam acrescentar, digamos, anilina verde.  s me avisar com antecedncia. Eu vou at a sala e documento tudo em filme. 
      Ele dava um tom to... oficial. Cris sentia-se confusa. No queria se aproximar deles, principalmente agora que o Fred tinha essa nova imagem e parecia estar 
atraindo as garotas, ainda que do primeiro ano. Mas agora o lado triste era o fato de que ela no tinha com quem lanchar.
      Nesse momento, mais que nunca, percebeu como tinha feito poucas amizades na escola. Teri tinha se formado ano passado. Britany e Jane, duas garotas com quem 
costumava andar p l no primeiro ano, tinham se mudado. Katie era a nica pessoa com quem ela vinha almoando nos ltimos dois anos e meio. A no ser o Fred. E 
agora at mesmo ele tinha outros amigos.
      - Srt. Cris! gritou ele, ao v-la, embora ela tentasse passar despercebida. Venha aqui!
      Cris suspirou, piscou os olhos para deter as lgrimas intrometidas, estampou um sorriso no rosto e foi se juntar ao Fred e ao f clube dele.
      - Qual  o problema? ele perguntou imediatamente, assim que ela se aproximou.
      Devo ser a pessoa que menos sabe fingir neste mundo. No consigo esconder minhas emoes nem do Fred.
      - Meu queixo ainda est um pouco dolorido, respondeu. 
      Era verdade. Enquanto conversava com Katie, ela estivera cerrando os dentes sem perceber e o queixo doa.
      -  meio difcil comer, explicou.
      - Por que no pega pudim ou gelatina numa das mquinas de venda?
      Cris fez que sim indicando que gostava da sugesto e notou sua cmara na mesa. Ocorreu-lhe que seria bom peg-la de volta para usar no final de semana.
      - J acabou de usar minha mquina fotogrfica?
      - Tem mais umas quatro fotos no rolo.
      - Se importa se eu a levar de volta? indagou Cris pegando a mquina e removendo a tampa da objetiva para ver pela ocular. Voc no bagunou nada no?
      - Claro que no!
      Fred parecia ofendido com semelhante insinuao. Dava para v-lo claramente pelo visor e Cris teve a inspirao repentina de tirar foto dele para que ele visse 
como era ser pego em flagrante.
      - Meninas, vocs sabiam que o Fred passou por uma espcie de transformao no final da semana passada?
      Fred parecia contente que a Cris ainda estivesse notando e comentando sua melhora. Ela o centralizou perfeitamente na objetiva. Agora tinha de aproximar um 
pouco mais as duas meninas.
      -  verdade! Ele cortou o cabelo e at furou a orelha! 
      As duas meninas corresponderam maravilhosamente. Imediatamente chegaram perto para ver a orelha cada uma do seu lado. A expresso delas era de curiosidade 
e espanto. Fred abriu a boca e esbugalhou os olhos. Nesse exato instante, Cris bateu a foto.
      - Esta vai ser perfeita para o anurio!
      As duas primeiranistas pareciam encantadas. Seu desejo iria ser satisfeito. Fred deu um salto e tentou arrancar a mquina das mos de Cris. Ela a ergueu acima 
da cabea, fora do alcance dele, e disse:
      - Ora, Fred,  a nica foto que tenho de voc agora, e voc tem pelo menos uma dzia de fotos minhas. No acha justo que eu fique com esta?
      Fred sentou-se de supeto no banco.
      - Est certo, eu entendi, Cris. Ha-ha-ha! Uma piadinha ai. Vamos negociar. Voc me d essa foto e eu lhe devolvo as que eu tirei de voc.
      - Acho que no, Fred. Acho que esta foto anula a do ano passado na pizzaria que o Rick o convenceu a tirar. Isso quer dizer que tenho pelo menos mais uma dzia 
para tirar de voc antes do final do ano.
      - Aquilo foi idia do Rick, no minha. Vamos l, Cris, seja camarada!
      Cris ia dar uma de durona para acertar as contas quando se lembrou de como as coisas estavam caminhando entre Katie e Douglas quando os dois faziam o doce 
jogo da vingana. Embora no incio parecesse uma brincadeira sem maldade, com a continuao dela as pessoas comeavam a se ferir. Cris cedeu.
      - Est certo, Fred. Vamos fazer uma trgua. Eu preciso de minha mquina de volta. Quando eu revelar o filme, voc resolve o que fazer com sua fotografia.
      Fred sorriu mostrando os dentes.
      - Obrigado, Srt. Cris. Voc  o mximo.
      Cris foi embora sem comer seu lanche, levando sua mquina fotogrfica, resolvida a tirar as ltimas fotos do estacionamento como Katie havia sugerido no incio 
das aulas. Algo dentro de si dizia-lhe que ela acertara por no ter levado avante sua disputa com Fred. Talvez fosse aquele perfume de que Ted falara, a fragrncia 
que vem quando se nutre o amor em vez de feri-lo.
      timo! pensou Cris ouvindo uma condenao na mente. Tenho um excelente relacionamento que estou cultivando e logo com o Fred, ao passo que entre mim e minha 
melhor amiga s surge raiva. Est na hora de uma trgua, Cris. Mas como  que vamos arranjar isso?
      
      
      
      
       
      
      
Um Punhado de Pesares
12






      - Jon, j estou de sada! disse Cris a seu chefe, um minuto depois das nove, na sexta-feira  noite, assim que ele comeou a trancar a loja.
      - Um timo fim de semana para voc! gritou ele. Diga ao Ted que mandei um abrao.
      - Est certo. Obrigada! E obrigada pela folga de amanh.
      Cris fechou a porta e correu para seu carro no estacionamento mal-iluminado.
      O Ted deveria estar esperando-a em casa. Ela estava com a mala pronta para a viagem  casa de Bob e Marta.
      Estava to agitada sobre o encontro com o Ted, que as chaves tremiam em sua mo. Na primeira tentativa de enfiar a chave na fechadura, deixou cair o chaveiro 
e se abaixou para peg-lo. Ficando em p, tentou novamente com mo trmula.
      - Precisa de ajuda? perguntou atrs dela uma voz grave Cris virou-se e quase soltou um grito:
      - Ted, eu no sabia que voc estava a!
      Ele abriu os braos e os dois se abraaram. Ela escutava aa batidas do corao dele. Estava batendo to forte quanto o dela, ou era imaginao sua?
      Ted ficou a segur-la por alguns minutos, apertando o rosto contra seu cabelo.
      -  to bom ver voc, Kilikina, sussurrou.
      Cris sentiu vontade de chorar, estava to contente e to animada por estar finalmente junto dele e sentir seus braos fortes na sua cintura.
      - Pensei que voc estaria esperando l em casa, disse ela quando ele a soltou e se ps a olhar o rosto dela a um brao de distncia. Ser que ele notaria a 
marca roxa do queixo, uma recordao agora quase sumida de sua coliso com o brao do Douglas na semana passada?
      - Cheguei  cidade h poucos instantes. Sabia que voc estava saindo do trabalho e pensei em vir lhe fazer uma surpresa. 
      - E foi uma surpresa mesmo! Onde voc estacionou a kombi? 
      - Ali, naquele lado, replicou ele indicando com o queixo por cima do ombro. Eu vou seguindo seu carro, est bem?
      - Est certo! concordou Cris rindo-se de sua mo trmula ao tentar mais uma vez enfiar a chave na fechadura. Se eu conseguir abrir essa porta!
      - Deixe-me abrir, ofereceu-se Ted como se fosse um cavaleiro andante vestido de armadura.
      Colocou a mo em cima da dela. Era quente, forte e confiante. Juntos, abriram a porta do carro de Cris.
      - Obrigada, disse ela dando um sorriso iluminado. Eu o vejo em casa.
      Cris queria que partissem para Newport imediatamente. Mas Ted no parecia muito ansioso. Trouxera um presente para o pai de Cris, e ela teve de reconhecer 
que foi um gesto muito simptico. O pai demorou-se para abri-lo, pois a me serviu po de abbora, que acabara de fazer, ao Ted e ficou fazendo perguntas a ele sobre 
os estudos.
      David, naturalmente, ficara acordado para ver Ted e tentava convenc-lo a lev-lo de novo para andar de skate.
      - Est certo, cara. Que tal no prximo final de semana, se eu vier no sbado? props Ted.
      - Legal! Voc vai ver s quantos truques novos aprendi.
      - Ah ? J sabe defender-se de um soco?
      De brincadeira, Ted aplicou um soco contra a orelha direita de David, comeando a uma luta livre no cho da sala. A me tirou depressa a mesinha de centro 
e se ps a observar os dois lutando como se fossem irmos.
      Nada como compartilhar o namorado com a famlia inteira! pensava Cris.
      J passara das dez quando, finalmente, Ted colocou a bagagem de Cris em seu carro. Os pais dela os acompanharam  porta e deram a costumeira lista de recomendaes, 
terminando com o pedido mais importante de sua me, isto , que ela ligasse para eles assim que chegasse  casa dos tios.
      Cris sentou-se no banco rasgado da "Kombi Nada". Ted costumava colocar sobre ele uma toalha de praia, para evitar que o estofado sasse para fora, mas hoje 
no havia nenhuma. Cris teve de procurar a posio certa para que o vinil rasgado no a incomodasse.
      Mas da a pouco j havia esquecido o desconforto da Kombi e conversava animadamente.
      - Acho que meu pai gostou bastante do livro que voc deu. Foi to legal da sua parte, Ted, comentou ela elevando bem a voz por causa do barulho do veculo.
      Durante a primeira hora de viagem, conversaram sem parar. Cris percebeu que sua garganta doa de tanto falar. Ento aquietou-se e deixou que Ted falasse mais. 
Era to bom estar na companhia dele, e passar com ele, finalmente, esse fim de semana.
      Assim que chegaram  casa de Bob e Marta, Ted foi direto  geladeira servir-se de um copo de suco de laranja.
      - Quer um pouco, Cris?
      Ele se sentia bem  vontade na casa deles, que freqentava mesmo quando Cris no estava por perto.
      -  claro.
      - Gelo?
      - Sim, por favor. Vou telefonar para os meus pais. 
      Avisou-os de que chegara bem. Quando estava prestes a desligar, sua me disse:
      - Divirta-se, filha. Para ns  um conforto saber que podemos permitir nossa filha de dezessete anos passar o final de semana fora, sabendo que est tomando 
decises ajuizadas.
      Quando desligou, Cris pensou em como seus pais estavam diferentes em relao a alguns anos atrs. Era agradvel saber que, apesar dos altos e baixos, ela conquistara 
a confiana deles. Com essa confiana, as restries eram menos e ela gozava de maior liberdade.
      - Ento j vou indo, disse Ted, quando Cris desligou.
      Colocou o copo vazio na pia, e perguntou:
      - E amanh, o que voc quer fazer, Cris? 
      - Vamos sair para tomar caf.
      - tima idia, interveio Marta. Sei de um lugar timo para ns quatro.
      Cris queria dizer s ela e o Ted. Como poderia "livrar-se" da tia? Mas talvez isso no tivesse importncia. O importante  que estaria com o Ted.
      - Por volta das oito? indagou Marta. 
      - Estarei aqui s oito, concordou Ted, acenando "boa noite" e saindo.
      - Ele no lhe deu um beijo de despedida, disse Marta enquanto Cris terminava sua laranjada. Por que ele no a beijou? 
      - No sei.
      - Vocs dois no se beijam?
      - Sim, s vezes.
      - E o que mais?
      - Nada mais. Bem, ficamos de mos dadas e nos abraamos.
      Marta olhou para Bob e depois para Cris.
      - Isso no me parece muito natural, querida. A esta altura dos acontecimentos, eu achava que vocs dois estavam bem mais adiantados no relacionamento fsico. 
Pensei at em ter uma conversa de mulher para mulher com voc sobre o lado fsico do namoro, mas voc no me parece muito interessada neste tipo de conversa.
      - Eu acho que tudo est exatamente como deveria estar. No tenho do que me arrepender agora e no quero nunca ter do que me envergonhar.
      - Muito nobre, disse Bob. Eu e sua tia respeitamos e apoiamos voc pelos padres que adotou, no  mesmo, Marta?
      Cris observou a tia mudar de expresso - deixou de ser crtica para ser compassiva. Ela sinceramente desejava o que fosse melhor para a sobrinha. Cris sabia 
disso, embora seus mtodos pr vezes fossem um pouco fora de compasso.
      - , Cristina, tenho de concordar. Tem uma moral exemplar. A maioria dos jovens de sua idade no age assim. Vocs dois so inteligentes. Acho que devamos 
estar contentes de saber que os programas de educao sexual de sua escola esto dando resultado.
      Cris teve at vontade de rir. As discusses abertas na sua escola tinham lhe ensinado as complicaes e conseqncias de "ir longe demais", mas era seu relacionamento 
com o Senhor que fazia com que ela decidisse agir de forma correta.
      - Na verdade, o que faz a diferena para mim e o Ted  que somos cristos e queremos obedecer a Deus.
      - Ah! concordou Marta.
      - Sabe, disse Bob, mudando de assunto, acho que eu quero dormir at tarde amanh. Por que voc e o Ted no saem sozinhos para o caf da manh e  noite jantamos 
juntos os quatro?
      - Para mim est timo, disse Cris. Tudo bem com voc, tia Marta?
      -  claro, querida. Certamente vocs dois vo se divertir mais passando o tempo a ss. De qualquer maneira, conhecendo as preferncias do Ted,  provvel que 
seja um caf da manh mais simples. Podemos planejar algo mais elegante para o jantar.
      Na manh seguinte, o Ted apareceu logo depois das oito. Marta estava certa: vestia short, sandlias de couro e malha com o capuz de sempre - a informalidade 
em pessoa.
      Cris levantara s seis para tomar banho, arrumar o cabelo e se vestir. Embora estivesse de jeans cortados e camiso de chambray com camiseta branca por baixo, 
ela levara muito tempo se produzindo; o mesmo que levaria se estivesse se aprontando para um baile de formatura. A maquiagem era leve e perfeita, com rmel certinho 
nos olhos. O cabelo, limpo e leve, estava solto, sem nenhuma das fivelas ou clipes que a tia Maria queria que usasse. Cris estava bonita e bem-arrumada, pronta para 
o que desse e viesse.
      - Vamos s voc e eu, disse baixinho  porta. Eu explico no caminho.
      Ted conduziu-a at  kombi e abriu a porta para ela. Cris notou que a toalha de praia estava no lugar, cobrindo o assento. Sentiu certa satisfao interior 
ao perceber que Ted havia notado seu desconforto na vspera, e providenciara para que ela tivesse mais conforto. Sentou-se e Ted ligou o carro.
      - Ah, Ted! Por acaso esta toalha est molhada?
      - Puxa, desculpe! Fui surfar hoje cedo e deixei minha toalha a para secar, e assim dizendo, tirou-a da poltrona. Mas o banco ainda est molhado, no ?
      - No tem importncia.
      - Tem sim. Ei! j sei. Voc dirige e eu sento a.
      - Sei no, Ted...
      A nica vez que Cris havia dirigido e Ted viajara como o passageiro foi em Maui, quando ele foi picado por uma abelha e ela teve de dirigir na esburacada estrada 
de Hana.
      - Claro que consegue! Em comparao com Hana, dirigir em Newport  fichinha.
      Ted desceu, deu a volta correndo e, antes que ela desistisse, trocou de lugar com ela.
      Cris apertou o cinto de segurana, ligou a kombi e desceu a rua.
      - No sei onde sua tia pretendia que a gente fosse tomar caf, mas j que agora sou eu que estou pagando, o Carl Jr. est bem?
      - Claro. Me diga onde que eu viro.
      - Entre  direita no nosso cruzamento.
      Cris foi dirigindo devagar e olhou Ted pelo canto do olho. Ele havia dito "o nosso cruzamento". Era onde ele lhe havia dado o primeiro beijo e onde lhe dera 
tambm a pulseira de chapinha. Ela tambm j pensava naquele lugar como "nosso cruzamento", mas nunca ouvira o Ted falar assim.
      Um leve sorriso lhe aflorou aos lbios. ; agora ela e Ted estavam namorando de verdade. Ele tambm j considerava sagradas as coisas que tinham acontecido 
entre eles. Coisas como aquele cruzamento, que era importante para eles.
      Virou  direita e a "Kombi Nada" deu um solavanco ao entrar no estacionamento do restaurante. Estacionou, desligou o motor orgulhosa de ter chegado at ali 
sem problemas.
      - Parece que a kombi est reconhecendo uma velha amiga, comentou Ted. Ela no atende bem assim para qualquer um, espero que voc saiba disso.
      Ele chegou ao balco e pediu caf "Sol Nascente" para dois.
      Pouco depois, a refeio era trazida  mesa e Ted estendeu a mo para segurar na de Cris. Em seguida orou.
      - E ento, que negcio foi esse com seus tios? 
      Cris resumiu o que tinha acontecido na vspera,  noite, inclusive a pergunta da Marta por que ele no lhe tinha dado um beijo de despedida. Ele ficou pensativo 
e ento, aproximando-se mais de Cris, explicou em voz baixa:
      - No  que eu no queira beij-la mais. Voc sabe disso, no sabe?
      Cris sentiu o rosto avermelhar. Esperava que mais ningum tivesse escutado.
      - H tempo para tudo, disse Ted, ainda com a voz baixa. Tenho um compromisso com Deus de manter equilbrio em tudo e fazer o que devo s quando ele disser 
que est na hora. No  fcil, no.
      Cris tomava sua laranjada, o olhar fixo no do Ted, cujos olhos azul-prateados se achavam perto dos seus.
      - Tem algo que quero lhe falar, Cris. Espero que entenda o sentido certo do que vou dizer. Uma coisa que realmente aprecio em voc  que voc no fica dando 
em cima, se insinuando para mim. Sabe o que quero dizer?
      - No tenho certeza, respondeu Cris, mantendo os olhos fixos nos de Ted.
      - Voc deixa que eu tome a iniciativa e isso  muito bom. 
      Cris fez que sim com a cabea, incerta sobre o que ele dizia, mas certa de que realmente ela deixava com ele as iniciativas.
      - As garotas no imaginam o que fazem com um cara quando "do em cima". No s pelo toque, mas pelo modo de se vestir. Adoro o jeito como voc se veste. Est 
sempre bonita. Linda mesmo. Mas no procura se exibir, nem provocar a gente.
      Cris sentiu que estava recebendo um curso sobre o que os rapazes pensam e, embora j tivesse ouvido algumas dessas coisas antes, era bom ouvi-las do Ted. Assim 
essas questes ficavam mais reais e pessoais. Ele continuou:
      - Deixando que eu tome a iniciativa, voc tem me ajudado a dar a direo certa ao nosso relacionamento. Isso  porque voc tem muita... dignidade  a nica 
palavra que me vem  mente. Voc se v como um dom, um tesouro. E a gente percebe isso e  o que a torna absolutamente linda, Cris. Voc no tem idia do quanto 
 linda...
       verdade! Eu no tenho uma idia precisa de tudo que voc est dizendo. S estou sendo eu mesma.  maravilhoso estar aqui sentada, ouvindo voc me dizer que 
sou linda!  um sonho que se torna realidade.
      Naquele instante, Cris sentia com Ted o mesmo que sentia ao telefonar para os pais na noite anterior. Muitas vezes, antes, ela desejara correr  frente do 
Ted e apressar o relacionamento. Agora estava contente por ter deixado que se desenvolvesse no ritmo prprio e no tempo certo. Se ela no tivesse sido paciente, 
o Ted jamais estaria lhe dizendo essas coisas.
      Comeram em silncio por alguns minutos numa atmosfera agradvel. Para Cris, era como se a brisa que soprava em torno dela de repente passasse a carregar todos 
os perfumes possveis. Sentia o corao cheio de contentamento, depois de ouvir as palavras do Ted.
      - Tem mais uma coisa que faz tempo que queria lhe perguntar, disse ele quando voltaram para a kombi.
      - Pode me perguntar o que quiser, disse ela tomando o banco de passageiro.
      - Ainda est molhado?
      Cris tocou o assento antes de sentar. O sol havia secado o banco enquanto comiam.
      - No, j secou. Est timo.
      Ted ligou o motor e deixou o estacionamento.
      - Pensei que podamos ir  ilha Balboa. Voc topa?
      - Claro. O que voc queria me perguntar?
      - Acho que preciso criar coragem para perguntar.
      - Pode perguntar.
      - Cris, sei que talvez eu no devesse me preocupar com isso, mas queria lhe perguntar sobre o Rick. Quando vocs estavam namorando, o que foi exatamente que 
aconteceu entre vocs dois? Venho fazendo tudo para no me envolver com isso, mas o Rick disse certas coisas de voc, quando ramos colegas de apartamento ano passado, 
que simplesmente no "batem" com a Cris que eu conheo. Quero ouvir de voc. Se voc no se sentir bem de falar sobre isso, tudo bem, eu entendo. Vai ver que eu 
nem deveria estar lhe perguntando.
      - Claro que deve. No h muito que dizer. Samos algumas vezes. E depois eu terminei com ele. No foi um relacionamento muito bom. Depois que acabei com ele, 
at me aproximei mais de Deus. Por qu? O que foi que Rick disse?
      Ted hesitou e depois suspirou fundo.
      - O Rick disse que voc era fcil. Que fazia tudo que ele queria.
      -  mentira! protestou Cris elevando a voz. Ele disse isso de mim? Ele  um canalha! Como voc podia acreditar nele? Ted, no acredito que voc pensasse que...
      - Eh! relaxe! Eu no disse que acreditei nele. Conheo voc. Como estava lhe dizendo, isso me incomodava e resolvi conversar com voc sobre o assunto.
      - Ted, disse ela, desta vez num tom mais sereno. O Rick  o tipo de cara que parece conseguir tudo que quer. Por alguma razo, ele resolveu que me queria. 
Agora que sei que tipo de rapaz ele , fica tudo muito mais claro, mas tenho que admitir que na poca me senti um pouco confusa. Achava que ele realmente gostava 
de mim por eu ser eu mesma. Ele tinha uma lbia! Agora sei que alguns caras conseguem manipular as garotas com o que dizem. Na poca eu no sabia. Acho que estava 
querendo mesmo um namorado. Achava que precisava ter um namorado. Voc estava de partida para o Hava e o Rick era muito atencioso comigo...
      - Eh! no precisa pedir desculpas por nada, Cris. No estou lhe pedindo um relatrio do seu relacionamento. Isso  entre Deus e voc. Acho que eu apenas queria 
ouvir da sua boca que ele no se aproveitou de voc.
      - Ele tentou mais de uma vez. Beijou-me algumas vezes, mas eu sempre me afastava. Sei que ele ficava zangado por isso. Mas eu no achava certo ter intimidade.
      - Ento foi s isso? Uns beijos.
      - E alguns abraos. Nada mais.  incrvel que ele tenha dado a entender que tivssemos feito mais que isso!
      - Tenho certeza de que com algumas garotas foi mais. Talvez ele tenha ficado com o orgulho meio ferido por no ter sido assim com voc.
      Chegaram  rampa da balsa que fazia a travessia para a ilha Balboa. A kombi fez um barulho ao subir pelo piso de metal. Ted desligou o motor e sugeriu que 
sassem do carro durante a curta viagem do continente  ilha.
      Cris ficou perto da amurada da balsa contemplando as guas azuis da baa. A brisa da manh estava fria e ela cruzou os braos para se aquecer. Ted veio por 
trs e abraou-a, enterrando o rosto em seu cabelo. De repente, ela se lembrou de uma vez em que o Rick fizera a mesma coisa, sussurrando palavras doces no seu ouvido. 
Isso a deixou zangada. Sentia raiva de si mesma por ter namorado o Rick. Se ao menos tivesse esperado, teria compartilhado todos esses momentos e sentimentos comuns 
ao relacionamento de um rapaz e uma moa apenas com o Ted.
      - Eh! Por que voc est to tensa?
      - Estou zangada. Estou com raiva de ter namorado o Rick. Com raiva de no ter esperado voc. E antes que voc diga que essa ira  o sangue que sai do amor 
quando  ferido, afirmo que no ! O amor no fazia parte do meu relacionamento com o Rick. No era um amor verdadeiro.
      - Cris, no seja to dura com voc mesma! Lembre-se de quando voc estava com ele. No houve alguns bons momentos? Algumas lembranas agradveis?
      Ted tinha razo. Tinha vivido alguns bons momentos com o Rick - gangorrando no parque, empinando papagaio na praia, a primeira vez que foram a um restaurante 
chique, o Villa Nova.
      - Sim, houve alguns momentos bons. No foi tudo ruim, e ele no fez nada para estragar a minha vida para sempre.
      - Olhe aqui, disse Ted, soltando-a e colocando-se diante dela para fitar-lhe o rosto.
      Ele juntou as mos formando uma taa.
      - Ponha seus pesares e tristezas aqui dentro, disse.
      - Como?
      - Nas minhas mos. Ponha todos esses pesares e sentimentos negativos aqui dentro. "Pegue" o que foi bom e guarde no corao. O resto, ponha aqui.
      Cris olhou-o meio desconfiada. Depois, entrando na brincadeira dele, estendeu a mo sobre as dele, fazendo de conta que deixava cair nelas as coisas ruins.
      - Pronto. Agora o que voc vai fazer com meu monte de cinzas?
      - O mesmo que Deus faz com os nossos pecados, disse ele, fingindo atirar o punhado de pesares ao vento e no mar. Ele os afasta de ns assim como o Oriente 
est afastado do Ocidente, e os joga no fundo do mar.
      Fitando os olhos de Cris, Ted dirigiu o olhar ao corao dela dizendo:
      - Deus no cobra isso de voc. Portanto voc tambm no deve cobr-lo de si mesma. Foi tudo embora, Cris. Agora procure lembrar-se apenas do que foi bom.
      - Voc est certo!
      Cris respirou fundo o ar gelado da manh. Ted sorriu, formando a covinha em sua bochecha.
      - Deus quer nos dar "uma coroa em vez de cinzas" se deixarmos.
      A balsa entrou na baa e os dois carros que estavam atrs do deles ligaram os motores.
      - Vamos embora! disse Ted, abrindo a porta para Cris entrar.
      Saram da balsa e desceram a rua estreita. Na segunda esquina, numa das casas,  esquerda, havia um "bazar de quintal". *
      - Vamos parar. Tem lugar para estacionar?
      - Parece meio apertado. Faz o seguinte, voc desce, e eu dou a volta no quarteiro.
      Foi o que Cris fez e a primeira coisa que avistou foi uma velha estante. Na etiqueta de preo estava marcando cinco dlares. Antes que pudesse mudar de idia, 
enfiou a mo na bolsa, tirou uma nota e pagou. Quando Ted virou a esquina, ela fez sinal para ele indicando o objeto. Ele parou em fila dupla, abriu a porta e colocou 
a estante no veculo. Eles entraram e foram embora.
      - No  uma graa? Eu precisava de algo assim no meu quarto para guardar minhas bugigangas. Esta vai ser perfeita. Claro que precisa de uma pintura. Voc me 
ajuda a pint-la? 
      Ted sorriu.
      - Essa foi a compra mais veloz de que se tem notcia! comentou ele. Claro que ajudo. Podemos passar na loja de tintas, pintar hoje mesmo, para que fique seca, 
e voc possa levar para casa amanh.
      - Perfeito! exclamou Cris. No  uma gracinha? Voc no achou uma graa?
      O sorriso continuava no rosto de Ted.
      - Se voc diz...
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
Amar e Bem Querer
13




      - Como est indo? perguntou Ted vindo at  frente da casa, onde Cris colocara sua estante sobre uns jornais. 
      Tio Bob havia lixado o mvel com a lixadeira eltrica, e ele estava pronto para receber a base. Cris estivera misturando a tinta enquanto Ted, na cozinha, 
preparava os sanduches. Entregou-lhe um prato de papel com um imenso sanduche de peito de peru e uma poro de chips de batata.
      - Voc deve estar pensando que vou ficar com um apetite de leo!
      - O que pensei foi que eu acabo comendo o que voc no quer comer, replicou o rapaz, atacando seu sanduche igualmente enorme. Marta disse que fez reserva 
para o jantar. Vamos os quatro. Mas isso vai demorar algumas horas.
      - Bem, estou pronta para comear a pintura. Se quiser um pedao do meu sanduche, sirva-se. Mas deixe um bocado para mim.
      - Tudo bem! disse Ted, sentando-se na escada e comendo. Voc trabalha; eu supervisiono.
      Cris enfiou o pincel na tinta e comeou a pintar o interior da estante.
      - Boa idia, comear por dentro. No esquea a parte de baixo das prateleiras.
      - Ted, voc acha que o branco  a melhor cor? Estou pensando se no deveria ter comprado um amarelo-claro ou um rosa-plido.
      - Branco est bom.
      - No, srio, voc no acha que devamos ter escolhido uma cor mais interessante? Quem sabe um azul-celeste?
      - Branco est bom. 
      Cris virou-se para ele e sacudiu o pincel cheio de tinta.
      - Para voc realmente no faz diferena, no  mesmo? 
      - Eu acho que branco est bom, falou, e deu uma dentada no sanduche. Combina com tudo. E fcil de combinar com qualquer coisa. Branco est bom. 
      Cris deu uma risada e voltou ao trabalho. 
      - Eu gostei mesmo desta estante. Ela vai ser a "casa nova" de um monte de velhas lembranas que tenho. A maioria de voc.
      - De mim? A nica coisa que j lhe dei foi a pulseira. Ah! e o coco que mandei de Oahu.
      - Continue pensando. Lembra das flores que me deu? 
      - Aquelas branquinhas quando voc ia voltar para o Wisconsin?
      - Cravos, Ted. Eram cravos brancos. Eu os sequei e guardei numa lata decorada. Foi o nico lugar que encontrei para guard-los, quando nos mudamos aqui para 
a Califrnia. Ainda esto guardados.
      - Incrvel! J faz quase trs anos, disse Ted, dando a ltima mordida no seu sanduche.
      - . Naquelas frias em que fomos a Disneylndia e voc comprou um ursinho Puf. Lembra?
      - Lembro, a Disneylndia. Eu me lembro, falou encostando-se na cadeira e cruzando os braos sobre o peito. Eu queria causar uma boa impresso em voc e deixei 
que voc pensasse que era eu quem estava pagando tudo. Depois, quando devolvi o que sobrou do dinheiro da sua tia, no final da noite, achei que voc fosse me matar! 
Voc no jogou um sapato em mim ou coisa parecida?
      Ela riu-se.
      - ! No d pra acreditar! Eu achando que voc fosse me dar um beijo de despedida, e voc me entrega um mao de dinheiro dizendo que me levou l porque minha 
tia o convenceu eu a ir.
      - Voc achava que eu fosse beij-la?
      - Claro.
      - De jeito nenhum! Eu era covarde! Nunca havia beijado uma garota. Tenho que confessar que pensei nisso o dia todo, mas quando chegou a hora, no tive coragem.
      - Voc se lembra da primeira vez que me beijou?
      - Claro, jamais me esquecerei. Foi dois dias mais tarde, mas a tudo havia mudado. A Trcia me contou que voc tinha entregado o corao para Jesus e ia voltar 
para o Wisconsin. Quando cheguei l naquele nosso cruzamento, pensei: "Est certo, Ted,  agora ou nunca!" E foi "agora". Jamais me esquecerei, explicou ele parecendo 
muito contente de contar o fato.
      - Nem eu, afirmou Cris.
      Ela pintou mais um pouco em silncio e depois perguntou
      - Como , voc vai me ajudar nisso aqui, ou no?
      - Claro, me d um pincel. Quer que eu faa a frente ou os fundos?
      - O que voc quiser.
      Ted se agachou ao lado de Cris e estendeu o brao.
      - Que tal se a gente pintar juntos o mesmo lado? Eu vou corrigindo o que voc fizer de errado.
      - Ah ? Estamos ficando exageradamente confiantes?! E quem lhe disse que eu vou errar?
      - S estou sendo precavido.
      Cris adorava sentir-se assim, prxima dele, com os ombros largos do Ted logo acima dela. Ela se inclinou para trs e encostou-se de leve no seu peito.
      -  isso que eu chamo de trabalho em equipe!
      Naquele momento ouviu um barulho conhecido, porm no muito apreciado: o clique de uma mquina fotogrfica. S que dessa vez era o Bob, e no o Fred, quem 
segurava a cmera.
      - Resolvi ver se sua mquina estava mesmo funcionando, disse Bob com um olhar divertido. Mas, por favor, no quero atrapalhar vocs dois.
      - Cris acabou de me perguntar o que eu achava dela com uma mancha de tinta no nariz e eu estava prestes a lhe mostrar, disse Ted, levantando o pincel e preparando 
o ataque.
      - timo, timo. No vou atrapalhar! disse Bob posicionando a cmera bem perto dela.
      - Espere! gritou Cris ao ouvir de novo aquele clique. A tinta  para a estante, no pra mim!
      - Certo. Ahn... e o que  mesmo uma estante? Ah! j sei!
      E assim dizendo, Ted passou um pouco de tinta na ponta do nariz de Cris.
      - Isso aqui no  estante! Isto aqui que ! replicou ela, dando uma pincelada no rosto do Ted. Ah, errei: aquilo no era estante, era uma covinha. Agora, onde 
 que est a estante?
      - No tenho covinhas, disse Ted levando a mo ao rosto.
      - Tem sim. Notei isso na primeira vez que fomos  ilha Balboa, quando andamos de bicicleta dupla. Lembra? Compramos os esquims Balboa.
      - Isso mesmo, e voc ficou com uma mancha de chocolate bem a no rosto!
      Ele enfatizou a recordao, fazendo um risco de pincel na face de Cris.
      - E ficou de bigode o resto do dia! concluiu.
      - Foi voc que pediu, cara! disse Cris em tom de brincadeira. Esta pincelada  por voc nunca ter escrito uma carta para mim! falou e fez uma lista no brao 
dele.
      Clique! a mquina de novo.
      - Eh! Eu lhe mandei um coco!
      - E esta aqui  pelas vezes que voc me deu caldo no mar! disse ela correndo o pincel no outro brao dele.
      - pa! Acabou o filme, disse Bob. Acho que vocs tm de dar uma trgua.
      Cris e Ted olharam um para o outro. Os dois empunhavam os pincis, prontos para atacar.
      - Trgua? indagou Cris.
      - Trgua, concordou Ted.
      E como se estivessem se cumprimentando, bateram juntos os pincis num "Toque aqui!" sendo imediatamente salpicados por um chuvisco de pequenas bolinhas.
      - Olhe s pra ns! disse Cris, rindo s gargalhadas, vendo Ted de tinta na cara, no cabelo, em tudo. Ser que estou to engraada quanto voc?
      - No. Est mais.
      Depois que pararam de rir e limparam a tinta dos clios, voltaram ao trabalho. Uma hora depois a estante havia se transformado num branco depsito de todas 
as lembranas de Cris. Afastando-se para admirar o trabalho, ela disse:
      - Sei l. Um rosa-prola ficaria bonito.
      - O branco est bom, afirmou Ted. Depois de seco, voc vai ver.
      Ele foi para casa, que ficava a alguns quarteires dali, tomar banho e se aprontar, enquanto Cris subiu para o banheiro de hspedes da sute onde se acomodara. 
Pequenos pingos de tinta estavam grudados em seus braos e no rosto. Voltar ao normal foi um processo lento, e ela precisou de uma dose extra de loo depois que 
terminou. Vestiu um jeans e uma camisa branca de cambraia, arregaando um pouco as mangas compridas.
      Ted j havia chegado e estava na sala embaixo, vendo televiso com o tio dela.
      - Voc j deu uma olhada? perguntou Cris.
      - Dei uma olhada em qu?
      - Na estante. Pra ver se secou.
      - Ela s vai estar completamente seca amanh, disse Bob. A Marta lhe disse que vamos sair para jantar dentro de uma hora? Ela fez reserva num restaurante novo 
em Huntington.
      Ted levantou-se, e disse:
      - Ento temos tempo para uma caminhada na praia. 
      Cris sorriu para o belo jovem que se aproximava dela. Seu cabelo curto, cor de areia, ainda estava molhado. Os olhos azuis iam ao encontro dos seus, e ele 
estendeu a mo, convidando-a a caminhar. Ela ps a mo na dele e saram juntos pela porta corredia. Tiraram os sapatos e deixaram que os ps se afundassem na areia 
fresca.
      - Parece que o pr-do-sol vai ser magnfico hoje. Olhe s como o horizonte est ficando carregado de nuvens. Quando o sol bater no mar, elas vo ficar rosadas 
e alaranjadas.
      - Elas so o p dos ps de Deus, disse Cris.
      - Ah, se lembrou, hem! falou Ted, apertando-lhe a mo. Sim, essas nuvens vo se transformar em montes de p hoje. Parece que Deus tem andado muito por estas 
bandas.
      Caminharam em silncio, de mos dadas, at chegarem  beira d'gua, onde a areia era firme e molhada. Mecanicamente, Ted passou seu polegar sobre a corrente 
da pulseira "Para Sempre". Cris se lembrou ento de que nunca perguntara a ele se sabia quem pagara para ela recuperar a pulseira.
      - Ted, quero lhe perguntar uma coisa. Voc havia reservado umas perguntas para mim hoje cedo. Agora sou eu que fao perguntas. Primeiro, quero perguntar se 
voc sabia que o Rick roubou minha pulseira.
      - O que voc quer dizer?
      Cris explicou que havia tirado a pulseira do brao e guardado na bolsa. Como deixara a bolsa no carro do Rick, pensou que a tivesse perdido. Mais tarde soube 
que ele havia trocado a pulseira por outra - uma de prata, maior, mais pesada com o nome dele, "Rick", gravado. Cris calculou que ele a tivesse roubado. Ento depois 
que desmanchou com ele, foi compr-la de volta no joalheiro onde ele a havia trocado pela de prata.
      - Eu no sabia nada disso, disse Ted, parado no lugar, sentindo a mar subir e banhar-lhes os ps.
      - Queria saber tambm se foi voc quem liquidou o dbito para que eu a pegasse de volta. O joalheiro s me disse que foi "um cara".
      - No fui eu, pois eu nem sabia. Ser que no foi o Rick?
      - Por algum tempo pensei que fosse, mas quanto mais penso no assunto, menos acredito nisso.
      - Quem sabe foi o seu pai? Ou seu tio Bob?
      - Talvez. Mas acho que nenhum dos dois soube do que aconteceu. Acho que vai continuar sendo um mistrio, falou ela.
      Ted remexeu os dedos dos ps para desenterr-los da areia e, segurando com firmeza a mo de Cris, saiu caminhando de novo.
      - No tem importncia continuar sendo mistrio. O que importa  que voc est com a pulseira.
      - , eu tambm "agento" um pouco de mistrio. Mas isso me deixa ainda com mais raiva do Rick.
      - Espere um pouco! Essa no foi uma das coisas que jogamos no mar hoje cedo? indagou o rapaz, fazendo o gesto de jogar algo ao mar. Voc quer sair por a nadando, 
tentando catar as cinzas de novo? No vale a pena, Cris. Deixe para l.
      - Voc tem razo, concordou.
      Cris encostou a cabea no ombro do Ted. Aps uma breve pausa, acrescentou:
      - Eu queria poder abrir mo desse problema com a Katie e o Michael tambm.
      - Mas a  diferente. Esse voc no pode soltar, no. Nesse caso, voc tem  que segurar mais firme.
      - Mas quando digo a ela que ele no  cristo e ela deveria terminar o relacionamento, ela fica contra mim. Detesto causar toda essa confuso.
      - Ento, voc vai mudar de opinio sobre namoro de crente com no-crente?
      - No. Tenho convices firmes quanto a isso.
      - E o que voc pode mudar?
      Cris pensou um pouco. No tinha certeza. Quando o Ted dissera "mudar", ela se lembrara de quando ele perguntara! "Como  que as folhas sabem que  hora de 
mudar?" A resposta era que se tratava de algo sobrenatural que Deus faz acontecer de modo natural.
      - , parece que no conseguirei mudar nada. S Deus. Posso  pedir que ele faa alguma coisa sobrenatural de modo natural.
      Ted apertou de novo sua mo.
      - E pode pedir, pedir, e continuar pedindo. Normalmente recebemos boas respostas quando persistimos em orao.
      - Mas enquanto isso, meu relacionamento com a Katie esta prejudicado.
      - , concordou Ted.
      - Pra mim  impossvel mudar a minha maneira de pensar sobre o namoro dela com o Michael.
      - Entendo.
      - Queria que fosse mais fcil e que Deus no demorasse tanto para atender s oraes da gente.
      - Concordo com voc.
      - Como voc leva tudo isso "numa boa"?
      - No levo numa boa. Tenho orado pela Katie e o Michael desde aquela noite que nos encontramos com eles no cinema. A nica coisa que me d esperana  que 
Deus disse que h tempo para tudo. Katie est passando por um momento em que tem de tomar algumas decises importantes, e voc precisa ficar do lado dela. A, dependendo 
das decises que ela tomar, chegar a hora de vocs duas chorarem juntas ou de danarem. Para mim, agora  tempo de orar.
      - Vamos orar, ento?
      Ted a conduziu  parte mais seca da areia, um pouco adiante, e os dois ficaram sentados juntinhos, de mos dadas, orando por Katie e Michael. Quando ergueram 
o rosto, o sol j mergulhava no mar. Como Ted havia previsto, as nuvens tipo "p dos ps de Deus" estavam iluminadas pelas cores do pr-do-sol tpico da Califrnia: 
mbar, tangerina, limo e rosa claro.
      Embora no pudesse explicar, Cris sentiu que tudo iria acabar bem com a Katie. Talvez porque ela, Cris, simplesmente entregara a situao nas mos de Deus 
no momento em que oraram. Talvez fosse esse maravilhoso pr-do-sol. Tudo mais parecia pequeno ante a grandeza magnfica que Deus exibia. Se Deus podia dizer ao sol 
a hora certa de se pr, certamente poderia dizer a Katie a hora de terminar com o Michael, com ou sem a interveno de Cris. Cris resolveu que iria orar pelos dois 
todos os dias, e queria continuar vendo as coisas dentro dessa perspectiva - do ponto de vista de Deus.
      Ted colocou seu brao nos ombros de Cris e puxou-a para mais perto dele.
      - Sabe, Kilikina? H muito tempo que eu estava orando para que ns dois estivssemos juntos assim.
      Descansando a cabea no seu ombro, Cris respondeu:
      - Eu tambm tenho pedido isso a Deus, Ted. Lembra quando voc, um dia desses, disse que era tempo de nos alegrarmos?
      - Lembro, replicou ele em voz baixa e doce.
      - Acho que sei uma expresso melhor.
      - ? Qual?
      - Amar. Para ns, agora  tempo de amar.
      Aconchegada a ele, Cris sentia vibrar dentro de si o eco harmonioso de suas palavras.
      - Gostei dessa. Tempo de amar.
      Juntos contemplaram o pr-do-sol, cada qual ouvindo a respirao firme do outro e sentindo o calor um do outro.
      - Olhe s a cor daquelas nuvens, sussurrou Cris ao ver diluir-se no cu as ltimas nuanas do rosa. Viu.  uma espcie de rosa-prola, no ?
      Ted entendeu a dica.
      - Branco tambm  uma boa cor para uma nuvem, no acha?
      - Mas voc no acha que rosa-prola  uma cor que combina com algo que se quer guardar para sempre?
      - Sabe de uma coisa? indagou Ted agarrando a mo de Cris e conduzindo-a de volta para casa. Acho que temos tempo de ir at a loja de tintas antes do jantar 
e comprar uma lata de tinta cor-de-rosa. Afinal de contas, que outra cor seria melhor para uma estante "engraadinha" de cinco dlares?
      - Bem, o branco  muito bom! Disse Cris, entrando na brincadeira. Mas no para aquela estante. Ela tem de ser rosa-prola. A mesma cor do "p dos ps de Deus".
      - Porque ela  para guardar para sempre.
      - Certo, ela  pra guardar.
      - Voc tambm, Kilikina.
      Ted se deteve por um instante e abraou-a.
      - Voc  aquela que eu amo e a quem quero bem.
      

* Nos Estados Unidos, o Dia do Trabalho (labor Day)  observado na primeira segunda-feira de Setembro, e o ano letivo comea na tera-feira aps esse feriado. As 
frias de vero so de junho a agosto. (N.da T.)
* Leprechaun: um duende lendrio, da Irlanda, e existe um cereal matutino vendido nos Estados Unidos, com bonecos de aparncia e sotaque irlands, que dizem "graas 
aos meus encantos da sorte". (N. da T.)
** Nos Estados Unidos, os poucos alunos selecionados para redigir e produzir o anurio do colgio tm aulas especiais de redao, editorao, fotografia e layout 
(como matria para crdito de currculo). (N. da T.)
* Letters to Malcolm: Chiefly on Prayer (Cartas a Malcolm: principalmente sobre mao). Nova Iorque: Harcourt, Brace and World, 1964, p. 97.
* Nos Estados Unidos, os jovens tiram carteira aos dezesseis anos, mas nesse caso, muitos pais, como os pais da Cris por exemplo, insistem com os filhos para que 
trabalhem e paguem o combustvel e despesas eventuais do prprio bolso. (N. da T.)
*  "Bazar de quintal" (no original yard sale): um comrcio caseiro muito comum nos Estados Unidos. As pessoas expem para venda os objetos pessoais que no lhes 
interessam mais, como roupas, mveis, livros, brinquedos, etc, a preos bem baixos. Esse "bazar"geralmente  montado no quintal ou na garagem da residncia. (N. 
do E.)
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